Ela deixou marcas aqui, e eu não sei como apagar

Luiz Rodrigues
Sep 2, 2018 · 2 min read

Eu preciso de ajuda! Ela deixou marcas aqui, e eu não sei como apagar.

Há anos que não nos vemos, meses que sequer nos falamos e dias que não penso diretamente em nós dois. Arrisco dizer que estou limpo, mas no âmago há um animal ávido por se lambuzar; e o bicho ardiloso espera o silêncio de minha quietude e aparente segurança para, em ímpeto gutural, despertar a saudade.

E então vem: eu sinto seu cheiro na minha roupa, na minha cama e no meu carro; seu perfume exala da minha pele — mas como? — se eu acabei de me banhar.

Acordo com seu sussurro de bom dia — sobressalto e palpitação — foi apenas um sonho o que vivemos, mas eu já acordei meu Doce Pesadelo!

Antes que atinja a desperta lucidez sinto seu perfume ainda no ar; eu sei que parece um desvario mas juro que ouvi seu suspiro, o som discreto dos seus pés descalços e a água do café ferver.

É difícil sentir você lá e ter de repetir: “Estou só, estou só!” — hoje é terça e eu preciso trabalhar.

Já desperto, me visto como de costume (sem nada falar) e degusto esse café amargo e forte como nosso fim.

De súbito estou pronto para sair, num disparate inconsciente de quem nem sabe como se vestiu: a gola da minha camisa está ajustada sobre a gravata e não imagino como fi-lo sem você.

Um último gole no café que não consigo lembrar quem coou.

Por fim, meu pescoço aquece como quando me beijava em despedida enquanto balbucio um adeus, a droga do seu perfume está há anos na minha camisa.

Eu fui literal quando disse que era louco por você.

Luiz Rodrigues

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Advogado. Músico e autor amador. Algumas vezes palestrante, sempre cristão. Quer usar uma de suas ocupações para fazer a coisa certa, talvez use todas.