“Decidi vingar-me através da educação”

Diante da caótica situação do ensino público brasileiro, o educador José Pacheco mostra como transformar uma escola que já foi decadente em um exemplo que a tornou a melhor escola de Portugal.

Até o momento do fechamento desse texto, o total de escolas estaduais ocupadas por alunos chegava a 74. Os adolescentes decidiram ocupar as escolas diante do que o governo paulista vem chamando de reestruturação escolar, o que, de acordo com dados da própria Secretaria de Educação, serão 94 as escolas afetadas nessa transição, entre fechamento total, transferência para o poder municipal, escolas de apenas um nível educacional e escolas que, talvez, sejam transformadas em Fatecs ou Etecs ou, quem sabe, numa nova e reluzente Fundação Casa, já que vem se tornando regra encarcerar nossos jovens, principalmente nas periferias das grandes cidades.

A pasta da educação do governo Alckmin é regida, não por um pedagogo ou educador, mas sim por um economista que analisa toda a cadeia de ensino numa planilha de Excel. Herman Voorwald alegou, em entrevista recente, que 10% dos alunos de escolas com ciclo único tem rendimento superior aos de outras unidades e ainda complementou com o dado de que a escolas públicas vem perdendo alunos gradualmente. Tudo são dados numa planilha que visa o enxugamento de custos, não a melhoria da qualidade do ensino. Mas o que leva a essa debandada de jovens? O sucateamento do ensino público, com professores mal pagos, violência nas escolas e uma metodologia de ensino arcaica colaboram e muito para isso, basta ver os último índices do Ideb em que, praticamente, 90% dos adolescentes chegam ao ensino médio sem saber o básico de matemática ou português. Certamente Voorwald não tem a resposta para isso.

Transformando “turmas do lixo” em exemplos para a sociedade

oi em 1976 que o educador José Pacheco decidiu transformar uma das pioras escolas públicas de Portugal, no que é hoje um modelo educacional na formação de jovens. Nasceu então a Escola da Ponte. Pacheco chegou na instituição num momento crítico, até muito parecido com o que passam as escolas públicas brasileiras. “Essas turmas eram maioritariamente constituídas por jovens de 14, 15 anos, que não sabiam ler nem escrever, e que batiam nos professores”, enfatizou o educador. A partir dai percebeu que o erro estava na metodologia de ensino, já muito enraizada na pedagogia da avaliação seletiva, em que apenas os poucos alunos que se destacam é que vão ter seu lugar ao sol na sociedade, o restante seria, bem, o restante, a sobra da parcela da sociedade que vive a margem numa opressão, não por obra de uma mão-de-ferro, mas sim por uma fragilidade de formação e falta de conhecimento, o que os deixam presos num círculo vicioso de exploração por aqueles que estão no topo econômico da sociedade.

José Pacheco nasceu numa região extremamente pobre e numa época em que Portugal vivia sobre a égide de um governo ditatorial. Foi esse um dos motivos pelo qual decidiu ser educador. Assim como Paulo Freire, um de seus maiores exemplos como pensador pedagógico, sentiu que apenas a educação de qualidade, mesclada com participação social, poderia transformar a vida das pessoas e, também, a sociedade num organismo mais justo em que poderemos, quem sabe um dia, diminuir o espaço abissal entre a parcela que vive para sustentar os bens e prazeres de uma minoria que paira sobre o mundo como abutres e que enxerga nessa grande maioria, apenas mão-de-obra para o progresso capitalista.

A Escola da Ponte pode servir de exemplo para esses jovens que hoje estão ocupando as escolas paulistas. Por que não todas as escolas públicas do Brasil? Hoje são eles que estão nos dando aula de cidadania que, além de ocupar o espaço público, estão fazendo assembleias diárias para decidir qual o rumo que eles querem. E não é assim? O próprio aluno, junto de pais e professores, decidir o que ele quer com relação ao ensino, ao invés de aceitar goela abaixo um sistema educacional falido? É assim que funciona na Escola da Ponte e é assim que deveria funcionar.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com o educador José Pacheco.

