#VemPraRua foi pra urna?
Parece que a esperança de eleições melhores foi por água abaixo. O Rio de Janeiro presenteou a Câmara Federal com Jair Bolsonaro como deputado mais votado do estado e Clarissa Garotinho como segunda. O Distrito Federal, com aquele sorriso amarelo no rosto, entregou Alberto Fraga e Rogério Rosso, como primeiro e segundo mais votados, respectivamente. São Paulo nem se fala: Celso Russomano em primeiro, Tiririca em segundo, Marco Feliciano em terceiro e ainda levaram o Eduardo Bolsonaro para mostrar que não estavam de brincadeira. Ou estavam, sei lá.
O importante é que sobram motivos para acreditar que as manifestações de 2013 não tiveram influência sobre a votação de 2014. E não precisou muito para as mídias sociais intensificarem esse discurso: nunca antes na história desse país o sono de um gigante foi tão sabatinado. Se tem uma coisa que essas eleições despertaram foi a zoeira na internet.
Em berço esplêndido ou não, talvez o gigante de 2013 tenha sim aparecido para votar em 2014. Não com a força que se esperava, claro. Ele está mais para #OGigantinhoAcordou. Meio sonolento, mas acordou.
A corrida pelo Planalto, que não ameaçava tirar o sono de Dilma Rousseff, tem se mostrado um verdadeiro pesadelo. A presidente tem que conviver com um índice de rejeição considerável e com a ascensão da oposição geral ao seu governo. Primeiro com Marina Silva, com quem chegou a estar empatada tecnicamente em seguidas pesquisas, e agora com Aécio Neves, que abocanhou 33,6% dos votos às vésperas da votação. Dilma Rousseff ainda termina o primeiro turno com a menor porcentagem do primeiro colocado desde Fernando Collor. Para piorar esse dado, a eleição de 1989 contou com 22 chapas presidenciais, o dobro dessa disputa, e tudo está se desenhando para um segundo turno bem parelho. O número de votos brancos, nulos e de abstinências também aumentou da eleição passada para essa.
Dando uma volta na Praça dos Três Poderes, podemos ver que a insatisfação popular não ficou só no Planalto. A bancada governista ainda se mantém como a maior do Congresso Nacional, mas sofreu um encolhimento nessas eleições. Na Câmara, o PT caiu de 88 para 70 deputados e o PMDB, de 79 pra 66. Aqui vale uma pausa para colocar que a criação de novos partidos possa ter certa influência sobre esse resultado. Mas o aumento das bancadas de oposição mostra que esse não foi o único motivo. O número de deputados do PSDB na Câmara subiu de 44 para 54 e do PSB, de 24 para 34. No Senado, a variação foi menor, mas o cenário geral não fica longe da sua vizinha de Congresso.
As eleições estaduais também trazem um momento interessante. Das 13 unidades da federação onde os governadores foram eleitos em primeiro turno, apenas em 4 houveram reeleições. Sendo que nas outras 14 onde ocorrerão segundo turno, só em 4 o atual governador está em primeiro nas intenções de voto. Em 5 dessas 14, quem tenta reeleição vai para o segundo turno em desvantagem nas pesquisas. E nada mais, nada menos que 4 atuais governadores já estão eliminados da disputa. Nesse ponto vale uma menção honrosa a Agnelo Queiroz, que não conseguiu nem ir para o segundo turno no Distrito Federal. Com isso, o número de governadores reeleitos pode ser de 8 em 17, ou seja, vitórias em menos de 50% dos casos.
Mas e todas aquelas distorções do início do artigo? Bem, o problema começa quando diminuímos o escopo. Ao analisar a escolha de deputados, a grande quantidade de vagas disponíveis e o baixo percentual de votos para eleição são fatores determinantes. Por exemplo, 400 mil votos (1,90% do total) são o bastante para que Feliciano seja o terceiro deputado federal mais votado por São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. Apenas 10 mil votos já são capazes de eleger deputados para a câmara legislativa do Distrito Federal.
Ao adicionar a essa conta números como 2 milhões de brasileiros nas ruas em 2013 contra 142 milhões nas urnas em 2014 é possível redimensionar o tamanho do pobre gigante. Com isso, podemos separar o poder de voto dos manifestantes do poder de influência das manifestações no voto da população: a discussão não é se o gigante acordou e sim quem ele conseguiu acordar. Além disso, muitos dos deputados das bancadas religiosa, ruralista e de natureza homofóbica ou corrupta se elegem através de nichos específicos. Nichos que não são diretamente influenciados pelas bandeiras das manifestações.
Claro que há outros pontos a serem considerados aqui, como a quantidade de investimento na campanha, a influência política do candidato, o fato do voto legislativo ser por legenda. Também é preciso enaltecer certo desconhecimento da área de atuação de cada poder pela população brasileira, o que faz recair exigências equivocadas sobre o colo do executivo e não do legislativo. Talvez porque a figura centralizadora da presidência seja mais tentadora para críticas que a de um congresso heterogêneo.
Pode ser que nesse microcosmo legislativo as mensagens vindas das ruas não afetam tão diretamente as eleições quanto era esperado. Talvez isso passou despercebido quando as manifestações geraram mais dor de cabeça para a presidente que para o Congresso já em 2013. Dilma foi à televisão prometer mundos e fundos, o Congresso não fez mais que derrubar a PEC 37 e rediscutir os royalties do Pré-sal.
Claro que é muito cedo para traçar uma relação direta entre as manifestações e os resultados de uma eleição que nem acabou. Política não é preto no branco: há muitos tons de cinza nessa história. Certo mesmo é que imediatismo não entra aqui. As mudanças que o Brasil precisa não seriam feita em um ano. Para que a rua seja determinante nas urnas, o slogan precisa mudar: #VoltaPraRua.