Para Olívia, no dia das crianças

Aprendi que tenho que lutar por aquilo que acredito. Enchi meu coração de sonhos e em alguns momentos da minha vida, fui tratado como saco de pancada. Voltava à noite, dirigindo para casa, para meus estudos pessoais, e me tratava como um saco de pancada. Idiota! Idiota! Idiota! Eu repetia. Filha, os outros nos tratam como nos tratam simplesmente, em seus caminhos turbulentos, muitas vezes perdidos, quase sem perceber. Estão ali, com aquelas pedras nas mãos, sem ver quem os atravessa. Passos no escuro. São apenas chefes. São apenas colegas. São apenas subordinados. São apenas amigos. São apenas desconhecidos. Lutando contra as ondas. Nadando para se manter na superfície. No meio do naufrágio da vida.

Na verdade, no fim, somos nós que nos tratamos. Fui eu quem me tratei como um saco de pancadas. Se alguém, de fato, deliberadamente, me tratou dessa forma, não posso dizer com certeza. Mas aceitei. Acreditei. Eu me tratei. Leonardo Padura escreveu em O Homem que Amava os Cachorros, nos devaneios do escritor frustrado Iván Cárdenas Maturell, que os comunistas tinham conseguido fazer o pior com ele. Fizeram-no acreditar que não deveria escrever, que era um mau escritor. Todas essas pessoas nadando, pensando em si mesmas e nas suas famílias, desesperadas como nós. Como podemos julgá-las? É quase um sonho, um delírio, mas pode ser real você ter resiliência e persistência para não deixar que soquem seu coração cheio de sonhos, ou que eles esmoreçam e morram ao som das inevitáveis pancadas que levarão. E levarão.

Quero te ver brincar, sorrir, levantar a cada queda. Curar os joelhos ralados, estourar as unhas dos dedos dos pés. Quebrar o braço, se o braço quebrar. Correr, andar de bicicleta, jogar bola, boneca, carrinho, Comandos em ação, o que você quiser. O que você mais gostar. Como um sonho e uma semeadura. Um fruto que, mordido, é semente plantada. Para que plante, estação a estação, espécime a espécime, todos os sonhos que você terá que lutar contra as intempéries para colher. Que terá que abraçar e cobrir sob uma chuva de punhos fechados e pés solados, para mantê-los vivos as custas das suas dores. O mundo não anda fácil. O sol escalda, o vento arrasta, a tempestade alaga e o frio congela. Tudo arrasa antes do fim da reconstrução. As cascas dos frutos virão grossas e, se colhidos fora de época, eles virão amargos ou insossos. E você terá que guardar tudo isso enquanto amadurecem, dentro do seu coração que, hoje, quando ponho a mão, sinto bater tão rápido. Como as asas de um beija flor.

Eu estou te dizendo tudo isso. Mas foi você que me ensinou. Quando nasceu. A menininha frágil de olhos arregalados. Eu vi que eu tinha o dever de realizar cada sonho que tive e mantive. Cada um dos que consegui carregar. Que não deixei morrer, que não esqueci no caminho. Ou lutar até o fim por eles. Não para que se realizem de fato. Começo a entender que isso nem importa tanto. Nem todos germinam. Acho que é um fato. E crescidos e férteis, muitas vezes, são árvores que deixamos para trás, com frutos para os que passam pelo caminho. Sinto ansiedade no coração, para que você aprenda assim. Quero descobrir o segredo da vida para que você descubra esse segredo na sua vez. Como eu quero. Isso vibra dentro de mim. A cada nova palavra sua. A cada pequena descoberta. Mas… O que isso tem a ver com o dia das crianças?

Minha mais sincera resposta é “sei lá”. É um significado muito pessoal. Não é uma data santa para mim, como você descobrirá. Mas me lembro de outros dias das crianças. Dos meninos e meninas mostrando para os amigos o que ganharam. Os presentes se foram. Uns quebraram, uns foram doados, uns acabaram perdidos. Mas ficou uma emoção, uma pureza guardada. Um brinquedo em uma caixa que eu fiz questão de conservar. Uma luzinha. Acho que é isso. É uma luzinha que brilha porque era um dia para as crianças e, até pouco tempo atrás, eu olhava a felicidade delas e lembrava das minhas. As de hoje, as de ontem. Lembrava um pouco do antigo Luiz. Mas, hoje, ela brilha todos os dias. Hoje, esse menino sai pra brincar com você todas as vezes que brincamos. Que me sento no chão. Que dou uma (dolorida) cambalhota. E você vai gostar mais e mais do dia das crianças, a medida que passar a entendê-lo. E aí, sinto que essa luz em mim vai brilhar dobrado, por você estar tão feliz.

Somos camadas geológicas de sentimentos e histórias pessoais. O avô e a avó são uma camada. O pai e a mãe são outra camada. O filho ou a filha é a camada exposta. É a mais sensível. A que sentirá as dores pela primeira vez. Você é uma nova camada, filha. Sinto o sol através de você. Conversando com a sua mãe, falando sobre presentes e essas coisas, ela me mostrou que o melhor para essa data é fazer algo especial. Ter um dia diferente e muito bom. Não consigo imaginar um presente melhor. Sonho com dias verdes. Com seus sorrisos e gargalhadas. Com um coração jovem e cheio de sonhos. E todas as vezes que eu puder te ensinar a viver, sei que vou aprender a viver. Você não dobrará seus joelhos, e então não dobrarei os meus. Vamos respirar as ventanias, sentir as gotas de chuva, chutar a água das enxurradas e fazer fogueira no inverno. Todos os dias serão dia das crianças, para que consigamos manter a pureza do olhar infantil, para seguirmos perguntando porque e nos surpreendendo ante a grandeza do mundo, a imensidão do mar e a infinitude da Via-láctea. Ninguém vai te dizer que você não é capaz.

É engraçado como você gosta de Procurando Nemo. Acho que, aos dois anos, você não entende muito bem o roteiro. Mas… Lembra da Dory? Então… “Continue a nadar… Continue a nadar! Continue a nadar.”

Guaranteed
(eddie vedder)
On bended knee is no way to be free
Lifting up an empty cup I ask silently
That all my destinations will accept the one that’s me
So I can breath
Circles they grow and they swallow people whole
Half their lives they say goodnight to wive’s they’ll never know
Got a mind full of questions and a teacher in my soul
So it goes
Don’t come closer or I’ll have to go
Holding me like gravity are places that pull
If ever there was someone to keep me at home
It would be you
Everyone I come across in cages they bought
They think of me and my wandering
But I’m never what they thought
Got my indignation but I’m pure in all my thoughts
I’m alive
Wind in my hair, I feel part of everywhere
Underneath my being is a road that disappeared
Late at night I hear the trees
They’re singing with the dead
Overhead
Leave it to me as I find a way to be
Consider me a satellite for ever orbiting
I knew all the rules but the rules did not know me
Guaranteed