VINGANÇA DUPLA

I

No edifício trabalhavam dúzias de empregados, nas mais diferentes funções. A empresa se orgulhava, através de sua ostensiva publicidade, dos empregos que gerava. E de fato acontecia. Ela gerava mais empregos que qualquer outra.
Ali era sua sede de operações e, como tal, sua segurança era reforçada. Guardas com armaduras resistentes ao grau máximo de impacto permitido pela lei, portando armas com seletor das funções letal e não letal, observavam tudo através de visores escuros de capacetes fechados. Câmeras estavam por praticamente qualquer lugar.
John Silva desceu do transporte público duas quadras atrás e fez seu caminho solitário — solitário como tudo mais em sua vida — até a entrada de funcionário. Enfrentou a fila da catraca, onde o robô fez a tripla identificação: retina, palma da mão e cartão com senha. Se qualquer uma das três falhasse, o alarme soaria, um choque seria disparado do robô e os seguranças se fariam presentes quase que imediatamente.
Por entre os corredores escuros, John achou o caminho até seu vestiário, onde trocou a roupa social pelo uniforme de trabalho e, em seguida, começou a circular pela empresa com seu cartão pendurado no bolso da frente na condição de crachá. Em meio aos visitantes que entravam pela porta principal estavam homens de negócios, entregadores, jovens interessados em pedir estágio e funcionários que haviam ascendido na empresa. John ainda era um dos anônimos que entrava pelos fundos, e provavelmente assim seria pelo resto da vida.
E, sem pensar, usando o velho truque de quem se entrega a tarefas tediosas com sabedoria — apenas fazer, sem reflexões ou olhadas ao relógio — ele se ocupou de seu trabalho de auxiliar geral multifuncional por todo o seu turno de dez horas, com um pequeno intervalo para o almoço, onde houve uma exibição de um vídeo motivacional curto, mas interessante, no refeitório, momento em que todos ficaram em silêncio.
Nenhum comentário desagradável dos superiores, nenhuma observação negativa em sua ficha, tarefas realizadas com sucesso. Aquele foi um dia muito bom para John Silva.

II

John estava em casa, em seu pequeno apartamento. E estava feliz. Aquela era uma semana muito boa. Entre as coisas excelentes que lhe haviam acontecido, estava o fato de que fizera um amigo. Ele, um homem solitário, teria alguém com quem conversar pessoalmente. O convidara para ir até sua casa e ele prometera aparecer naquela noite ou na próxima. Muito. Muito bom.
O suave e melodioso som de sua campainha se fez ouvir. Com a alegria antecipada, ele apertou o botão que fazia a porta se abrir.
O disparo do atordoador o atingiu no peito. Seu sistema nervoso foi desestabilizado pelas ondas vibratórias inaudívies e ele tombou inerte no chão.
Set Souza deslizou para dentro com um passo casual, tão casual quanto o gesto que fizera para erguer o atordoador, semelhante a erguer a mão para apertar a de outro homem. Apertou o botão e a porta se fechou.
Estudara a rotina de seu alvo auxiliar durante semanas. Planejara a sua vingança durante meses. Iria para o alvo principal pela manha.
Puxou o corpo flácido de John para o sofá e depositou-o ali. Nada tinha contra ele, por isso usara o atordoador. Retirou o scanner que usaria agora do bolso. Custara caro no mercado negro, mas iria fazer diferença.
Passou o leitor do scanner sobre os olhos de John e depois sobre sua mão direita. Em seguida, fez a transferência de dados para a porta digital do processador que tinha implantado no antebraço. Sua mão e seus olhos artificiais, que também haviam custado caro, alteraram-se de acordo. Procurou e encontrou o crachá de John. Sabia há muito a senha dele, apenas observando com um binóculo potente do outro lado da rua a entrada de funcionários.
Tomou as chaves digitais da casa de John do gancho em que estavam na parede. Levou-o até o quarto onde dormia e depositou-o ali. Munido de um canivete, destruiu os componentes vitais de todos os seus aparelhos de comunicação. Ele não tinha como sair dali e nem se comunicar com o exterior até que ele voltasse.
Vestiu as suas roupas e olhou-se no espelho. Escolheu aquele homem porque eram fisicamente parecidos. E também porque ele era um anônimo.

