Uma carta para minha filha sobre o Museu Nacional

Lara tem menos de um mês de vida e não terá oportunidade de conhecer o museu como nós e as últimas gerações conheceram

Filha, queimou o Museu Nacional.

Museu inaugurado em 1818, de importância difícil de se colocar no papel. Se for pensar no valor financeiro de cada peça provavelmente só terminaríamos a conta quando você estivesse trocando as minhas fraldas. Mesmo se a conta fosse feita e todos os itens agora em cinzas fossem vendidos seria como vender sua naninha que você tanto gosta. Daria para comprar outras coisas com o dinheiro, mas seria a mesma coisa?

Digo isso pois não foram embora apenas peças de importância mundial que nunca serão repostas. Os vasos gregos e etruscos não serão feitos novamente pelos gregos e etruscos, os itens egípcios e as múmias não serão refeitos e novamente comprados por D. Pedro I e II, os itens recuperados do Vesúvio não serão feitos e salvos novamente do fogo — o que é neste caso duplamente trágico.

Entrada principal do Museu Nacional registrada por mim em uma visita. Maio de 2014.

Mas sabe o que dói mais, filha? É o que queimou e não podemos ver em outros museus do mundo, instituições tão importantes como o Museu Nacional. Aquele material que é mais relevante para nós, brasileiros e latino-americanos. Aquele material que representa o que somos. As múmias andinas, os vasos incas, os fragmentos de tecidos da civilização Nazca, as miniaturas e cerâmicas da civilização Inca. Mal consigo escrever ao lembrar sobre a perda do acervo brasileiro, com vestígios de sambaquis, cerâmica marajoara e tapajônica, o farto acervo indígena incluindo instrumentos musicais e gravações de músicas feitas pelo próprio Roquette-Pinto. Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, que resistiu bravamente por aproximadamente 11 mil anos, mas não ao descaso da minha geração.

Os dois hidrantes secos — que atrasaram em horas o combate ao fogo — não ajudaram a impedir a queima de um acervo de história natural inigualável. Fósseis de animais que viveram aqui no passado muito distante como Pterossauros e o Espinossauro da Chapada do Araripe, além do esqueleto completo de uma Preguiça Gigante. Insetos, moluscos, crustáceos. Animais que ainda nem tinham sido descritos, que não tinham sido estudados. Materiais que poderiam ser sua dissertação de mestrado, sua tese de doutorado, minha filha. Amostras únicas, que representam uma espécie biológica e que deveriam ser guardadas a sete chaves. Na verdade poderia ser sem chave, mas com um sistema anti incêndio e brigadistas 24h que teriam salvo a coleção, laboratórios, equipamentos e a vida acadêmica de muitas e muitos cientistas.

Filha, queimaram o Museu Nacional.

Não diretamente, com álcool e um isqueiro, sabe? Mas queimaram. Queimaram ao não se preocuparam, ao sucatearem, ao investirem somente em museus novos e “bonitos” para os turistas em uma região valorizada da cidade, para uma festa que não nos convidaram. Queimaram sonhos, queimaram o brilho nos olhos de futuros amantes da história e da ciência natural, como você. Queimaram nosso passado, nosso presente e nosso futuro.

Provavelmente irão agora destinar mais verbas ao Museu Nacional, fazer uma restauração do prédio e da fachada, montar um moderno sistema anti incêndio nunca antes visto por aqui. Que vai preservar um museu que perdeu seus membros, seu coração, sua alma. Vamos sim lutar pela reconstrução, mas essa perda é irreparável para a ciência nacional, latino-americana e mundial.

Filha, queimaram o Museu Nacional. Queimaram! Queimaram!!! Queimaram. Queimaram…