Forças terríveis levantam-se contra as proteções de dados e as intrigam ou infamam, até com a desculpa de contribuição

Luiz Paulo Carvalho
Nov 4 · 17 min read

O título desse texto é uma referência política, histórica e acadêmica com dois itens. Primeira, a carta de renúncia de Jânio Quadros, onde ele vai dizer que “forças ocultas” (nesse caso, forças terríveis) conspiram contra ele; segundo, a percepção de Caixa Preta concebida na Teoria Ator-Rede, por Bruno Latour, onde não há possibilidade de materializar ou estruturar com propriedades elementos, pessoas ou não, de uma realidade discursiva em ação.

Como pesquisador sociotécnico deste tema me vejo na responsabilidade intelectual de apresentar uma análise desse fenômeno, direto ou indireto, implícito ou explícito, intencional ou não, contrário à LGPD.

Já publiquei outro trabalho nesta seara, sobre viés sociotécnico da LGPD no Brasil, e até o momento dele não tinham “forças terríveis” agindo ou organizadas contra a LGPD. Não muito surpreso, agora tem. Só que isso era bem esperado, onde o pancapitalismo espalha rama, muito sem noção põe a mão no coração.

Eu também não vou explicar a LGPD aqui, para isso já tem um zilhão de textos, de qualidade variada, por aí na Internet. Até eventos acontecendo (ou mentindo que vão acontecer, como já fui enganado por uns três). E alguns conteúdos MUITO ruins, como um painel sediado em uma empresa no Centro do Rio de Janeiro que eu fui. Um painelista, dito “especialista tecnológico em Ciência de Dados”, disse que a LGPD só age quando tem profiling (construção de perfis) dos usuários, nada mais. Eu não vou nem comentar o ABSURDO de errado que isso é…

Esse não é um texto científico acadêmico, não vou colocar referências ou citações célebres aos montes. Precaução ao lê-lo. No futuro teremos trabalhos nesse patamar sim, e se ninguém fizer vou tentar eu mesmo.

Aqui vamos considerar todos os objetos, abstratos ou concretos, como atores e objetos que agem e alteram a realidade. Ok? Nesse caso a LGPD é um ator. A legislação influenciou, alterou a realidade, trazendo uma preocupação no Brasil nunca antes tão própria quanto ao tema PROTEÇÃO DE DADOS. Mesmo que ela não seja uma pessoa, ela age.

Pausa para esclarecimento.

Privacidade e proteção de dados não andam de mãos dadas? Não é a mesma coisa?

NÃO! Esse texto não é sobre privacidade, é sobre proteção de dados. A partir do ponto que eu percebo os dados X, Y e Z e digo que eles precisam ser protegidos, logicamente, aí já foi violada a privacidade. Um exemplo SIMILAR, no Facebook quando alguém compartilha uma imagem com a legenda assim “Joãozinho pediu na Justiça que ninguém compartilhasse essa imagem, então vamos compartilhar essa imagem para que todos saibam que ela não pode ser compartilhada”. Pronto, tá destruída a privacidade. E está “reforçada” (risos) a proteção de dados.

Voltando…

Antes de 30/10/2019

Especialistas em tecnologia já diziam e dizem que, de fato, tecnologicamente o Brasil está bem ultrapassado na qualidade “privacidade” dos seus sistemas.

Pausa para esclarecimento.

“Ali em cima você disse que privacidade e proteção de dados NÃO SÃO a mesma coisa, aqui você mistura os dois. Você é ignorante?

Todos somos.

Na área tecnológica temos TRÊS termos associados: Proteção de Dados, Privacidade e Segurança. Não muito por culpa do pessoal dessa área, eles são bem alienados em fundamentos conceituais e epistemológicos sobre objetos complexos da realidade, como estes três.

Se vocês procurarem as vagas de Tecnologia da Informação (TI), ou Informática, para implementar a LGPD, em sua ENORME maioria são de Segurança. Porque a privacidade, na tecnologia, ainda é subordinada à Segurança. E o que os atores tecnológicos acreditam? Que proteger dados é proteger a privacidade. E o pessoal cabeça no tema já demonstrou que NÃO, NÃO É ASSIM QUE A BANDA TOCA.

Um dos maiores desafios da LGPD é evitar que dados pessoais ou personalíssimos sejam utilizados, com o próprio consentimento legítimo, para manipular e conduzir o comportamento de uma pessoa, ou grupo, sem que o mesmo tenha consciência instruída e genuína de que está sendo manipulado e conduzido. Isso, caros leitores, a área de Segurança não trata. Porque se você disse “use meus dados como quiser”, mesmo sem ler nenhum termo ou sem saber, objetiva e claramente, do que se trata, para TI adivinhem só? ISSO NÃO ATENTA CONTRA A SEGURANÇA!

