Apropriação cultural ???

Iggy Azalea, Macklemore e Eminem

Será que realmente podemos afirmar que existe uma "apropriação cultural" nos dias de hoje? 
Outro dia eu pensei que uma das condições para podermos discutir sobre apropriação cultural é que o debate fosse na língua tupi e/ou com moradores de Ocas porque não podemos falar de “apropriação de cultura” em um lugar que não é nosso por essência, mas logo abandonei essa ideia.

O lance da discussão sobre apropriação cultural não é somente sobre o que você pode ou não fazer de acordo com sua descendência. Até porque na minha visão isso é uma baita idiotice dado ao novo mundo cada vez mais globalizado e envolto a multi-culturas. A discussão fica presa ao elemento de uma cultura negra vista e comercializada de maneira errada nos dias de hoje.

De todos os exemplos que eu achei interessantes, acabei por usar a indústria da música como o mais alarmante.

Basta abrirmos o spotify e dar uma bisbilhotada para ver quais são como novidades do jazz disponíveis na plataforma.

Para a minha "surpresa", 99,7% dos novos compositores são brancos!

Ok ok, Na minha cabeça não há nenhum problema em relação a cor das pessoas, muito pelo contrário, até quero que todos os tipos de artistas talentosos participem ativamente do "game", mas uma mensagem que eu quero passar é: Você sabe como surgiu esse tipo de gênero musical?

Quando falamos de Jazz o primeiro referencial para nós nos dias de hoje é o Kenny G. com aquelas musiquinhas românticas que você escuta no elevador.

Não diga que o Kenny G. é um compositor de jazz ao seu avô se ele for um negão daqueles bem chatos, do contrário você correrá um sério risco de levar uns tapas e escutar todas histórias de como surgiu o jazz, blues, rock and roll, das roupas que ele usava, do sapatinho que ele comprou na loja com muito trabalho e por aí vai. Afinal, o jazz é uma música negra em sua origem e tem história pra caramba por trás dela.

Kenny G. — fonte: Google images

O Jazz não era como o hip-hop de hoje, mas sim uma parada bem mais agressiva e rebelde para os padrões daquela época. As músicas não seguiam padrões estéticos e eram compostas basicamente de freestyles, ou seja era mais "rua" do que as batalhas de rap de hoje.

Emicida em uma batalha de MC's - Ative a legenda do youtube

Se fosse os dias de hoje, esses dois negões aí embaixo seriam os "reis da rua". Certamente eles seriam caracterizados pela imprensa como rebeldes, crianças seriam proibidas de ouvir suas músicas. Eles seriam uma espécia de má influência para a sociedade e por aí vai.

Jhon Coltrane e Miles Davis - fonte: Google imagens

Os caras foram tão bons que influenciaram e continuaram influenciando muita gente boa até hoje. Porém, quando você pensa em Jazz, em quem você lembra ?? O Kenny G. da musiquinha que sua mãe gosta de escutar fazendo bolo.

Todas pessoas podem ser encorajadas a continuar a produzir a arte seja de origem negra, asiática, ou seja lá o que for. Mas o que tem assustado todo mundo é o papel da indústria da música nessas relações.

O problema não é a gostosa da Iggy azalea, do monstro do Eminem, Justin Bieber, e nem de ninguém além do próprio sistema. Eles são talentosos pra caramba e tomara que apareçam mais pessoas como eles, principalmente como a Iggy Azalea.

Só dale sem dó, negão!

O problema é que chegou a hora em que o sistema percebeu que vender o Eminem é mais fácil do que vender um rapper negro, até porque o Eminem se parece mais fisicamente com uma maioria dos personagens de um seriado americano, assim como o Mackelomore. Coloca o Mackelomore como um personagem do Friends que é capaz dele passar o rodo na mulherada e ganhar simpatia das menininhas.

Justin Bieber e Justin Timberlake possuem clara referência do Michael Jackson e Prince em suas músicas e performances no palco.

Gêneros que usavam uma criatividade musical para expor a nudez das injustas relações sociais que existem no país como o racismo, se tornaram populares e mudaram de contexto quase que totalmente. Vou confessar que acho muito estranho ver o Macklemore vencer o Grammy de melhor álbum de rap do ano batendo o maior clássico do Kendrick Lamar.

Isso é repetido em outros gêneros musicais. Rock and Roll, R & B, Axé, e por aí vai ... 
Não acredita? Olha essas fotos

Claudia leitte - Cantora de axé.

Quem imaginaria anos atrás que uma baita gostosona loira subiria em cima de um trio cantando um Axezão em Salvador?

Hoje a Claudia Leite é uma das cantoras mais famosas e mais bem pagas do país, sendo que suas influências musicais nem de longe tem cabelo liso.

E essa boy band do mal? O que sua mãe faria ao ver uma foto dessa na porta do seu armário há 30 anos?

Banda de Reggae Soja

Ai você pode dizer: "Ah, mano, isso é coitadismo demais". Não é esse o ponto. O que eu quero mostrar é que existe um contexto por trás dos gêneros musicais “black” que muitas vezes tem sua origem em uma luta contra um tipo opressão. As pessoas negras estão sempre marginalizadas no mundo comercial, e de certa forma usam a sua criatividade para mostrar seus talentos para o mundo burlando o contexto da indústria como fez o Jay-z, que quando foi recusado por gravadoras, criou a sua própria gravadora e faturou em toda carreira mais de 21 Grammy's e foi indicado mais de 59 vezes para o prêmio.

A história sempre se repete; Pessoas quando tem contato com esse tipo de arte nova, vinda de um contexto marginalizado, acabam se apaixonando, e mais tarde o sistema e a indústria da música notam o potencial de comercialização e acabam por destruir tudo em busca do lucro, apagando toda história que deu origem a todo gênero.

Tá vendo o porquê é importante saber que o Jazz não é só o Kenny G.?