A guerra onde as palavras perdem o seu sentido
ou porque as pessoas devem parar imediatamente de chamar seus oponentes de nazistas e fascistas quando esses realmente não o forem
Palavras são apenas junções de letras ou fonemas se não possuírem sentido e contexto. Futebol no Brasil e nos EUA são esportes diferentes e você só saberá o que é uma chinforinfola se assistiu os episódio do chaves. Por isso, mais importantes que as palavras são o que elas representam realmente.
Recentemente, a guerra político-ideológica que corre solta pelo mundo, tem tentado utilizar adjetivos pesados para atacar aqueles que discordam de determinado pensamento, e isso tem tirado o peso que essas palavras carregam, e ao mesmo tempo, esvaziando o sentido das mesmas.
C. S. Lewis no prefácio de seu livro “Cristianismo Puro e Simples”, que por coincidência foi escrito (melhor dizendo transcrito) num período de guerra, já alertava que o mau uso de palavras pode transformar o sentido das palavras:
Originalmente, a palavra gentleman tinha um significado evidente: o gentil-homem exibia um brasão e era senhor de terras. Quando dizíamos que alguém era um gentleman, não lhe estávamos fazendo um elogio, mas simplesmente reconhecendo um fato. Se disséssemos de um outro que não era um gentleman, não o estaríamos insultando, mas dando uma informação a seu respeito. […] Então, certas pessoas começaram a afirmar — com tanta propriedade, generosidade, espiritualidade, sensibilidade; com tudo, enfim, menos com praticidade: “Ah, mas o que faz um gentleman não são as terras nem o brasão; é o saber comportar-se. Será que o verdadeiro gentleman não é aquele que se porta como tal? Logo, será que Edward não é mais gentleman que John?” A intenção dessas pessoas era boa. Ser honrado, cortês e corajoso é, sem dúvida, coisa melhor do que ter um brasão familiar. Porém, não é a mesma coisa. Pior, é uma coisa sobre cuja definição as pessoas jamais chegarão a um acordo. Chamar um homem de gentleman segundo esse sentido novo e mais refinado não é, na verdade, uma forma de dar informações a seu respeito, mas sim um modo de elogiá-lo: negar-se a chamá-lo de gentleman é simplesmente uma forma de insultá-lo. Quando uma palavra deixa de ter valor descritivo e passa a ser um mero elogio, ela não nos esclarece sobre o objeto, só denota o conceito que o falante tem dele. […] Um gentleman, agora que o velho sentido prosaico e objetivo da palavra deu lugar ao sentido “espiritualizado” e “refinado”, quase sempre significa apenas uma pessoa do nosso agrado. O resultado é que hoje gentleman é uma palavra inútil. Já tínhamos no vocabulário palavras suficientes que expressam aprovação; não precisávamos de mais uma. Por outro lado, se alguém quiser utilizar a palavra em seu velho sentido (numa obra histórica, por exemplo), não poderá fazê-lo sem dar explicações. Ela já não serve para esse fim.
A grande mente de Lewis já identificava que atitude de dar um novo sentido as palavras leva ao resultado de torná-la inútil. É o que acontecem hoje, com o nazismo e o fascismo, já que elas não identificam mais regimes políticos que tinham determinada ideologia política e que cometiam atrocidades, mas sim a pessoas que elas simplesmente discordam em algum ponto. Ou seja, essas palavras tornaram-se adjetivos, o que na realidade não são.
Martin Gilbert descreve várias atrocidades cometidas pelos nazistas, em sua obra “ A Segunda Guerra Mundial”, dentre as quais a seguinte, que mostra o desprezo desumano dos nazistas pelos inimigos:
“Para mostrarem seu desprezo pelos judeus e pelos poloneses, as autoridades alemãs de Piotrkow mandaram que milhares de prisioneiros de guerra poloneses, entre os quais se contavam muitos judeus, entrassem na sala principal da escola religiosa judaica e, vedando-lhes o acesso aos banheiros, obrigaram-nos a fazer ali mesmo suas necessidades. Deram-lhes, depois, xales de oração, as cortinas da Arca Da Aliança e os resguardos ricamente bordados dos rolos da lei judaica e mandaram que limpassem os excrementos com esses objetos sagrados.”
Ora, atrocidades como essas não devem ser esquecidas, para não voltarem a serem cometidas. Mas é justamente isso que tem acontecido. Seja franco, dificilmente o discurso de alguém com que você discorda, ou até mesmo alguém que você odeia, chegaram aos pés do que foi narrado acima.
É por isso que, as palavras nazismo e fascismo não podem e não devem virar um xingamento vazio de significado. Nazistas, aqueles que abraçam o nazismo, devem ser chamados de nazistas, não a pessoas que você não gosta, não as pessoas que são boçais no agir, não as pessoas que você considera que sejam “do mal”.
Se quiser ofender alguém, a língua portuguesa tem um número grande de palavras para exprimir sua indignação ou repulsa, essas sim, cheias de significado.