Tem esse texto MUITO BOM sobre a falácia da troca (tradeoff fallacy). Um dos pontos é a famosa mentira, que foi amplamente disseminada, que pessoas preferem abrir mão da sua privacidade para maior “segurança”, desde que elas saibam o que está sendo feito com seus dados. TÁ FELIZ, GEORGE ORWELL???

Não vou me estender sobre isso porque isso é pano pra manga para outro texto.

Voltando…

TI têm (olha o circunflexo do plural gritando) tanto problema que Privacidade fica lá atrás. Um dos mais famosos é Acessibilidade, como tornar sistemas computacionais usáveis pela maior parcela possível da população de forma isonômica, como pessoas com espectro autista, com deficiência física ou visual, idosos, dentre outros.

Então nós, de TI, sabemos que um sistema computacional precisa ter várias qualidades. E algumas dessas qualidades são obrigatórias por lei. E a qualidade da proteção de dados está entrando nessa listinha, não muito pequena diga-se de passagem, de qualidades que sistemas computacionais precisam OBRIGATORIAMENTE (É LEI GENTE, NÃO TEM ESCAPATÓRIA) estar em conformidade.

Timidamente dois grupos manifestavam preocupação com a implementação técnica da LGPD, os analistas especialistas sérios de TI, em maioria de consultorias, e os oportunistas operadores do pancapitalismo.

Os especialistas sérios de TI sabiam (e sabem) das dificuldades em operacionalizar requisitos não-funcionais de qualidade associados a dados, porque dados são muito valiosos. Quem vier me dizer que dado é o “novo petróleo” eu já estranho. Tem que parar de repetir frase de efeito de wannabe guru dos negócios, como o Clive Humby que cunhou essa palhaçada, porque não é simples assim. Dados são valiosos? Sim. Estão mais relevantes do que nunca? SIM. São o “novo petróleo”? NÃO. Isso mostra que você não sabe o que é dado, o que é petróleo, e que repete frase feita sem pensar na fundamentação dela só porque “impressiona” as pessoas.

Para quem não é do métier (famoso metiê), uma base de dados com dados pessoais ou sensíveis pode estar espalhada por TODA a organização. Desde Recursos Humanos até Almoxarifado. Pode estar em servidores atrelados à sua organização em locais virtuais que você nem imagina ou simplesmente esqueceu (na Nuvem talvez?). Pode estar, offline, no seu notebook “da firma”. Sabe aquela base de dados de candidatos para uma vaga da sua empresa? Pode ser ela que vai trazer o processinho, porque ninguém olhou o computador do rapaz do RH que está ali no canto esperando manutenção. Ele está cheio de dados pessoais ou sensíveis que já deveriam ter sido apagados após processo seletivo. Leiam o Art. 15º da LGPD, se vier com “vamos manter os dados para posterior chamada de candidatos” o processinho vem! Porque o titular dos dados vai cair dentro. E VAI GANHAR! Ele precisa dar o consentimento quanto a isso, e se o consentimento parecer viciado ou por má fé (estruturas de poder, o contratante está em vantagem de poder) aí não tem jeito.

Então manter base de dados “hibernada” é tiro no pé, principalmente porque são raríssimas, para organizações privadas, as situações onde você vai tratar dado “eternamente”. Mesmo que a lei tenha umas brechas interpretativas em relação a isso.

E os operadores do pancapitalismo… esses são a cereja do bolo.

Nos amplos debates vocês vão encontrar alguns “atores curiosos” com o argumento de que já há uma amplitude de negócios que operam sobre dados e que a LGPD vai destruir esses negócios e vai “colocar na rua da amargura pais de família dedicados e bem-intencionados que operam com manipulação de dados de terceiros sem consentimento” ou “acabar com negócios, até agora ‘legítimos’, de empresários bem-intencionados que querem operar com dados com muito amor no coração”.

Esses atores pró-manipulação inescrupulosa e implícita de dados estão timidamente por aí defendendo seus interesses próprios, ou até seu ganha pão, e o foco principal deles NÃO É A ÉTICA! É o capital, ou é defender o capital de terceiros. Lembre-se que cada um está correndo pelo seu. Paladino ideal da Justiça só existe no mundo da fantasia.

Quando ouvir discurso pró-manipulação de dados absorva-o de forma crítica. É importante ver os dois lados, ao mesmo tempo é importante avaliar o que está em jogo, quem/o que está perdendo ou ganhando o quê. Esse papo de “ganha dinheirinho suado” com dados dos outros com “consentimento mequetrefe” ou “comércio por baixo dos panos” NÃO É moral, ético ou de boa-fé! Apesar de tudo, é válido.

