Por uma divulgação científica com mais empatia

e a visão crítica pouco divulgada de Sagan sobre como lidamos com pessoas supersticiosas

Sep 1, 2018 · 4 min read
Sagan com o modelo da sonda Viking enviada a Marte. Fonte: NASA

A imagem do astrônomo Carl Sagan pós série Cosmos (1980) é de uma pessoa que luta contra a superstição do mundo, contra a astrologia, religião/ponha aqui o seu adversário da vez. Sim, ele fez bastante isso sempre ressaltando o lado racional, prático e muitas vezes encantador do conhecimento científico. Mas em grande parte o foco da “batalha” de Sagan não era a superstição em si, mas os charlatões e enganadores que faturavam em cima da crença alheia. Infelizmente, como o dualismo “vende”, quando Sagan era convocado para uma entrevista ou debate o foco muitas vezes era o da ciência contra os outros, dos cientistas contra o “mundo irracional”. O que pode ter ajudado a moldar esse estereótipo de cientista belicoso.

Sagan merece mais do que apenas um livro de Bolso né Companhia das Letras?

O mundo assombrado por demônios (1995) é um dos últimos livros publicados por Sagan. Historicamente e por peculiaridades da profissão cientistas tendem a mudar de posicionamento ao longo da vida. Bem, nem sempre mudam completamente de posicionamento, mas muitas vezes amadurecem suas ideias e passam a ter uma visão mais completa sobre temas que trabalharam e refletiram ao longo dos anos. Parece que esse é o caso de Sagan, que nos deixa uma reflexão muito importante no capítulo 17 do Mundo assombrado, intitulado “O casamento do ceticismo e admiração”. Se pensarmos na imagem de paladino da ciência contra a superstição que construíram para Sagan essa passagem parece até contraditória. Mas muito pelo contrário, ela mostra um cientista e comunicador maduro, que faz uma crítica pertinente aos seus pares. Segundo Carl

(…) A principal deficiência que vejo no movimento cético está na sua polarização. Nós versus Eles — o sentimento que nós temos o monopólio da verdade, de que as outras pessoas que acreditam em todas essas doutrinas estúpidas são imbecis; de que, se forem sensatas, elas vão nos escutar; e de que, se não o fizerem, estão fora do alcance da redenção. Isso não é construtivo. Não consegue transmitir a mensagem. Condena os céticos a um permanente status de minoria; ao passo que uma abordagem compassiva, que desde o início reconhece as raízes humanas da pseudociência e da superstição, poderia ser aceita por muito mais gente.

E o Sagan não para por aí. Ele continua logo depois

Se compreendermos tal coisa sentimos então a incerteza e a dor dos raptados por alienígenas, daqueles que não ousam sair de casa sem consultar o seu horóscopo, ou daqueles que depositam as suas esperanças em cristais de Atlântida. E essa compaixão por espíritos afins empenhados numa busca comum também contribui para tornar a ciência e o método científico menos desagradáveis, especialmente para os jovens.

Ainda no mesmo capítulo Sagan descreve um causo que ocorreu em 1975, quando o astrônomo Bart J. Bok, presidente da American Astronomical Society na época, escreveu um manifesto que foi endossado por 186 cientistas de prestígio, inclusive por vários ganhadores de prêmio Nobel. Sobre o documento, Sagan afirma

Lutei contra o seu fraseado, e por fim me vi incapaz de assinar — não porque achasse que a astrologia tem alguma validade, mas porque sentia (e ainda sinto) que o tom do discurso era autoritário.

Depois de explicar detalhes do manifesto que ele não concordava, Sagan fecha o tema com a seguinte colocação

(…) a astrologia , que tem nos acompanhado ao longo de 4 mil anos ou mais, parece hoje mais popular do que nunca. (…) A rejeição demonstrada pelos cientistas não entra em contato com as necessidades sociais que a astrologia — por mais inválida que seja — procura satisfazer, e as quais a ciência não leva em conta.

Acredito que esse é possivelmente o trecho do “Mundo assombrado pelos demônios” menos lido por cientistas e divulgadores de ciência. Um trecho enfático, forte e extremamente relevante até os dias de hoje, mais de duas décadas após sua publicação. A superstição continua firme e forte no nosso mundo moderno e tecnológico — muito mais que o Sagan poderia imaginar — mas parece que ainda não ouvimos o recado que um dos maiores comunicadores de ciências de todos os tempos deixou claro e límpido em seu mais celebrado livro.

Se quisermos realmente conquistar mais público fora da nossa bolha, sejamos mais empáticos. Devemos entender o contexto de quem crê em superstição, entrar em seu mundo, sentir sua dor existencial. Quando estivermos lá podemos conversar de forma horizontal com o nosso público, levando em conta o seu conhecimento não científico. Parece utópico? Sim, mas eu prefiro ser mais Carl Sagan e menos Dawkins. Prefiro conquistar as pessoas sem achar que preciso destruir o que elas acreditam para inserir o conhecimento científico no lugar. Prefiro uma divulgação científica com menos embates e mais empatia, buscando incluir na conversa quem realmente precisa e não apenas quem já gosta de ciência.


No próximo texto desta série explicarei melhor a ideia da divulgação científica não ser um ringue de vale tudo e porque embates simplesmente não funcionam.

Bibliografia:

Sagan, Carl. O mundo assombrado por demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Tradução Rosaura Eichemberg. 1ª ed. São Paulo: Companhia das letras, 2006.

Luiz Bento

Written by

Biólogo, cervejeiro da Quatro Graus e divulgador de ciências de carteirinha

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