Simone Martins quer pisar no mundo

Por Luiz Miller / Fotos Alex Korolkovas

Simone está sentada num grande sofá, procura alguns nomes na sua agenda do celular, enquanto fuma cigarros Dunhill e usa uma lata de Red Bull como cinzeiro. De vez em quando ela dá um gole ou outro na lata de cerveja, não quer copo, prefere as coisas simples.

- Fabiana, liga para o Superman, ele deve ter GNT.

Simone, Paulo e Fabiana estão preocupados. Paulo, seu ex-companheiro e que agora é apenas um parceirão, como ela diz, participou da gravação de um programa sobre alimentação saudável do canal à cabo GNT. Paulo está deitado, olhando sua agenda do celular e também procura algumas pessoas que possam gravar o programa. Fabiana também ajuda na empreitada. Ela tem dezenas de tatuagens e usa um colete almofadado que lembra os lenhadores do norte dos Estados Unidos.

Os três estão no Valhala, a única casa fetichista da América Latina. Para falar sobre o Valhala tem que se recorrer a literatura nórdica e a própria história de Simone Martins. O Valhala nórdico era um castelo para onde os guerreiros iam depois que morressem e eram recebidos com honras por lindas mulheres — as valquirias.

No Valhala paulistano da rua Peixoto Gomide, nas proximidades do Baixo Augusta, as coisas são um pouco diferentes. Os homens são bem recebidos, mas apenas os obedientes. Adepta da dominação, Simone transforma-se ali em Rainha Naja. Os homens, bem, os homens estão ali para serem obedientes, gostam de um pézinho feminino, de levar tapa, chicotada, serem amarrados, pisados, surrados, mandados, subordinados a qualquer comando feminino. Não querem mais ser homens no sentido do “chefe”, o líder que comanda, aceitam a submissão de bom grado.

De Birigui para o mundo, ou quase isso

A cidade paulista de Birigui tem o título de capital estadual do calçado. Estranho isso, mas a cidade que gaba-se de produzir milhões de pares de sapatos, também gerou pés, hoje tamanho 36, que são o sonho de milhões de podólotras que gostariam de beijá-los e serem pisoteados por eles.

Nessa pequena cidade de 100 mil habitantes, localizada a 521 km de São Paulo, bem lá no oeste do estado, Simone divagava. Tinha o sonho de um dia morar e fazer a vida na capital. Mas isso ela fazia, como tudo até hoje em dia, precocemente e com a cabeça erguida para enfrentar o mundo, não sabia, porém, que disso surgiria a Supremacia Feminina.

Como uma cobra, ela vivia enroscada no galho de uma árvore que ficava no fundo da chácara onde morava com os pais e o irmão. Ela tinha vista para a rodovia que, de uma lado seguia sentido Mato Grosso do Sul e do outro para a capital paulista. Observava apenas os carros que iam sentido a capital com o único e irreversível desejo de sair daquela cidade que não oferecia muita coisa aos jovens, apenas o tédio de se morar numa cidade que é capital de alguma coisa.

Aos 15 anos resolveu sair de Birigui e se tornar atriz. Idas e vindas e foi parar em São Bernardo do Campo e lá conheceu um homem que arranjou um trabalho numa agência de empregos que estava mal das pernas, praticamente falida. Com o salário baixo, sentiu necessidade dividir o aluguel, então foi morar com uma amiga recém chegada da Bahia.

Não tinha salário e estava numa enrascada tão grande, que pedia para os motoristas das empresas de ônibus darem carona para ir ao trabalho. Por que ia se não tinha salário? “Era o único lugar onde podia se agarrar até arrumar outra coisa” disse. As duas passaram fome, pediram comida a conhecidos e seguiram em frente. Simone foi para um lado, mas sua amiga queria voltar para a Bahia, pois nenhum sonho suporta a fome e a falta de dinheiro.

Com a certeza de que seria atriz, foi para o Rio de Janeiro cursar a famosa escola de teatro O Tablado. Se eles formaram grandes atores, então ela seria mais um a ter o nome entre as participações especiais nas novelas. O ritmo era forte. Saia de São Paulo às 4h30 e ia trabalhar como doméstica numa casa do Bairro Peixoto no Rio. Em alguns dias ia para o Projac da Rede Globo fazer testes. Descobriu então que o mundo da televisão é desonesto e uma grande filhadaputagem com os que não paparicam a tudo e a todos, um jogo sujo onde pessoas talentosas podem ficar esquecidas num canto empoeirado, junto a rolos de filmes da década de 1970.

