Mark Zuckerberg não está nem aí para sua saúde mental

Luiz Franco
Jul 19 · 7 min read

Enquanto o Whatsapp se tornou o meio de comunicação instantâneo preferido do brasileiro, tendo impacto direto na disseminação de informação e, sobretudo, desinformação durante a campanha presidencial de 2018; o Twitter se tornou uma espécie de Diário Oficial da União e permitiu que sujeitos como Carlos Bolsonaro e Olavo de Carvalho pautem o debate público através de espasmos delirantes de agressividade; o Facebook foi invadido por baby boomers e é tão obsoleto que está quase atingindo o status de cult, o Instagram… bem, o Instagram se consolida como a rede social preferida do famigerado jovem.

Vivemos um estágio do capitalismo que o pesquisador canadense Nick Srcnicek denominou “platform capitalism” — ou, simplesmente, capitalismo de plataforma, em tradução livre. “De um modo geral, plataformas são infraestruturas digitais que permitem que dois ou mais grupos interajam. Elas se posicionam como intermediárias entre diferentes usuários: clientes, anunciantes, provedores de serviços, produtores, fornecedores e até objetos físicos”, classificou Srnicek, que também é professor de Economia Digital no King’s College London e um dos autores do manifesto aceleracionista, em seu livro Platform Capitalism (ainda sem tradução), de 2017. Segundo ele, vivemos numa época em que o mercado é dominado por plataformas como Google, Amazon, Uber, Airbnb e, claro, Facebook, Twitter, Instagram, etc. “Mais do que detentores da informação, essas plataformas se tornaram detentoras da própria infraestrutura da sociedade”, concluiu.

Nos últimos anos, plataformas como a Uber e o Facebook têm estado cada vez mais envolvidas em escândalos e sob constante escrutínio público. Qual o seu impacto na nossa sociedade? O quê eles estão fazendo com nossos dados? Com a nossa privacidade? Com a democracia representativa?

Além de escândalos mais conhecidos, como o Cambridge Analytica, em que o Facebook vendeu dados de milhões de usuários para a empresa de marketing político utilizar em campanhas para a eleição de Trump e para o voto favorável ao referendo do Brexit, a rede social controlada por Mark Zuckerberg também atravessa outros escândalos.

Em maio de 2017, foi vazado um documento interno, de 23 páginas, comprovando que o Facebook tinha a seguinte política interna: rastrear crianças e adolescentes psicologicamente vulneráveis para bombardeá-los com publicidade pesada. A empresa, segundo o documento obtido pelo jornal The Australian, monitorava comentários, publicações e interações de pessoas a partir de 14 anos de idade, para rastrear perfis que pareciam mais “ansiosos” e “estressados” e, consequentemente, mais suscetíveis à publicidade. Dessa forma, elas poderiam assegurar aos anunciantes que as propagandas seriam mais efetivas, porque atingiriam justamente as pessoas (sobretudo menores de idade) mais vulneráveis psicologicamente. O documento vazado é simplesmente escandaloso.

Diferente do Cambridge Analytica, em que a rede se defende alegando que não teve controle e se coloca quase como uma “vítima” de suas próprias políticas de privacidade (que foram revistas após o escândalo), os documentos vazados pelo jornal australiano comprovam que a plataforma rastrea as emoções de seus usuários através de interações na plataforma, e manipula e explora intencionalmente os mais vulneráveis.

Em um primeiro comunicado ao The Australian, a empresa disse que “abriu uma investigação para apurar o procedimento e corrigir suas falhas”. Mas, na segunda-feira seguinte ao vazamento, ela emitiu outro comunicado, em que assume a política e sequer pede desculpas. Os documentos, segundo o Facebook, foram baseados em “pesquisas feitas pelo Facebook e compartilhadas com os anunciantes”, com a “intenção de ajudar publicitários a entender como as pessoas se expressam”. A empresa se negou a responder se procedimentos semelhantes são aplicados em outros países. O jornal britânico The Guardian teve acesso a conversas internas de um executivo da plataforma na Austrália, em que ele critica e difama o jornalista que publicou os documentos.

O Facebook também é investigado pela Procuradoria-Geral do Nova York, por armazenar ilegalmente e-mails de mais de 1,5 milhão de pessoas, e pela Comissão Irlandesa de Proteção de Dados, por violar as regras de proteção de dados do país. Mark Zuckerberg já foi parar até no Senado americano.

O Facebook está trazendo muitas dores de cabeça para o jovem bilionário norte-americano. Mas, para sua sorte, ele é dono também de outra rede social, altamente lucrativa: o Instagram.

Em um relatório divulgado no início do ano, sobre os últimos meses de 2018, o Facebook registrou um lucro de cerca de US$ 16 bilhões de dólares — 30% a mais do que o último período divulgado — apenas em publicidade. Mark Zuckerberg possui 88,1% de ativos da empresa. Ao apresentar o relatório, o diretor financeiro do Facebook, David Wehner, afirmou que o impressionante crescimento se deu principalmente por conta dos anúncios veiculados no Instagram. Mais especificamente, nos Stories.

