A boa escrita

A escrita é imponderável, mas perfeitamente domável. Aqui vai um breve pensamento sobre a boa escrita.

A boa escrita pode significar um belo domínio da língua portuguesa, bom da gramática em seu senso mais comum. Boa escrita, dessa maneira, não está relacionada a comunicabilidade ou arte, mas ao ato de usar a língua. O que pode ser criativo, pelo uso que regras permitem. Regras permitem flexibilização, rompimento, reorganização, escolhas pragmáticas ou não. A escolha das palavras, dos períodos, dos tamanhos das palavras e dos períodos. O uso de períodos simples, de inversões, os tipos de sinalizações. Boa escrita na língua e criativa, mas ainda, somente uma boa escrita.

A boa escrita pode significar o domínio da comunicação. A capacidade de ser compreendido perfeitamente. Aquilo que estava em sua mente colocado na mente de quem lê. Domínio da leitura, mais que da própria escrita. Uma escrita voltada para a comunicabilidade. Também permite um uso criativo. É nesse domínio que se pode criar camadas interpretativas. Pensar diversas leituras, diversas comunicações. Boa escrita enquanto comunicabilidade pode ser a compreensão do simples ou as construção do complexo “limpo”, aquele honestamente planejado por quem escreveu.

A boa escrita pode ser aquela do impacto, que produza empatia, reconhecimento, drague o leitor por aquele universo. Essa também tem sua técnica, mas é mais subjetiva, depende do leitor, depende da cultura, depende do momento. O uso dessa é quase sempre criativo, mesmo no texto jornalístico, no texto técnico. É talvez a boa escrita mais amplamente reconhecida por leitores. A mais dita, a mais relevada. É uma daquelas bem difíceis de se dominar.

A boa escrita, do meu ponto de vista, é um misto dessas anteriores. Não plenamente todas, ou qualquer uma. Ela existe no subconsciente. É treino, mas é irracional. A boa escrita é uma escrita inteligente e criativa, desafiadora. Existe em qualquer plano. Cria mudanças. A boa escrita é sempre chamada de escrita ruim antes de ser boa escrita. A boa escrita, para tudo, mas principalmente para a literatura, é arte. É o espírito do processo e é, muitas vezes, incontrolável, pois depende muito do espírito da época.