O aborto e o silêncio
Tamy Monteiro
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Assunto delicado Tamy. Segue abaixo texto de Alberto Jorge Correia de Barros Lima — Juiz de Direito/AL, que corrobora sua opinião e que talvez possa ajudá-la na sua luta por essa conquista feminina.

É justo o aborto?

Uma das controvérsias mais persistentes nas últimas décadas diz respeito ao aborto, ou ao abortamento, como preferem referir ao ato de abortar alguns autores. Excluindo as concepções religiosas, porquanto estamos em um Estado laico, o principal argumento daqueles que são contrários ao abortamento é de que o feto, desde a fecundação, é um ser humano e, como matar um ser humano é errado, não é justo matar um feto humano. Quatro objeções são colocadas a esse raciocínio pelos que defendem a possibilidade do aborto. A que enfrenta o argumento central, patrocinada pelo professor de Princeton, Peter Singer, vale-se da hipótese de que o feto não é ainda um ser humano, mas um ser humano em formação, principalmente porque não é dotado de racionalidade e autoconsciência. Assim, os sérios interesses de uma mulher — um ser humano pleno, autoconsciente e racional –, devem sempre prevalecer sobre os interesses rudimentares do feto.
As outras três objeções não se dirigem contra o argumento central. A primeira é uma argumentação feminista defendida por Judith Thomson, a qual reconhece o embrião como ser humano, entretanto, afirma que isso não dá a ele o direito ao uso do corpo de terceiros, mesmo que, sem esse uso, venha a morrer. A segunda parte do princípio de que o tema aborto não é da alçada da lei. Em uma sociedade democrática, heterogênea e plural, é preciso tolerar as concepções morais divergentes quando elas digam respeito à esfera privada de cada um. A lei não pode reger questões restritas ao âmbito do indivíduo e, assim, ficaria ao alvedrio da interessada a decisão de abortar.
A terceira e última argumentação toma por base, fundada em dados empíricos, uma assertiva, que me parece incontestável: as leis que proíbem o abortamento, ao invés de inibirem, aumentam sua prática. Em um importante estudo na Stanford Law School, John Donohue e Steven Levitt comprovam que, nos Estados americanos onde o aborto é proibido, há mais abortos que nos Estados americanos onde ele é permitido, o que coincide, inclusive, com a experiência alemã pós-lei permissiva do abortamento. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que, no Brasil, há mais de um milhão de abortamentos por ano, deixando patente a inadequação das leis criminalizadoras para resolver o problema.
É comum o desespero das mulheres que desejam fazer um aborto. A proibição as leva a procura de aborteiros, clínicas clandestinas, remédios sem receita, não havendo, pois, apoio nem orientação do Estado. As conseqüências são desastrosas, com sérias complicações para a saúde e, não raro, a morte da mulher. A resposta penal, nesse caso, é contraproducente, nem inibe o comportamento tido por delituoso, muito menos castiga ou recupera as pessoas envolvidas, mesmo porque os processos de aborto são raríssimos no Sistema de Justiça Criminal dos países ocidentais.
Parece que a melhor resposta é a legalização racional e responsável do abortamento voluntário, com a necessidade de autorização administrativa para abortar. A mulher que deseja o aborto deve, obrigatoriamente, consultar um médico, que lhe explicará os efeitos clínicos do procedimento e as conseqüências, presentes e futuras, para o seu corpo; um psicólogo, que lhe revelará os efeitos para sua mente; um assistente social, que poderá convencê-la a manter a gravidez, mostrando o caminho da família substituta. Ao cabo de um processo que prima pela assistência, é natural que muitas mulheres desistam de abortar, o que explica um maior número de abortos nos Estados que o proíbem. As que, ainda assim, insistem no aborto, têm proteção assegurada à sua saúde e à sua vida.
Diante deste último argumento, que também não enfrenta a tese de que o feto é um ser humano e, portanto, é errado matar um feto humano, o desfecho para a questão da Justiça no abortamento pode ser buscado na percuciente afirmação de Dostoiévski: “uma justiça que só é justiça é uma injustiça”.

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