The profeta

E disse o jornalista,

Fala-nos do texto!

E o profeta respondeu…

Teus textos não são vossos textos. São frutos da ânsia do editor. Vem por ti, mas não para ti, e sim para o ignóbil leitor.

E deves aceitá-lo como seu, mesmo que uma vírgula não sobre no lugar que compuseste. E deve amar também os comentários de internet. Ainda que os navegantes possam ofendê-lo com palavras como facas, concluindo de tudo quanto escreveste, tua própria vida e ser, lendo apenas o título de outrem. Deves aceitar para si, oh, jornalista, toda a asneira que lhe postem.

Deves, ainda, aceitar teu nome sobre qualquer qualidade de escrito exigida e editada. Independente do prazo, do espaço e da informação sintetizada. Tal qual o vagabundo que não olha as putas que come. Tal qual o cão que devora a primeira carniça que lhe oferece o Homem.

E então, se concorreres a algum prêmio, terás a sensação de farsa, pois só metade do publicado será teu de fato. Aceita pois, sabendo que amanhã, ao meio dia, nada do que escreveste terá valor. Aceita com o salário, com a hora extra não paga, com a nota fiscal no fim do mês, com o passaralho e com um satisfeito sorriso de horror.