A única coisa que conseguiu, foi uma participação como figurante na novela Torre de Babel. Sentiu então que não queria mais aquilo e voltou seus sonhos para São Paulo. Para quem tinha o desejo de ser uma grande atriz e olha sempre de cabeça erguida, sem nunca abaixar o olhar, aquilo foi um golpe, como se fosse uma pequena e apagada mosca. Sua última tentativa no showbusiness, foi participar de um “time” de futebol de loiras — as Blond Girls. Era o auge das loiras do É o Tchan e aquilo prometia. Sim, ela é naturalmente loira. Mas as decepções também foram grandes, o grupo não decolou e a sensação de mosca apagada voltou.

O chicote estala e o bicho pega

Já no começo dos anos 2000 Simone conheceu Paulo. Como na música do Legião Urbana, Eduardo e Monica, os dois começaram a frequentar festas estranhas com gente esquisita. Simone ainda não era rainha. Timidamente apenas observava os rituais fetichistas do S&M, também conhecido como sadomasoquismo, mas que ela logo ligou a sigla ao seu nome Simone Martins…S&M. Observou, leu, aprendeu e desenvolveu suas próprias técnicas de dominação. Surgiu a Rainha Si. Um nome tão sem força, como uma nota musical apagada, que ela mesmo sorria quando alguém a chamava de Rainha Si.

Então pesquisou e descobriu a força da naja, uma cobra do norte da África que ergue a cabeça e domina seu oponente com o olhar. Rainha Naja fez sucesso, arrebanhou adeptos e decidiu abrir sua casa fetichista. O primeiro Valhala ela inaugurou quando tinha apenas 21 anos. Era uma casa modesta na rua Francisco Cruz no bairro Vila Mariana e que logo teria que se mudar dali, devido a alta frequência e uma vizinhança conservadora que via pensava que ali era uma casa de prostituição. Ao todo foram 11 endereços até o atual local.

A mosca sem brilho tinha virado uma cobra imponente, então o mundo decidiu olhar em sua direção. De programas de televisão a matérias em revistas e jornais, Simone foi mostrando seu rosto, sua vestimenta preta e seu chicote à todos. Doesse ou não naqueles socialmente corretos e que viam nesse tipo de fetiche uma aberração do ser humano. Ela estava prontinha para sentar nas costas dos caretas e mostrar sua força e fazer o chicote estalar naqueles que erguessem a voz contrária aos seus ideias.

Em 2008 candidatou-se ao cargo de vereadora pelo Partido Verde, até então um partido mais adepto a ideias liberais. Com seu slogan “Vamos Pisar no Preconceito”, Simone percorria as ruas da capital para angariar votos. Caminhava pela avenida Paulista e, vez ou outra, parava para tirar foto com algum homem que se submetia a deitar sob seus pés. Os paulistanos ainda não estavam preparados para ter uma dominadora os representando. Simone não se elegeu, mas não desistiu.

Seu auge como figura pública foi a participação no programa da TV Record Troca de Família. Ela foi para Cuiabá e, por um tempo, virou a patroa de uma família católica conservadora, enquanto a mãe de Cuiabá veio viver com Paulo. Sua imagem percorreu as tevês de todo o Brasil, era a oportunidade de mostrar que fetichistas não são antissociais, mas apenas tem um estilo de vida diferente.

Simone está sem seu chicote

Simone, Paulo e Fabiana ainda não conseguiram ninguém que possa gravar o tal programa da GNT. Infelizmente, nem tudo pode ser dominado. Fabiana, com outro aparelho celular nas mãos, vai passando em revista possíveis nomes de pessoas que possam gravar o programa que vai ao ar às 22h30. O desespero bate, pois falta menos de uma hora para começar.

De dia Simone veste calça jeans, camiseta e tênis. Não quer chamar a atenção. Ela gosta mesmo da noite. Até ir a praia para ela, só faz sentido a noite. Costuma descer a serra com os amigos durante a madrugada e ficar na areia tomando banho de lua. Quando está quase na hora de clarear, todos voltam para São Paulo, como os vampiros daqueles filmes antigos, os novos, aguentam sol, choram e falam de amor.

Agora ela é uma empresária. Seus tentáculos se abriram e agora ela comanda uma produtora de filmes S&M, e uma agência de bandas de rock alternativo. A Rainha Naja está pronta para cuspir seu veneno no mundo politicamente correto. Ela fuma Dunhill e ainda não conseguiu alguém para gravar a porra do programa.