Não precisa ser nenhum especialista em economia digital para constatar que a tendência do Instagram é crescer e, a do Facebook, encolher.

Na última quarta-feira, o Instagram implementou, no Brasil, uma mudança que é tida por muitos como “revolucionária”: o fim dos likes. Artistas e influenciadores comemoraram a medida e aplaudiram a empresa, que, segundo eles, estaria preocupada com a saúde mental de seus usuários.

Kéfera, uma das influenciadoras mais famosas do Brasil, que conseguiu contratos em filmes e novelas a partir de sua atuação nas redes, afirmou: “Eu amei a mudança. O desespero por likes e comparações agora acabou! Liberdade para produzir o conteúdo que quisermos sem pensar no que irá impressionar os outros. Ufa! Viva a saúde mental de todos nós”.

Segundo Kéfera, o fim dos likes em fotos vai acabar com a corrida por números e as comparações no Instagram. Acabar.

Kéfera vive em um mundo fantástico — ela está há tempo tempo nas redes, que se esqueceu como funciona o mundo real.

Em primeiro lugar, ela se esqueceu do fato de que a rede social é uma empresa privada, detida por outra (o Facebook), que passa por uma fase ruim após sucessivos escândalos. Qualquer pessoa que acabou de sair de um workshop de gerenciamento de crise recomendaria à plataforma que ela implementasse esse tipo de medida, antes de ser forçada a tomar medidas mais drásticas pelo escrutínio de uma sociedade cada vez mais consciente dos problemas psicológicos desencadeados por redes sociais.

Um estudo publicado pela Royal Society for Public Health (RSPH), em 2017, classificou as redes sociais mais utilizadas sob critérios que incluiam aumento de ansiedade, depressão e depreciação da própria imagem. O estudo foi feito com pessoas de 14 a 24 anos e incluiu redes sociais como o Facebook, o Snapchat, Twitter, etc. Os pesquisadores chegaram à conclusão que o Instagram é a pior rede social para saúde mental.

“Ah, mas que bom que o Instagram tomou consciência disso e está implementando medidas boas para a saúde mental de seus usuários, certo?”. Hmmmm. Talvez no mundo fantástico de Kéfera Buchmann. No mundo real, uma empresa que já rastreou crianças inseguras para bombardeá-las com publicidade e cujo lucro está aumentando exponencialmente justamente através de anúncios no Instagram, simplesmente tem outras prioridades.

A competição do Instagram nunca se deu exatamente por conta do número de curtidas em fotos, mas sim pelo número de seguidores. O número de curtidas em fotos, inclusive, era um dos motivos pelos quais muitos usuários deixavam de comprar seguidores — porque não faz sentido um perfil ter 60k seguidores e apenas 100 likes em suas fotos. Agora, com a nova medida, há menos dados públicos para cruzar e a compra de seguidores e bots pode ser feita com mais liberdade. Para pessoas que realmente trabalham com isso, empresas já pediam relatórios, e esses relatórios já podiam ser falseados — com ferramentas simples, como o Photoshop — e, agora, eles poderão se aproveitar de menos dados públicos disponíveis para falseá-los ainda mais.

Resumindo: não, Mark Zuckerberg não está preocupado com a sua saúde mental, tampouco em diminuir a competitividade dos usuários de sua plataforma. Ele está simplesmente reagindo a críticas que as redes sociais têm sofrido cada vez mais, de modo a poder continuar explorando estruturalmente e lucrando com a insegurança e o narcisismo de seus usuários — que, obviamente, vão aplaudir a medida e tentar capitalizá-la tanto quanto a própria plataforma em si, afinal, é mais uma maneira de justificar seu trabalho.

A medida é uma performance da rede social que é o reino da performance, e, como tal, será performada por Zuckerberg, Kéfera & cia. Enquanto isso, Mark Zuckerberg enriquece cerca de US$ 1 bilhão em minutos e a empresa têm cada vez mais dados e informações de usuários, para vender para governos, anunciantes e empresas de marketing político.

O filósofo sul-coreano Byung Chul-Han escreveu sobre a mineração de dados de grandes plataformas na conclusão de seu livro “No Enxame: perspectivas do digital”:

A mineração de dados torna visível os modelos coletivos de comportamento dos quais não se está, enquanto indivíduo, nem sequer consciente. Assim, ele torna acessível o insconeciente coletivo. Em analogia ao insconsciente ótico, pode-se também chamá-lo de insconsciente digital. O psicopoder é mais eficiente do que o biopoder na medida em que vigia, controla e influencia o ser humano não de fora mas sim a partir de dentro. A psicopolítica se empodera do comportamento social das massas ao acessar sua lógica inconsciente. A sociedade digital da vigilância, que tem acesso ao inconsciente coletivo, ao comportamento social futuro das massas, desenvolve traços totalitários. Ela nos entrega à programação e ao controle psicopolíticos. A era da biopolítica está, assim, terminada. Dirigimo-nos, hoje, à era da psicopolítica digital.

Luiz Franco

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Jornalista e fotógrafo. Surfando na distopia.

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