30/10/2019

Aí chegou o Deputado Carlos Bezerra do MDB de Mato Grosso com um Projeto de Lei para prorrogar a entrada em vigor (estender a vacância) da LGPD por mais DOIS ANOS. A Justificação você encontra aqui. De acordo com isso, a entrada em vigor só ocorre em Agosto de 2022. Vejam bem, AGOSTO DE 2022!

É mais tempo de organizações escusas, nacionais ou transnacionais, operando com nossos dados e sem uma legislação que controle essa prática com propriedade devida.

Em resumo a justificação recai sobre dois pontos principais: Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que eu vou fazer uma parte separada só para ela, e baixa conformidade (ou capacidade de estar em conformidade) das organizações em relação à LGPD.

Como especialista em Sistemas de Informação eu vou dizer com propriedade: é uma merda. Já era uma merda antes e só agora, finalmente, as pessoas começaram a ver a dimensão da merda que é. Abriram a fossa abissal dos dados e o cheiro tá deixando as pessoas preocupadas.

Quer um exemplo? Se você simplesmente pega uma base de dados com dados pessoais ou sensíveis, não anonimizada, e envia por e-mail para um grupo, você está infringindo a LGPD em tantos níveis que eu nem consigo contar. Porque só desse pessoal acessar esse e-mail e clicar na base de dados para visualizar isso no computador de casa, ou no celular, ela já está armazenando esses dados na memória do navegador que ela está usando. Ela fez tanto tratamento de dados só nesse evento que para reverter a dor de cabeça vai ser um estresse que só. E esse é um exemplo simples, tem outros bem piores.

Em suma, a Gestão de Dados (sim, isso é uma área e um setor em organizações sérias) é PÉSSIMA. Isso, inclusive, nas maiores empresas brasileiras que operam no Brasil ou até fora dele.

Por que? Porque o foco nunca foi nos dados e, mais do que isso, nos dados pessoais ou sensíveis. O pessoal da tecnologia está acostumado com o famoso CRUD (Create, Read, Update e Delete), que significa Criar, Ler (ou buscar), Atualizar e Eliminar dados. Não culpo eles, eu também aprendi assim. E muita gente aprende essa filosofia que morreu na década de 1990 como se fosse A PANACEIA DOS DADOS. E assim… não é. Na própria LGPD tem vários e vários tipos de estados e operações de dados exemplificados (não taxados), não só esses quatro.

Sabe a plataforma online de notícias que você acessa para se manter informado? Tipo Globo, Veja, R7, Época, sei lá o quê. Você sabe se eles estão compartilhando, ou vendendo, seus dados de acesso e uso com outras partes? Porque isso o CRUD não aborda.

Então… sim, estamos bem atrasados. Só que isso NÃO SIGNIFICA que os outros países que implementaram suas legislações para proteção de dados não estivessem atrasados quando suas leis entraram em vigor. Comparar também é importante. Quando a GDPR entrou em ação na União Europeia o pessoal também estava que nem barata tonta sendo borrifado pelo inseticida GDPR. Não é exclusividade brasileira. Lá também tinha muita gente deixando para última hora, se você procurar os podcasts ou relatos sérios de profissionais que lidaram com isso eles deixam claro, na Europa o cenário não estava perfeito, perfumado e cheiroso quando a legislação deles entrou em vigor.

Aí vem a ANPD. Tem também muito material sobre a ANPD na Internet, confiando nela, desacreditando ela, falando bem ou falando mal, criticando ou elogiando. O problema é que ela existe no papel e na abstração e não na prática. Menos de um ano para lei entrar em vigor e a operacionalização da autoridade que regula ela ainda tá engatinhando… PARA ENTRAR EM AÇÃO.

Mesmo assim, não tem mistério. A lei tem as suas subjetividades e aberturas para interpretações específicas, só que ela não é tão “abstrata” assim. Eu, como especialista em Tecnologia, consigo associar bem as determinações da LGPD do nível Contextual (legal) até o nível Lógico (tecnologias específicas). Também não significa que todo mundo sabe, só que aí é a espiral evolucionária da sociedade e suas tecnologias agindo.

Depois de 30/10/2019

Com esse Projeto de Lei (PL), podem procurar no Google, vários e vários textos sobre a prorrogação da LGPD surgiram. O que não é um problema em si, porque é inerente à Liberdade de Expressão. Só que nisso eu também vejo uma irresponsabilidade discursiva.

Esse PL deu munição para que forças contrárias à LGPD conduzissem o discurso para um viés mais negativo, ou que conduza à contrariedade, da LGPD. Como assim? Você entrevista especialistas em TI sérios e eles vão, com obviedade e sensatez, dizer que o Brasil “não está preparado tecnologicamente para a LGPD”. Porque isso é um discurso comum, é trivial de perceber. Muito raro encontrar “estamos tão preparados, ou próximos, como a Europa estava com a GDPR” ou “temos desafios enormes pela frente, só que não imbatíveis”.

