Designer também é crítico

*Conteúdo orginalmente desenvolvido para vídeo.

Todo mundo quer ser um designer famoso. Fazer uma cadeira premiadíssima, fazer uma identidade visual para uma grande empresa, fazer uma coleção de moda ou fazer um aplicativo de sucesso. E durante o nosso período na faculdade, nós ficamos horas tentando executar aquele projeto perfeitamente. Gastamos horas e horas aperfeiçoando ao máximo o projeto. Porém o mundo do design não é só o ator de fazer um projeto.

O campo do design engloba várias outras áreas. O cliente, o mercado, o produtor gráfico, o crítico, o jornalista, a mídia e a academia são alguns exemplos desses outros agentes. E todos eles nos ajudam a moldar a forma como a gente vê e faz design.

Quando a gente tem um festival de design, por exemplo, toda sociedade vira seus holofotes para esse assunto para discutir e debater essa matéria. E isso não acontece só no design. O Oscar, na área do cinema, nada mais é do que isso. Aqueles agentes da indústria cinematográfic a não estão competindo tanto. Se você acredita realmente que o Leonardo Di Caprio está sofrendo porque elenão ganhou o Oscar, você está sendo iludido. A função da premiação do Oscar é em última instância valorizar o cinema. E houve filmes que aumentaram suas receitas em mais de 1000% depois de ter sido indicado a uma estatueta. E no campo do design nós temos prêmios assim, que incentivem e valorizem a nossa área? Nós temos blogs ou revistas discutindo o design?

É muito importante que a gente discuta as questões que são pertinentes ao design. É importante que haja discussão. Eventualmente jornais como a Folha de São Paulo ou O Globo escrevem sobre design em suas edições. Porém o design não goza da mesma relevância que outras áreas como o teatro, artes plásticas, ou cinema, que têm um espaço já reservado no jornal. Isso definitivamente é um sintoma de como a sociedade vê o design.

Essa comparação com as outras artes é tratada pelo designer Michael Rock, em seu artigo ‘Fuck Content’, publicado originalmente em seu livro ‘Multiple Signatures: On Designers, Authors, Readers and Users’ . Ele diz que nós designers temos até uma inveja do poder e da importância social que as outras artes têm. E ele completa dizendo que a utilização do termo ‘designer como autor’, conceito que valoriza a autoria do designer, é uma tentativa de ganhar um pouco desse respeito que as outras áreas dispõem.

Mas a pergunta central é: como nós podemos, além de fazer um bom design, fomentar e ajudar essa área a ter o merecido respeito? Eu proponho que o designer assuma uma faceta importantíssima para promovermos a nossa área: o designer como crítico. É fundamental que se reflita sobre a produção de design e analise-a criticamente. Quando uso a palavra ‘criticar’, eu não estou me referindo a ‘falar mal de’ mas sim, analisar e fazer uma reflexão sobre determinado tema. Para criticar não é necessário ser um expert.

Podemos começar partir de gosto pessoal: “Eu gosto daquilo” ou “ Eu não gosto daquilo”. Posteriormente, devemos tentar entender por que gostamos ou não daquele determinado produto. E podemos fazer análises de vários pontos de vista. E do ponto de vista da forma? E do ponto de vista da função? E da linguagem? É muito importante você criticar.

Eu vou dar um exemplo simples: Michael Rock escrevendo sobre o novo logo do Google. A maioria das opiniões que eu tinha ouvido até então falava muito bem do redesign do logo do Google. “Finalmente se livrou da serifa” ou “Aquela sombra que era realmente muito feia” falavam os designers por aí. Passado algum tempo, Michael Rock escreve e publica em seu site uma crítica pequena mas arrebatadora. Em seu texto, ele analisa a forma, a cor e a tipografia e chega à conclusão de que o Google quer passar uma imagem de inocência. Ele mostra que as cores — primárias — e tipografia — que remete aos tempos da escola — tentam trazer a marca para esse universo inocente. E a identidade visual nada mais é do que a forma que a empresa quer se mostrar para o público. Dessa forma, ele faz uma crítica analítica, breve e interessante. Por meio de uma análise semiótica básica, ele constrói uma argumentação.

Entender porque aquilo está funcionando ou não estimula o raciocínio. Faz a gente questionar, refletir sobre o design. E caso você trabalhe nessa área, criticar enriquece o jeito de você fazer o design. Você critica o dos outros e isso aprimora seu próprio trabalho.

Tornar o design um assunto de interesse da discussão pública também é importante. Desse jeito, a sociedade aos poucos entende a função do design, que caminhos nós queremos seguir e o que queremos para o futuro da área. E o que o Michael Rock faz, em seu sua crítica ao logo do Google, é completamente diferente de um profissional que só está reportando fatos. Por exemplo, o portal G1 reportou essa alteração do logo do Google. A manchete era assim “Google muda logotipo após reestruturação da empresa.” e continuava “Mais colorida e simples, nova marca é anunciada após criação da Alphabet.” Os jornalistas nesse caso estão contando o que aconteceu sem qualquer opinião. E esse tipo de conteúdo — reportar o que acontece — tem muito por aí. Porém o jornalismo crítico e analítico é o que está em falta.

Em uma entrevista publicada no livro Design em Diálogo, o escritor Rick Poynor conta que, no momento de fundar a revista Eye, o mais difícil foi trazer profissionais qualificados para escrever em sua revista. Ele conta que geralmente os profissionais que eram qualificados para fazer uma crítica e análise do design estavam inseridos na área de modo que não queriam fazer críticas a amigos ou conhecidos. Ou, outras vezes, eles tinham empresas no mercado e não queriam se comprometer. Por mais boa vontade que você tenha, a crítica pode desagradar alguns. Então é sempre um grande desafio. Existem no mercado algumas publicações que aceitaram esse desafio. Para quem ficou interessado nesse tipo de jornalismo, vale a pena ler a revista Print, o site Design Observer, ou o periódico acadêmico Design Issues. Além é claro da revista Eye.

É claro que a gente está cercado de produtos ruins por todos os lados que são feitos por péssimos designers. E é importante criticar sim. Mas é também importante prestar atenção nos produtos que você gosta. O que tem de bacana naquele produtor que você ama? Por que você gosta? É bonito? É funcional? O conteúdo é interessante? É diferente? E ficar ligado no designer que fez, entender seu contexto e sua motivação ao fazer aquele determinado produto.

Não importa muito se você gosta ou não dos produtos, mas fomentar essa atitude crítica em relação ao design talvez seja a coisa mais importante. E o país está precisando muito disso. Atualmente falar sobre design é tão importante quanto fazer design.