Luiz Miller — Como funciona a metodologia de aprendizado da Escola da Ponte e o porquê de abolir formas tradicionais de avaliação dos alunos?

José Pacheco — Em 1976, a Ponte era uma escola como qualquer outra, escola pública degradada, que albergava as chamadas “turmas do lixo”, produtos de uma avaliação seletiva, da prática de um sutil darwinismo social. Essas turmas eram maioritariamente constituídas por jovens de 14, 15 anos, que não sabiam ler nem escrever, e que batiam nos professores. Ali, encontrei duas pessoas, que faziam as mesmas perguntas que eu fazia: “porque eu dou aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?”. Substituímos as aulas por uma organização do trabalho escolar que, em poucos anos, fez da Ponte a melhor escola do meu país. E, para novos modos de aprender, concebemos novos modos de avaliar. Prescindimos do recurso a provas (que pouco, ou mesmo nada provam) e passamos a praticar uma avaliação formativa, contínua e sistemática.

Luiz Miller — Essa forma tradicional de avaliação está enraizada no Brasil, não apenas nas escolas, mas em toda a sociedade em que o cidadão é sempre visto como uma estatística que, quando chega no mercado de trabalho continua sendo avaliado pelo o que ele produz, isso se reflete também na publicidade das universidades brasileiras com os slogans do tipo “seja o melhor no mercado de trabalho, entre na universidade tal”. Como o senhor avalia essa sociedade que prega o ser humano praticamente como um autômato?

José Pacheco — As escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. Precisamos compreender que pessoas são aquelas com quem partilhamos os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras), cuidar da pessoa do professor, para que se veja na dignidade de pessoa humana e veja outros educadores como pessoas. Por isso, se a um velho for permitido dar conselhos, aconselharia coragem e prudência. Coragem para substituir um obsoleto modelo de ensino por práticas coerentes. Prudência, para usar a ciência numa práxis transformadora e não usar alunos como se fossem cobaias de laboratório.

Luiz Miller— O artigo 12° do regulamento da Escola da Ponte se refere as assembleias semanais em que há a participação de todos os alunos em, juntamente com os orientadores, decide-se sobre diversos assuntos que visem a melhoria da escola. Como esse tipo de participação direta pode influenciar na vida social futura desses jovens?

José Pacheco — Decorridos quarenta anos sobre o início dessa prática, são evidentes as suas consequências. Histórias de vida de ex-alunos demonstram que são seres humanos plenamente integrados socialmente, com elevado senso critico, participativos, solidários, a tradução prática da matriz axiológica do projeto. Enfim! São cidadãos avisados, que não elegem políticos corruptos.

Luiz Miller — As escolas brasileiras mantêm o padrão de apostilas, do professor que apenas transmite o conteúdo que o aluno é obrigado a decorar, mesmo assim a defasagem de ensino nas matérias básicas como Português e Matemática é muito alto, fazendo com que o aluno chegue no ensino médio sem saber o básico dessas matérias. O que está errado nesse conceito e como o Brasil pode alterar esses parâmetros?

José Pacheco — De cada cem alunos de início do Fundamental apenas onze chegam à universidade. E, mesmo na universidade, o analfabetismo funcional prospera. Mas não é inevitável que os poucos jovens, que ingressam no ensino médio a ele cheguem “mal preparados”. Nem que metade dos que ingressam na universidade não a completem deverá ser considerada uma fatalidade. Para inverter essa trágica situação basta que a pedagogia prevaleça nas escolas onde hoje reina a burocracia. A situação poderá ser alterada se os critérios de natureza administrativa não estiverem submetidos a ocultos interesses político-partidários. Quando políticos, para os quais a pedagogia é ciência oculta, deixarem de dar opinião, ou decidir em algo que não entendem.

Luiz Miller — A formação do professor também não entra nesse padrão? Mesmo que eles aprendam teorias libertárias de educação em sua formação, acabam sendo arrastados para essa metodologia de ensino quando chegam às escolas públicas. Como mudar isso? Apenas com políticas públicas ou cabe também a sindicatos e professores propor uma mudança nas metodologias de ensino?

