Volver a los 17

Tudo começou há um mês. Recebi o convite de um show de hardcore no Facebook, bandas importantes que fizeram parte da cena independente de São Paulo nos anos 2000 iriam tocar em um festival no Carioca Club, em Pinheiros.

De cara já avisei meus amigos, era uma oportunidade única, não só de ver as bandas, mas também de um passaporte direto para 2003, um tempo onde as preocupações eram menores, as contas eram pagas por nossos pais e as responsabilidades não passavam de um boletim acima da média pra não pegar recuperação.

Anunciado o show, todos compramos ingressos e contamos os dias para o festival, e ele foi chegando, junto com ele a vida adulta foi batendo na porta.

Éramos cinco com ingresso, um teve que trabalhar, outro teve que cuidar do filho doente, sobraram três. Na véspera do show, a última baixa, outro que teve que trabalhar no final de semana, e graças a problemas de 2015, acabamos com três baixas. Sobraram apenas dois guerreiros para a volta a 2003.

O dia da volta foi um domingo, que coincidiu com o dia em que almoço na casa dos meus pais, o que deu uma áurea de passado ainda maior. Terminei o almoço, fui até a estação de trem de onde parti para Pinheiros. Chegando ao Carioca Club, o primeiro sinal da idade deu as caras. Todo o pessoal fazendo o tradicional “esquenta”, com cerveja e vinho barato quando me lembrei que estava tomando um monte de remédios para pressão, asma e outras coisas que foram se acentuando com a idade. Em resumo, goró pra galera, água pra mim.

Entrando no Carioca Club exalei aquele cheiro característico de casa de show ruim, um misto de mofo, umidade, pouca dignidade e derby azul. Também vi um cartaz do show do Belo que aconteceria na outra semana, o que explicava a decoração da casa, toda romântica, clima todo especial para uma maradona de hardcore.

Eis que a primeira banda começou a tocar, meus amigos do Fistt. A banda tocou um álbum de 2001 na íntegra. Como o “Finais Iguais” formou meu caráter, o show foi divertido, comecei a me lembrar dos meus 15 anos, de quantas vezes ouvia esse CD por dia e como era demais. Também me lembrei como os shows de hardcore precisavam de equipamentos melhores, o amplificador do palco, por exemplo, desligou (ou quebrou) no meio do show, e convenhamos, o que era normal há dez anos, se transformou em um grande incômodo para os meus ouvidos.

Depois que o Fistt tocou, fui ao fumódromo. Vi alguns rostos desconhecidos, porém familiares de uma adolescência no Hangar 110 e outros conhecidos, que agora tem filhos, estão no segundo e até terceiro casamento e acompanhei uma conversa inusitada de dois integrantes de bandas, conversando sobre quais escolas estão matriculando seus filhos e se estão felizes com o ensino.

Chegou a vez do Hateen tocar, e essa foi a hora que eu me lembrei o quanto eu não gostava do Hateen e de suas letras que sempre soaram auto-ajuda barata nos meus ouvidos. Me recordei de outra coisa que realmente não gostava em festivais. Ter que ouvir um monte de banda ruim até ouvir quem eu realmente queria.

Foi quando me toquei dos horários das bandas que eu queria assistir. Uma tocava as 16 horas e a outra só as 22 horas. Seriam quatro horas em um lugar abafado, cheirando Mofo, onde a água de 300 ml custava R$4 ouvindo bandas que eu nunca gostei.

CARA, QUE CAGADA!

Quando me toquei disso me lembrei que era um dia em 2003, só que eu estava em 2015. Meu eu de 17 anos era mais empolgado, menos exigente e certamente adoraria um festival como o de domingo. Já o meu eu de 28 anos não parou de pensar no dia pesado de trabalho que seria segunda, na namorada que não conseguiu ver no domingo, no jogo de futebol que deixou de ver com o pai (isso depois ficou tranquilo, até porque o São Paulo tomou um cacete).

Pensando em todos esses itens, meu eu de 28 anos tomou uma decisão que mataria de desgosto o eu de 17. Ele foi embora com o amigo para um lugar quieto, onde poderia conversar e comer um bom hambúrguer.

Sai do Carioca Club na hora em que o Garage Fuzz tocava. Sempre respeitei muito a banda, mas dessa vez, meu respeito pelas minhas pernas doloridas, meu torcicolo e minha fome foram muito maiores.

Comendo um BLT no Meats comecei a pensar sobre o fracasso dominical. Como seria se meus domingos aos 28 anos fossem planejados pelo meu eu de 17, como o de hoje. Maratona Winning Eleven no Playstation, campeonatos de futebol, churrascos onde nunca havia comida, apenas bebida…É, provavelmente não seria uma boa ideia.

Nossa nostalgia com o que passou é sempre grande porque sempre guardamos as sensações e lembranças boas que o passado nos deixou. Até porque, de problemas e inconvenientes, já bastam os do presente.