somos do tamanho da cruz que carregamos
“não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.”
o maior medo de quem escreve é não conseguir escrever algo à altura daquilo sobre o que se escreve. e eu tive medo de começar a falar do santa cruz, mas teria ainda mais medo de não dizer nada.
eu não quero falar dos números, das estatísticas, porque, para além do bem e do mal, sou de humanas, demasiadamente humanas. e números não medem os fatos (alguns tantos fatídicos) e os vários atos de amor e provação a que nós, santa cruz, fomos submetidos.
sim, perceba a concordância “nós, santa cruz”. eu não torço pelo santa cruz. eu SOU santa cruz de corpo e alma e serei sempre, de coração. eu o SOU. tu o és. nós o somos. mais ou menos, todos o são. a verdade é crua, mas bem vestida. nua, só verá quem vivê-la na pele, como quem sonha um sonho e tem medo de acordar.
mas, não se enganem, estaria mentindo se não dissesse que já tive medo de dormir. de dormir e, no dia seguinte, uma parte de mim não mais existir. a parte tricolorida de mim. pior: tinha medo de, existindo, essa parte não mais significar qualquer coisa. de passar no número 1285 da av. beberibe e sentir o frio na barriga não de emoção, mas aquele da dor do esquecimento.
essas coisas, minha gente, só sente quem um dia já esteve no fundo do poço sem fim. sim, como se você se sentisse no mais fundo dos fundos, até cavarem um fundo ainda maior e você lá cair. pior: lá caindo, saber que a lá não pertencia. não era… justo. mas estamos cansados de ver e ouvir que os deuses do futebol punem. e nós, o santa cruz, fomos punidos. de forma impiedosamente cruel: 9 anos de via crucis. curiosamente, tivemos, tal qual jesus cristo, três quedas. o bom comportamento não era capaz, desta vez, de promover uma progressão da pena, aliviando-a no regime. aliás, a única pena que progredia, ano a ano, era o sentimento dos que com o santa cruz simpatizavam. do caos à lama, aparentemente, movediça.
ironicamente, o clube da inclusão, aquele que primeiro teve um jogador negro em pernambuco, aquele que hoje agrega as cores dos rivais em um só escudo, foi excluído do cenário, quando sempre teve condições para protagonizar.
fomos obrigados a engolir o orgulho, o choro e a humilhação. e de tanto engolir, engordamos. crescemos. e aí tivemos a capacidade de carregar todo o peso da gigante cruz que fomos destinados a ser. de tão grande, divina. santa. o santa. de novo, uma concordância que só conosco funciona perfeitamente. como o preto, branco e vermelho juntos.
nós, santa cruz, aprendemos da maneira mais difícil a amar “apesar de” antes de “porquês”. enquanto uns aplaudiam títulos, aplaudíamos o rolo de grama esparramado porque aprendemos a privilegiar o pouco que tínhamos e dele fazermos o nosso tudo. o santa cruz ‘aprendemos’ com nossa humilde torcida. e foi de tanto ensinar e aprender que, hoje, nos dizemos um só. nó firme. uno, como a trindade tricolorida de um amor incondicional: o santinha, nós e nossa cruz. amor sem divisão, literalmente: nem de cor, muito menos de classe.
ainda que não merecedores dela, a pena está cumprida. apenas não nos digam que sabem do que passamos. só os loucos sabem. viemos da lama ao céu. e o infinito é o limite.
o santa cruz nasceu e viverá eternamente, porque eterna é a vida para os que têm fé. e perceba que por fé falo em acreditar. nem que seja no sonho do qual temos medo de acordar por achar tão bom. é nesse sonho bom que nós, santa cruz, acreditamos hoje. e mais do que nele acreditando, estamos vivendo-o. ostentando a insustentável leveza de uma gigante cruz de dois nomes, três cores e milhões de pedaços espalhados recife, brasil, mundo afora.
santa cruz, sentimento que vai além da razão pura.