José Pacheco — A formação dos professores é o nó górdio da questão. E a universidade é o problema da educação, quando recorre a práticas formativas anacrônicas. Porém, algo está a mudar em faculdades, nas quais excelentes profissionais já vão percorrendo novos caminhos de transformação, arrostando com a incompreensão de gestores e reitores. Acredito no trabalho de alguns formadores de profissionais do desenvolvimento humano, que, corajosa e prudentemente, preparam novas gerações de professores capazes de operar a mudança de que a educação do Brasil carece.

Luiz Miller — Nos anos 90 o governo de São Paulo instituiu a progressão continuada, o que seria um pouco parecido com a Escola da Ponte, onde o aluno progrediria de ano sem ter uma avaliação tradicional, o que gerou um desconforto na sociedade. No artigo “Carta para Darcy” o senhor afirmou que a progressão continuada que foi aplicada aqui é uma mentira, pode dizer o porquê. Como seria de fato a progressão continuada?

José Pacheco — Para se assegurar uma efetiva progressão continuada, seria indispensável que as escolas reconfigurassem as suas práticas. Isso não aconteceu. Em teoria, as escolas seriam organizadas em ciclos, mas continuaram a trabalhar na lógica da série/ano e a praticar a “aprovação automática”, o que considero um crime. As escolas não enveredaram por uma avaliação formativa, contínua e sistemática. Continuaram a aplicar provas, que nada provam. Então, como se poderia afirmar, como o fizeram os candidatos à prefeitura de São Paulo, que iriam acabar com a progressão continuada? Como se poderá acabar com algo que nunca começou?

Luiz Miller — Outra medida que o governo estadual paulista vem adotando, é a de reorganizar as escolas por períodos letivos, sendo que algumas escolas passarão a ensinar apenas o fundamental, outras o básico e, por fim, o ensino médio, segundo o secretário de educação, essa medida é importante para que haja uma melhoria no aprendizado, focando em faixas etárias. Como o senhor avalia essa proposta?

José Pacheco — Poderia responder que apenas comento medidas de política educativa que sejam sérias, isto é, baseadas na ciência e na lei. A medida tomada pela Secretaria de Educação não é uma coisa, nem outra. É uma aberração.

Luiz Miller — Por que seria uma aberração?

José Pacheco — Por muitas razões, entre as quais a falta de fundamentação científica. E até mesmo de fundamento legal. Infelizmente, não é raro que titulares de cargos públicos venham a terreiro para anunciar “reformas” e outras inutilidades, através de um discurso tão arrogante como ignorante. É lamentável. E mais não digo, porque, como já afirmei, é inútil comentar aberrações.

Luiz Miller — O senhor sempre cita Darcy Ribeiro e Paulo Freire, que têm como contraponto a educação como forma libertária de uma sociedade, podemos colocar também nesse nicho o geógrafo e anarquista francês Elisèe Reclús, que via que somente atingiríamos o verdadeiros socialismo através da igualdade educacional e que cada pessoa pode e deve ser tornar um transmissor de conhecimento para os menos afortunados. Você também enxerga a educação dessa maneira, como forma de moldar, libertar de opressões e igualar homens e mulheres? Como seria essa sociedade no seu ponto de vista?

José Pacheco — A libertação de oprimidos e opressores poderá ser tornada realidade, se Paulo Freire for para o chão das escolas e não permanecer sequestrado nos arquivos de teses da universidade…

Luiz Miller — Por falar em Paulo Freire, uma parcela da sociedade brasileira e até mesmo alguns políticos dizem que suas teorias são usadas como doutrinamento marxista. O que senhor pensa sobre isso?

José Pacheco — Penso que quem assim pensa, ou age, não leu Paulo Freire. Ou, tendo-o lido, não o entendeu.

*Matéria originalmente publicada no site GuerrilhaGRR.