Sábados

Meus olhos vão procurando por discos voadores no céu enquanto o tabaco vai se auto consumindo entre meus dedos. Na outra mão, o copo meio vazio, já quente. Uma da manhã.

Na minha frente, com o andar cambaleante, o vejo se aproximar da menina com cara de estou-sempre-sentindo-um-cheiro-ruim-debaixo-do-nariz. Como toda menina com cara de estou-sempre-sentindo-um-cheiro-ruim-debaixo-do-nariz, ela joga os cabelos para trás como quem diz “não vai rolar” e se afasta. Ele se aproxima de outra, que logo beija o cara ao seu lado. O rapaz fica sem reação, e eu não posso mais assistir aquilo.

Sinto uma vibração no bolso: “Ele acabou de postar uma foto com ela”. Respondo: “Deixa pra lá, vem pra cá, vamos arranjar um mais bonito pra você”. Sem resposta, mas eu tentei ajudar.

Pego uma cerveja com um ambulante e fico ali, esperando. Todos já estão lá dentro, mas eu espero mesmo assim. Seria até estranho se eu não fosse eu, e não fosse conhecido por estar sempre esperando o que não sei o que, quem e como é.

Outro cigarro, outra cena. Um grupo de amigos apostando em quem vai beijar mais bocas na noite. Parece que o Pedro é o que mais se garante, mas se você me perguntar, o Daniel ganha fácil essa aposta.

Finalizo o cigarro e sinto que estou pronto para entrar. Lá dentro encontro os amigos. Beijos e gritos e Cássia! Não demora muito e estamos eufóricos e tem as luzes e alguém me passa um baseado e a cerveja caindo no chão e cara, cuidado com meu copo e ah, não tem problema, eu pego outra e VAMOS PRO PALCO e tá tocando Como Nossos Pais e eu amo tanto essas pessoas e esse é o melhor momento da minha vida e nada nunca vai ser melhor que isso e deixa eu ir no bar pegar mais uma.

Onde é que eles estão mesmo? Não acho ninguém e resolvo que é hora de ir ao banheiro. Passo pela fila do feminino e vejo duas meninas reclamando que não ficaram com ninguém, que a festa está horrível, que a noite está sendo uma droga, e eu não poderia discordar menos. Elas não viveram aquele momento que eu vivi?

Metade da cerveja sai enquanto outra metade entra e eu penso que nada pode ser melhor que isso. Eu adoro isso aqui, eu adoro essas pessoas, e eu adoro essa cerveja gelada, e eu amo essa música e eu adoro o Centro, mesmo que tenha sido assaltado antes não muito longe daqui.

Volto para a pista de dança e não encontro mais ninguém. Preciso encostar na parede porque o casarão começou a girar. Qual o problema desses produtores, querem fazer todo mundo cair?

Passaram-se cinco minutos ou uma hora, e eu estou ficando sóbrio. Não seria mal beijar alguém pra variar. O que temos em volta? E mais cinco minutos ou uma hora se passam e ainda não beijei ninguém. Que festa horrível, essa noite tá sendo uma droga.

Encontro minha amiga, dou um beijo nela e ela me paga com uma cerveja. Voltamos pro palco, mas eu queria voltar pra casa. Não sei se consigo beber mais nada, mas bebo mesmo assim. Vejo outro amigo falando alguma besteira nos ouvidos de cada coisa que se move nessa festa, e tenho vontade de poupa-lo disso, mas de que adianta? Aparentemente todos nós aqui estamos sozinhos e querendo alguém ao lado.

E sentado na beirada do palco começo a pensar nisso enquanto toca alguma música de fim de festa que adoro, e droga, como queria estar beijando alguém, e eu olho a minha volta, todos parecem infelizes. Ou sou só eu? Os copos estão pela metade, mas aparentemente ninguém consegue mais beber. Onde foi parar nosso carnaval?

Saímos, cansados e tropeçantes, abraçados uns nos outros. A Baía de Guanabara é linda com o mar vestido de laranja, mas eu não reparo em nada disso, só tiro uma foto. Sinto que mais tarde vou querer ver isso. Ou meus seguidores, pelo menos.

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