Crítica — A Chegada | Sobre Linguagem, Algoritmos e o Eterno Retorno (2016)

[Contém spoilers]

No livro do Gênesis, diz-se que os primeiros homens descobriram uma planície na terra de Babilônia, a habitaram e nela começaram a construir uma torre que os levaria até os céus. Então, o Senhor desceu para ver como andava a construção da torre e disse: “Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que um não entenda a língua do outro.” (Gênesis: 11: 6–7)
 
 Nessa curta passagem, já podemos enxergar alguns curiosos traços da personalidade d’O Criador: aqui, ele emerge como tirano, autoritário e — não muito diferente do brasileiro médio atual — punitivo. O Senhor precisa controlar seu rebanho, e sabe exatamente que a melhor estratégia para controlar sua massa é através da comunicação. Para tanto, castiga-os da maneira mais efetiva possível: fazendo com que falem diferentes línguas.

Esta foi, também, a explicação da Bíblia para a existência de diversos dialetos no mundo; uma hipótese que se encaixou no criacionismo e na teoria da geração espontânea.

No novo filme de Denis Villenueve, somos recolocados em uma espécie de Torre de Babel, mas sob uma nova camada da linguagem: o tempo. A linearidade cronológica da linguagem terráquea é colocada como paradigma central para entendermos como chegamos aonde chegamos.

Louise Banks é a protagonista dessa imersão. Uma linguista e professora universitária, que é arrebatada — assim como absolutamente toda a população mundial — pela notícia da chegada de 12 naves espalhadas por diferentes cidades do mundo, sem nenhuma razão aparente. “A Chegada” vai na contramão dos usuais clichês de ficção científica sobre invasões alienígenas: não vemos naves ultra-tecnológicas, marcianos portando variações de sub-metralhadoras e conflitos espetaculares. No lugar disso, temos 12 pedaços ovais de rocha flutuantes de 500 metros de altura, pairando sobre diferentes lugares da Terra (um deles, inclusive, sobre o mar da Rússia), cada um com uma entrada que se abre a cada 18 horas e que revela seres grotescos de 7 tentáculos, denominados pelos seres humanos de “heptapods”, que não fazem nada além de emitir grunhidos irascíveis e ininteligíveis. Uma invasão aparentemente pacífica, silenciosa e misteriosa. Louise, como linguista renomada que havia trabalhado em traduções para o exército norte-americano há pouco, é recrutada em conjunto com o cientista Ian Donnelly para tentar traduzir o dialeto desconhecido e estabelecer algum tipo de contato com os seres extraterrestres.

Obviamente, a primeira tentativa fracassa: todo o conhecimento técnico e acadêmico do mundo não bastaria para entender aqueles grunhidos. Louise desiste da comunicação verbal e tenta alguma forma de linguagem escrita ou visual, com o auxílio de uma lousa. Nisso, é certeira: os alienígenas a respondem com uma espécie de desenho circular, feito por uma espécie de tinta gasosa emitida por poros de seus tentáculos. E essa é sua linguagem.

A partir daí, o objetivo consiste em aproximar a linguagem deles com a linguagem terráquea; ou melhor, com o inglês. Compreender e se fazer compreender, para que se possa estabelecer um diálogo básico e responder a derradeira questão: Qual o propósito deles na Terra?

Ou, ainda: Qual o nosso propósito na Terra?

É curioso que a Bíblia tenha colocado como razão de nossa separação, justamente a imposição de diferentes dialetos e a impossibilidade da comunicação plena. Isso significa, afinal, que seria precisamente através da aproximação da linguagem que conseguiríamos nos unir.

É razoável supor que há algum perigoso e descontrolado processo psicológico coletivo em curso na civilização, nesse exato momento — principalmente conforme os últimos dias de 2016 vão se aproximando. Estamos carregados de uma frustrante e onipresente sensação de que saímos dos trilhos, de que não há muita luz no fim do túnel. E que isso não é fruto de alguma conspiração, mas é simplesmente o processo natural de evolução de nossa espécie. Parece que nos aproximamos demais de alguma borda, estamos a beira de um colapso estrutural, de uma inevitável mudança de paradigmas. Nosso Zeitgeist é forte e intenso.

