O homem dos pesadelos renitentes

Roberto tentara de tudo. Remédios, remédios pesados, drogas ilegais, papoula e, é claro, álcool. Agora, como dizem, estava limpo. Limpo… A palavra sempre lhe trazia um sorriso de canto de boca. Um muxoxo descrente. Um espasmo insano semelhante ao princípio de uma gargalhada. Algo que se detia após o primeiro som. Que poderia ser humor, mas era tudo menos isso. Agora, parado, perdido, com as portas do Sanatório Sanctum abertas a sua frente, a liberdade imposta quase que como compulsória, banho tomado e barba feita, a palavra lhe viera a mente como uma agulhada. Ou uma pontada fina e aguda de uma ferramenta médica estranha em formato de gancho feita para ferir, que deixa a carne trazendo consigo um fio de algo asqueroso e ruim, com a textura de cânhamo podre, que não deveria estar sobre a pele e que parecia nunca parar de crescer. Que tinha de ser extraído cirurgicamente, dolorosamente, repetidamente. Um verme, um cordão sujo e vivo, repleto de esporos e ferrões, com bocas dentadas e circulares nos dois extremos do corpo, preso pela própria tensão. Eram as palavras do prontuário. O relatório de sua alta. As mentiras. Mentiras!

Mentiras contadas por ele e repetidas e aceitas pelo médico. As mentiras da convenção social. O paciente está livre das drogas. O paciente não tem mais episódios de agressão. O paciente voltou a dormir. O paciente não se queixa mais dos pesadelos. O paciente não sofre mais de delírios. O paciente não necessita mais de medicação. O paciente demonstra lucidez. O paciente já pode cuidar de si. O melhor para o paciente é dar continuidade à própria vida. O paciente… O paciente… O paciente… Só porque alguém não ataca outra pessoa, não quer dizer que não tenha episódios de agressividade. Só porque finge ignorar os fantasmas desmortos, não quer dizer que não se sinta cercado por eles. Só porque não comenta mais seus sonhos, não quer dizer que não tenha pesadelos horríveis. Pesadelos insistentes, que assaltam noites a fio, sem nunca, nunca desaparecerem. Como uma viagem em um trem noturno para o inferno, pontualmente às 22h30, sete horas de estadia bem contadas. E o despertar às margens do abismo. A loucura. O terror. A liberdade como a morte, desejada e repelida. O preço: o silêncio.

Roberto internou-se por iniciativa própria, mas não obteve autorização para sair. Segundo o médico, pela gravidade de sua situação psicológica. Embora os clínicos do lugar admirassem a sanidade do reconhecimento do próprio estado de loucura admitido pelo paciente, nunca acreditaram em nenhuma outra palavra que ele dissera. A existência do franzino e belo Robert tornou-se ainda pior. A rotina no asilo, o afastamento final dos poucos amigos que lhe restavam, a convivência degradante com outros loucos. Homens enormes que defecavam, velhos que eram como bebês, mulheres que trepavam com tudo que encontravam… Pessoas, muitas vezes, em alguns aspectos ao menos, semelhantes a ele: nem sempre tratáveis.

A prisão acabou por quebrá-lo por completo. O espírito ancorado no tártaro e o corpo enjaulado em um laboratório psiquiátrico. De dia, as drogas, os tratamentos extremos. Os banhos de água fria, as injeções e os eletrochoques. De noite, o deslizar viscoso do corpo para um líquido de baixa densidade e respirável, que era como nadar em uma névoa. E então, os canibais e os sacerdotes. As figuras pintadas nas paredes e as pegadas ensanguentadas. Os apêndices monstruosos e coloridos que nadavam lúgubres como que no vácuo cósmico. O olho terrível de sangue que o observava com aterradora indiferença e fixação, do tamanho de um pequeno planeta. Capaz de devorá-lo. E, por fim, o vento frio da morte e a escuridão profunda do desfiladeiro. E o estranho objeto.

Os outros detalhes das noites de horror se alternavam. Mudavam. Uns, piores, passavam meses sem aparecer para, numa noite qualquer, surpreendê-lo. Como uma pantera faminta que surge diante de uma lebre na escuridão de um escarpado onde não havia rota de fuga. Como a boca de satã aberta para o traidor. Eram figuras estranhas que, sozinhas, em palavras, dificilmente trariam o terror que nelas se alberga. Um obelisco vivo. Uma voz que ecoa como o pedido de socorro desesperado em um rádio doméstico. Esses temores eram sempre os inesperados e, como foi dito, difíceis de explicar para quem não esteve Lá. Mas, o objeto. Aquele maldito objeto. Um equipamento. Uma coisa. Algo velho, ancestral, sulfuroso, abjeto, que parece ter saído do interior de algo terrível. Sujo do destroçar dos espíritos. Lambuzado de inexistência até a última fresta cortante. Aquilo sempre estava Lá, no fim.