III

Em seu escritório elegante, com o privilégio de não ser observado por nenhuma câmera, José White, um dos mais bem sucedidos executivos da empresa desligou seu aparelho de teleconferência holográfica e felicitou a si mesmo silenciosamente. Acabara de fechar mais um contrato milionário que lhe renderia uma comissão gorda, numa negociação que se iniciara pessoalmente há três dias. E tudo porque conhecia o melhor prostíbulo de luxo da cidade. Aquelas moças faziam maravilhas e era incrível como isso ainda funcionava para tornar certos negociadores mais simpáticos a sua proposta. O frio mundo dos negócios não era tão frio assim.
Foi distraído de seu êxtase de auto-louvor quando um dos auxiliares gerais entrou em seu escritório. Tinha uma pilha de papéis na mão e aproximou-se de sua mesa.
- O que deseja? — perguntou White.
- É importante que você saiba o porque. Você se lembra da fusão agressiva que você comandou entre esta empresa e uma pequena companhia que foi absorvida há três anos, cuja patente de sistemas de rastreamento foi, em outras palavras, roubada?
- Que espécie de pergunta é essa? Quem é você?
- Ah… eu sou só um pobre diabo que perdeu o emprego e tudo o mais naquela época… mas veja que ironia. Como um especialista em segurança, acabei iniciando uma carreira criminosa. E sabe que me dei bem? Matador profissional. Mas hoje estou aqui por razões pessoais.
A faca saiu do meio da pilha de papéis, manejada com habilidade pela mão direita do estranho. Era uma faca que viera do refeitório e que fora afiada para o propósito que se destinava agora meia hora antes. Cravou-se do lado direito da garganta de White e abriu-a até o lado esquerdo.
O sangue espirrou, obviamente, mas Set esquivou-se da maior parte dele. Apenas seus punhos ficaram manchados de vermelho.
Sentindo-se vívido prazer, observou o corpo convulsionando e fazendo sons de engasgo debruçado na escrivaninha, e depois escorregando para o chão. Viu a mancha vermelha crescer e afastou-se para que ela não alcançasse seus pés. Depois o silêncio reinou. E sua alma estava lavada.
Foi até o banheiro privativo de White — o que era White agora? Uma coisa imóvel no chão. O rosto no espelho transmitia alívio. Havia um pouco da sensação de relaxamento e paz que se sentia após um orgasmo. Mas também algo mais. Um estranho vazio. Uma falta de norte.
Fora a primeira pessoa em sua bem-sucedida carreira de três anos que matara com prazer.
Olhou para aqueles punhos molhados de volta ao escritório. E depois ao cabide onde estavam um chapéu anti-chuva e um sobretudo caro. Sorriu. Sairia anônimo, mas pela porta da frente.

IV

Set Souza foi ao bar sozinho, comemorou com uma rodada dupla do drinque mais caro do lugar e pagou uma dose para a moça mais bonita da noite. Uma hora depois estava na cama dela. Duas horas e meia depois ela dormia, exausta e devidamente satisfeita, mas ele estava ainda acordado. E a sensação de vazio predominava.
Sonhara com aquilo por três longos anos. Realizara finalmente. O que restava agora? O que tinha para fazer?
Vestiu-se sem acordá-la e colocou os souvenirs por cima — o sobretudo e o chapéu — e saiu para a noite sozinho. Pensaria em algo.
Errou pelas ruas até alcançar um ponto de táxi e se deslocou nele até o complexo de apartamentos econômicos do homem cuja identidade usurpara, porque não tinha outro lugar para ir se quisesse ficar sozinho naquela cidade, naquela noite. Até então nenhuma notícia sobre a morte de White — e por que haveria? Mortes de corporativos, ainda mais dentro da empresa em que trabalham, normalmente eram tratadas pela própria segurança da empresa, e a polícia muitas vezes demorava algum tempo para saber — e a chance de encontrarem-no era mínima.
Seu conhecimento sobre o sistema virtual de segurança da empresa — que fora roubado da sua — permitira um comando pré-programado disparado de um ponto remoto que embaralhava completamente os dados coletados pelo software de segurança. Desde rotinas dos funcionários até filmagens e conteúdos de conversas gravadas e mensagens eletrônicas, tudo estava uma confusão só agora. Fora programado com uma semana de antecedência para atacar o sistema no dia em que a morte ocorresse, na hora em que o expediente se encerrasse.
As máquinas podiam ser rápidas, mas os homens não eram tão rápidos quanto elas, e a essa altura eles estavam correndo de um lado para o outro.
Set desceu do elevador, passou o cartão-chave digital na frente da porta do apartamento e ela deslizou.
Havia outro homem ali.
Um sujeito vestido com discrição e com um tipo de olhar que ele conhecia bem. Porque era o seu tipo de olhar. Estava de pé diante da porta e tinha uma pistola de projéteis magnéticos. Silenciosa e letal.
Set não teve tempo de sacar a sua. Os três pregos metálicos afiados atravessaram sua cabeça no queixo, abaixo de seu olho artificial e na testa, indo cravar-se na parede atrás dele, e seu corpo tombou para trás. Seu último pensamento foi que planejara algum detalhe mal e que agora algum amigo do morto mandava a sua retribuição após ele ter sido rastreado, apesar de toda a sua precaução.
O amigo que John Silva fizera poucos dias antes chegara para visitá-lo havia umas poucas horas. Desconfiara da falta de resposta por qualquer meio de comunicação. Mas, como bom arrombador que era, conseguiria adentrar o apartamento.
Encontrara o corpo de John. Sua saúde era frágil, apesar da vida disciplinada, e o impacto do atordoador o matara. Acontecia, às vezes. A câmera da porta do apartamento indicava um única pessoa, e a falta do cartão-chave indicava que ela voltaria.
Seu amigo afeiçoara-se a ele, apesar de conhecê-lo pessoalmente há pouco tempo, e como não tinha nada melhor para fazer, decidiu aguardar o assassino voltar.
E, por acaso, embora John não soubesse disso, ele era um matador profissional também.

- Luiz Hasse

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