Nos últimos anos, vimos o surgimento de algo que se incorporou profundamente e abruptamente em nosso cotidiano: a colonização total do tempo ocioso, através de dispositivos tecnológicos que nos colocam em contato com realidades virtuais — que, por sua vez, moldam nossa ideia sobre nós mesmos e nos dão a sensação de ser mais aceitos em sociedade, através justamente da comunicação. A combinação Facebook e smartphone não foi inteiramente responsável por isso, mas sem dúvida foi crucial.

Aqui, atingimos um ponto delicado e problemático na linha evolutiva da comunicação humana: ao mesmo tempo em que nunca tivemos tanto acesso à informação através de dispositivos tecnológicos, nunca nos sentimos tão confortáveis com a ideia de não precisar buscá-las, justamente pelas facilidades que os dispositivos nos oferecem para lidar com as questões mais difíceis de nossa existência e com nosso próprio ego.

Aquela utópica ideia de que a internet nos libertaria e romperia todas as barreiras de comunicação do mundo, começa a cair e dar lugar à constatação de que os algoritmos das redes cada vez mais nos isolam em bolhas, em redomas, cuja única opinião que escutamos é aquela semelhante à nossa.

O mundo globalizado e conectado nos distanciou e fragmentou ainda mais as línguas. Falamos o mesmo português, mas apenas em termos gramaticais. Não nos entendemos. Falamos apenas para nós mesmos, ainda que através de outras pessoas — dialogamos apenas com quem nos reflete; falamos com o espelho.

E isso explica boa parte dos eventos catastróficos de 2016.

Voltando ao filme: com todo o desenrolar dramático de “A Chegada”, num admirável esforço da protagonista Louise Banks para compreender o propósito dos seres extraterrestres, eis que a verdade nos é revelada: os alienígenas haviam vindo à Terra para nos dar sua forma de comunicação de presente.

Baseando-se na Hipótese de Sapir-Whorf, a premissa do filme se sustenta na ideia de que nossos processos mentais são moldados pela forma como nossa linguagem funciona. Dessa maneira, uma língua que subverta conceitos presentes em todas as faladas pela humanidade, provocaria processos mentais diferentes, desconhecidos. No caso da língua dos heptapods, trata-se de uma forma de comunicação não-linear, que não divide o tempo em presente, passado, e futuro, mas concebe todo o espectro da realidade como um só. A dimensão espaço-tempo é dissolvida. No momento em que isso nos é revelado, entendemos que todos os aparentes flashbacks de Louise ao longo do filme se tratam, na verdade, de fragmentos do futuro.

O desfecho do filme nos joga uma reflexão da qual não podemos escapar incólumes: se você já conhecesse cada momento, cada passo de sua vida, ainda assim os viveria exatamente da forma como os conhece?

E se você descobrisse que não há alternativa?

“O mito do eterno retorno nos diz, por negação, que a vida que vai desaparecer de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem peso, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor, não têm o menor sentido. (…) Digamos, portanto, que a ideia do eterno retorno designa uma perspectiva na qual as coisas não parecem ser como nós a conhecemos: elas nos aparecem sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. (…) No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que fazia com que Nietzsche dissesse que a ideia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos — das schwerste Gewicht”
(Milan Kundera em “A Insustentável Leveza do Ser” )

De certa forma, a premissa de uma língua não linear, que nos abriria uma camada não linear da percepção, nos atira impiedosamente o pesado farto da eternidade — você conhece seu futuro, seu passado, seu presente, e está condenado a seguir esse caminho até a morte.

Talvez o destino final que nos foi proibido por Deus — o topo da Torre de Babel — , e o objetivo central da invasão alienígena enfrentada pela humanidade no filme, seja, afinal de contas, nos atirar o mais pesado dos fardos: a ideia do eterno retorno.

Da próxima vez que assistir o filme, pense sobre isso.