Era o último ato antes do despertar ensopado de suor para um mundo que não o entendia e nem nunca o entenderia. O símbolo de um sol pantanoso , duro e gélido, surgia em suas mãos ou bolsos. A manchar-lhe a sanidade. Uma série de pontas plúmbeas nunca limpas, sempre impuras. A peça metálica irreconhecível de cirurgias, de sacrifícios, de uma engrenagem maior criada para honrar o leviatã da lagoa de névoas, os tentáculos-ponte entre os mundos, a chave para o relógio do tempo do avesso.

Uma voz insistente interrompeu o devaneio que dragara, por minutos ou dias, a consciência de Roberto. “Senhor, está tudo bem? Senhor? Senhor? Por favor! Senhor! O táxi. O seu táxi chegou, senhor. As recepcionistas levarão a sua mala. Isso. Venha comigo, por favor.” E só no último minuto, Roberto percebeu que era o doutor. Que fez questão de afagá-lo, abraçá-lo, como a um amigo, e deixá-lo confortável no banco de trás do veículo. Ele conseguiu simular um sorriso e até expressou um olhar parcialmente verdadeiro de agradecimento, que paralisou-se ao ver, nos olhos do profissional, um medo profundo, como um lago muito grande que parece pequeno visto de muito alto. Um temor tão ancestral quanto o do paciente, e o desejo de empurrá-lo, afastá-lo, mandá-lo para longe. Como uma criança que deseja fugir de um mendigo bexiguento que lhe machuca os braços apertando-os de modo sádico. O relance desesperado e veloz do psiquiatra vigoroso de meia idade, de chapéu coco e bigode bem desenhado, teria sido o máximo de compreensão e de empatia que o homem dos pesadelos renitentes teria em toda a sua curta e insignificante existência.

E Roberto partiu… Com seus olhos azuis, seu cabelo castanho-claro que, prematuramente, começava a embranquecer, suas marcas faciais de desespero e loucura e seu bolsões sob os olhos, típicos das noites mal dormidas dos problemáticos, agarrado em sua pequena maleta que continha todos os seus pertences, sem saber para onde ir, mas certo de que, mais tarde, naquela mesma noite, estivesse onde estivesse, seus pesadelos o encontrariam. Estariam lá, a esperá-lo. O medo, o pavor, o terror, o horror…

Apêndice

Horas depois da partida de Roberto, os peritos da polícia criminalística encontraram o doutor Sávio preso ao encanamento no teto da sala de banhos. O rosto, hora saudável e corado, era agora de uma fisionomia inflada, roxa e injetada, congelada em desespero, de olhos esbugalhados e pressionada abaixo da papada pela corda que terminara o serviço que o próprio médico começou.

Antes de enforcar-se, cortara os pulsos. E o movimento pendular do corpo, acompanhando a rotação da terra, fez o favor de traçar um curioso padrão circular no chão de pedra portuguesa, dando ares de sacrifício àquela morte. Mas, estava claro, ainda que de de modo perturbador, que o principal médico do Sanatório Sanctum havia se enforcado de livre e espontânea vontade.

Próximo aos restos humanos soerguidos que, primeiro, impressionaram uma pobre faxineira cigana, estavam uma cadeira caída, usada pelo suicida para ganhar altura para a queda interrompida, seus sapatos pretos bem engraxados, cuidadosamente organizados ao lado da banheira, e uma pequena resma escrita de próprio punho pela vítima, com letras desesperadas e ininteligíveis, repleta de símbolos e desenhos perturbadores, manchas de café, cinzas de cachimbo, inscrições em bizarros hieróglifos, trechos que pareciam uma forma primitiva de árabe, sempre sublinhados, circulados e acompanhados de notas que mais pareciam rabiscos ou desenhos de roupas em um varal e, no fim, as palavras “horror”, “sonho” e “contágio”.

Posteriormente, uma jornalista astuta veria, nas fotos da perícia, o desenho de sangue coagulado no chão, e reconheceria os mesmos padrões na fachada de uma livraria de ocultismo. Mas isso é uma outra história. É importante dizer que, naquela mesma noite, às 22h30, o silêncio invadiu o hospício como uma sombra de hera. Uma escuridão viva em forma de arbusto que se expande somente pelas frestas e todos, seguranças, enfermeiros, médicos, faxineiros, visitantes e pacientes mergulharam em um torpor frio e asqueroso e se viram sozinhos em um lugar notívago e distante. Sozinhos…

Do lado…

De Lá.

Luiz Calcagno Fettermann

Written by

Escritor frustrado e filósofo amador latino-americano.

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