burrinha da felicidade

e quando a burrinha da felicidade bater à porta, deixe que entre e convide para um chá. converse sobre coisas desinteressantes. fale sobre o tempo e sobre quanto tempo falta para o próximo compromisso. faça hora, faça um bolo. e sirva. e comam.
comam o pão com ovo que seria servido no dia seguinte. e, enquanto comem, ponha uma música ruim, numa vitrola que você não tem certeza se ainda funciona. faça-a funcionar. se não, cante um pouco. de boca cheia mesmo e em volume baixo. conte piadas e distraia a atenção mostrando vários álbuns velhos de fotografias velhas. apresente e conte a história dos seus avós que estão ali, nos álbuns. chame a/o esposa/marido e os filhos e diga-lhe quão estudiosos são. tente demonstrar as habilidades que você não tem como adestrador de um cão velho, cansado e rabugento, que dorme ao canto da sala. ofereça pinga e pergunte como vai a mãe.
fume um cigarro no terraço e, se preciso for, faça-lhe adorar as cigarras que explodem de tanto cantar. não precisa ser, mas ao menos tentar parecer compreensivo debatendo política, religião e futebol é, também, aconselhável. mas discuta sobre esses assuntos, especificamente.
quando já estiver bêbada, a burrinha vai querer ir embora. impeça-lhe de ir. faça questão que durma no quarto de visitas. ela recusará, pelo que deve você insistir. acomode-a e incomode o mínimo possível quando já estiver ela dormindo. ao acordar, pergunte como foi a noite. pergunte também se não quer passar mais uns dias e, então, implore para que fique. mas, se resolver ir, dê-lhe uma cópia da chave da porta.
caruaru
2/8/2014