O assassinato — Paola

A reza é um solavanco; o ar, funestro e impávido. Pouco a pouco, os homens se organizam em um círculo. As paredes de pedra, os ares, o campo, o vento, tudo explode em chamas azuis. O céu é chão, o chão é céu. Os homens abstraem-se. As formas são ignoradas pelo saber coletivo. A voz de um dos encantadores ressoa sozinha, O corpo de Nigredo queima branco e se torna Albedo, O corpo de Nigredo queima branco e se torna Albedo, O corpo de Nigredo queima branco e se torna Albedo. Ao entonar, um corpo sólido verde em forma de homen deitado em posição fetal surge no centro do círculo, uma chama solar explode, fazendo do corpo dourado. Rufam trovões e junto a um tornado voa uma borboleta púrpura. O corpo levanta, faceia a borboleta e lentamente a segue, caminhando pelos ares tempestuosos, trazendo a paz à matéria. Os corpos abstratos dos encantadores se concretizam. Os olhos castanhos de um deles mira ao corpo branco nos ares, Adeus Francisco.

Paola busca um pouco de ar, apoia as mãos sobre a mesa do gabinete. Os colegas do escritório se levantam e correm para acudi-la. Maria vai buscar um copo de água, Humberto segura a mão esquerda com força, Keylane grita em sua cara, Paola! Paola! Paola!. O sopro de vida retoma. Paola abre os olhos castanhos. Vê os três a circundado. Começa a pensar em desculpas, como explicar, não pode explicar. A memória retorna, uma tristeza a domina. O silêncio dela silencia os colegas. Todos esperam uma ação para quebrar o clima. Paola guarda o amargor da perda, sorri, Obrigada, acho que perdi o ar, Você precisa ir ver um médico, disse Keylane, É capaz, respondeu. Maria a mandou para casa descansar. Ela aceitou, precisava.

A alma estava exausta. Os passos lentos. As memórias frescas.

O escritório ficava no Flamengo; o apartamento dela, na Glória. Paola caminhava, atravessava o Catete, quando se perdeu nas memórias. Francisco, apressado para não morrer, esbaforia pelos becos escuros. Homens armados o seguiam, atiravam. Ele descobriu a hermenêutica da física e a ciência da metafísica em um estrondo que explodiu paredes e invocou o mar. Os homens foram dragados pelo oceano, mas ele iria ser também, não controlava. Coube a Paola, que o vigiava no templo, correr pelas ondas e segurar sua mão.

A areia entrou pela sapatilha, A droga. Em volta, um mar azul e uma mata fechada, uma areia branca. Um homem alto, negro, careca, de beleza hipnótica e nu sorria para ela. Cumprimentaram-se, mas Paola estava cansada, queria sair, começou a andar em círculos, A morte é a falta, não é?, É, agora me deixa ir. Ainda que andasse em direção a floresta, não saia da curta faixa de areia, ainda que caminhasse ao mar, não saia da curta faixa de areia, Porque você foge de mim?, E quem não foge?, o homem gargalhou alto, Mas algo mudou, Paola, ela parou de andar. Estava na Glória, em sua rua, Benjamin Constant, em seu prédio, em seu apartamento.

Mas algo mudou, Paola ecoava na cabeça dela.

Foram dois anos treinando Francisco. As ambições do rapaz do início do século XX eram grandes. As paredes, os bosques, tudo se curvou rapidamente. Logo o templo o teve e ele, o templo. Francisco estava parada ao lado de um homem velho, barbado, do rosto sisudo, Peraí, isso não é minha memória. Eles estavam em uma plataforma de mármore que cruzava a mesosfera. Em uma grande cadeira, um ser com todas as feições da humanidade, chorava, em seu peito uma lança. Seres de luz explodiam em supernova e se apagavam, tornando-se buracos negros. O pavor tomou Paola, o homem das longas barbas andou até o ser morto, tirou a lança do peito e o jogou para fora do trono. Sentou-se. Francisco, vem Paola, vem para o mundo novo. O corpo de Paola foi se enegrecendo, não como a pele viva de um africano, mas como carvão, como algo pútrido, começou pelas mãos e os pés, seguiu-se pelos braços e pernas, até que ela foi puxada.

Paola conseguiu respirar. Maria lhe deu um copo de água, disse a ela para ir para casa. Todos concordaram, ela negou, Já passou, vou só pegar um ar que eu termino o relatório. A morte estava na sala, com seu corpo hipnótico, Mas algo mudou, Paola.

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