Alisson não vai — e não deve — parar de driblar

Após 3 jogos sem sofrer gols e impressionando com os pés e com as mãos, Alisson Becker cometeu seu primeiro erro com a camisa do Liverpool. Após um recuo complicado de Virgil Van Dijk, o brasileiro dominou a bola e mesmo com a opção de bater pra frente, tentou driblar Iheanacho. O tiro saiu pela culatra e o Nigeriano roubou a bola, rolou para Ghezzal e o Leicester estava de volta no jogo em questão de segundos.

O erro foi, de fato, isso. Um erro. Mas é um que estava para acontecer cedo ou tarde e veio em boa hora, já que não prejudicou a equipe. Isso vai acontecer mais algumas vezes, tenha certeza — e esteja preparado — , mas não significa que o goleiro brasileiro deva sacrificar seu estilo de jogo.

Como o vídeo acima destaca, mais importante que o erro em si foi a reação do camisa 13 após ele. Na primeira jogada após sua falha, Alisson teve a oportunidade de dar um chutão numa bola, onde muitos goleiros o fariam. No entanto, ele vê uma pequena janela de passe e decide sair jogando, calmo, como se nada tivesse acontecido segundos atrás. Essa, sim, foi a jogada mais importante do jogo.

Mas vamos parar para analisar a jogada que deu origem ao erro. Alisson tem, sim, a maior parcela de culpa, mas não a única.

Para começar, Jordan Henderson coloca seus dois zagueiros sob pressão, de forma desnecessária, num espaço de 5 segundos, o que força Van Dijk a eventualmente recuar a bola para Alisson.

Em seguida, Alisson recebe a bola e procura uma opção de passe. Joe Gomez deveria ocupar o espaço demarcado e dar uma opção simples para o goleiro, mas não o faz e limita as opções do camisa 13 para:

  • Chutar pra longe
  • Driblar o atacante

Alisson escolhe a opção errada e o gol nasce daí.

Tudo isso, no entanto, é questão de adaptação. Alisson ainda está aqui a pouco tempo e Joe Gomez também acabou de se tornar titular na zaga, ambos ainda terão muito tempo para se conhecer e esse movimento logo se tornará bem mais comum, evitando situações do tipo.

O importante a se tirar desse erro é que Alisson não pode — e não vai — parar de fazer o que faz. Afinal de contas, foi pra isso que ele foi contratado!

Mas ele é goleiro, foi contratado pra defender chute e pronto!!!

Calma pai/avó/qualquer pessoa acima de 30 anos de idade que eu já conversei na vida. Eu sei que é estranho pra você, mas, hoje, o goleiro é a primeira linha de ataque!

Nas primeiras 3 rodadas, apesar de algumas ótimas intervenções, o principal tópico de conversa sobre Alisson era a qualidade de seu passe e a melhoria que ele providenciou na saída de bola.

Ele não só acerta muitos passes, como acerta passes muito difíceis. Após 4 rodadas, Alisson lidera a liga em porcentagem de passes certos entre os goleiros, com 88% das bolas que saem do seu pé encontrando um companheiro de equipe.

Mas vocês já pararam pra pensar no porquê essa porcentagem é tão alta? Seria simplesmente por ele ser muito bom no fundamento de passar a bola?Sigam essa linha de pensamento:

Para um jogador de linha, é mais fácil acertar um passe sob pressão ou sem ninguém a sua volta, bloqueando uma linha de passe, parte da sua visão e esperando um único erro de controle ou um momento de indecisão para dar um bote na bola?

Obviamente, é muito mais fácil achar um companheiro na primeira situação. E por que seria diferente para um goleiro? É muito mais fácil achar um jogador se você tem tempo para tomar suas decisões.

Agora some A + B:

Alisson tem uma ótima porcentagem de acertos de passes, pois ele, por diversas vezes, tem um campo de visão livre e tempo para tomar suas decisões. E como ele consegue isso? Driblando!

Assista o vídeo acima e conclua por si só! Analise quantas opções Alisson ganhou após driblar o atacante, em comparação a quantas opções ele tinha antes.

Em muitos desses lances, os não adeptos a prática do goleiro-linha podem dizer que preferem que seus goleiros chutem a bola para longe ou para a lateral. Isso não é errado em várias situações, mas para o Liverpool, em especial, é a pior coisa que poderia acontecer em um lance do tipo. Klopp gosta da bola, gosta de manter a posse e gosta de controlar o jogo. Se a cada vez que o goleiro for pressionado seu time abrir mão da posse da bola, é um lance que deu errado no jogo.

Alisson custou o que custou aos cofres do Liverpool não só pra ser um goleiro embaixo das traves, mas pra ser também um criador fora dele. Ele veio para defender, mas também veio para atacar, criar, passar e driblar. Não se paga o que se pagou por ele para se ter o convencional e sim para ter o diferente, o que poucos fazem, o que diferencia um grande e um ótimo goleiro.

O camisa 13 chegou ao Liverpool com status de goleiro de primeira prateleira, e conquistou isso com os pés tanto quanto com as mãos. Foi isso o que fez Klopp ir atrás dele e não pode-se abrir mão disso. Então, Alisson, drible, passe, crie, mate alguns torcedores do coração se necessário, mas continue tendo essa influência positiva, que já é clara, no nosso jogo. Erros acontecerão, esse não foi o primeiro e não será o último, mas é um pequeno preço a se pagar pelos benefícios que vem junto com essa prática.

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