É claro que a padaria do seu Manoel não está preparada! Ela não está preparada para muita coisa, não só para requisitos complexos de proteção de dados.

Claro que megacorporações estarão mais preparadas, por alguns motivos, como: (i) elas são, por existência, internacionais e já estão em conformidade total ou parcial com a GDPR, de onde deriva a LGPD; (ii) tem mais condições financeiras de contratar pessoal especializado, mesmo que da Europa; (iii) tem mais condições financeiras para treinar seu pessoal de TI para operacionalizar a LGPD; (iv) tem mais condições financeiras de adquirir sistemas que auxiliem na implementação ou implementem a LGPD. Não tem mistério! Elas estão erradas? NÃO. Elas podem ser usadas como exemplo? Também não! Como uma pequena fábrica de software brasileira vai disputar capital de recurso humano especializado com a IBM? Não dá.

A partir desse momento precisamos ter parcimônia no discurso. Dificuldades existem, desafios mais ainda, necessidade de capacitação nem se fala… só que não deveria existir espírito de adiar ou pessimismo.

Nenhuma mudança sociotécnica ocorre do dia para noite. Na Europa a GDPR ainda está engatinhando em prática, os casos são muito recentes e os primeiros processos só vieram a surgir com propriedade depois de um ano de vigência da lei. Quero dizer, os primeiros bem fundamentados e construídos.

Esse PL pode servir de insumo para pensamentos enviesados e forças perigosas, como diria o próprio Jânio. A tendência é que esse PL não passe, só que só a sua existência e divulgação traz um viés, não é inofensivo ou ingênuo. Depois da aprovação da lei é a primeira tentativa de prejudicar a vigência da lei como um todo. Prejudicar parcialmente já aconteceu, como a depredação do Direito à Explicação e a possível fraude do anonimato do requerente de dados pela Lei de Acesso à Informação.

Por outro viés, dessa vez externalista, de onde surgiu a motivação para o Deputado fazer uma proposta dessa? E aí eu trago um questionamento que debatemos na aula de LGPD com a professora Caitlin Mulholland. Porque ninguém acorda do dia para noite tipo “que dia lindo, vou tentar postergar a LGPD no Brasil porque o cenário não tá ajudando”. Não, não, não. E eu duvido muito que os eleitores dele tenham feito abaixo-assinado, ou coisa parecida, para pedir a postergação da vigência da lei. Quero dizer, a maioria dos eleitores, não é? Porque até onde eu saiba, perceba, pesquise, entenda e observe a maioria da população brasileira ainda está BEM leiga em privacidade e proteção de dados. Então não foi a “turba em polvorosa” que pleiteou isso, a questão é: para quem interessa postergar a LGPD no Brasil?

Veja bem, você pode até duvidar da minha percepção da realidade, só que eu duvido que você (você mesmo) saiba onde está cada dado pessoal seu pela Internet. Ou se alguma violação virtual já furtou ou teve acesso aos seus dados. Eu mesmo não sei dos meus. Só para votar sua biometria já está em algum servidor, então já podemos partir daí. Eu nunca forneci minhas digitais para o sistema eleitoral, eles me disseram que pegaram com o DETRAN. Se eu sabia? Claro que não. Se eu permiti? Nem sei se posso negar. Mas é um dado pessoal sensível meu que nunca vai mudar pela minha vida inteira.

A universidade e os espaços de instrução técnica

Eu terminei minha graduação em Sistemas de Informação em 2016. E o que eu aprendi, em relação a dados, foi coisa da década de 1990.

Nesse caso podemos citar a ideia de Programação Segura, onde se instrui a programar ou construir aplicações computacionais com requisitos de Segurança. Como eu já disse lá em cima, ainda há muita confusão na Informática associando conceitos, então confunde-se Privacidade e Segurança.

A Academia, os ambientes do saber científico, em sua maioria não estão avançando tão rápido quanto as demandas dos demais setores, como o próprio Legislativo. Pior do que isso, para formar doutores são anos e anos, então quando os primeiros especialistas de facto, no Estado da Arte e Estado da Técnica, surgirem, o tema já avançou na prática e pode não ter mais relevância ou prestígio. Quero dizer, a desgraça já está feita.

Sobre a LGPD o que se tem visto são duas áreas prioritárias, Direito e Informática. E Direito está, na Academia e nos ambientes de instrução livre, dominando a cena. Quando a Informática aparece é para usar o famoso discurso dela: “olhe o meu sistema mágico que resolve todos os problemas da LGPD na sua organização, compre meu sistema e todos os seus problemas de proteção de dados se resolverão!”.

Lá na Universidade do Alto do Canavial Mágico do Oeste do Vale da Magarça Dourada tem curso tecnológico de Privacidade ou Proteção de Dados.

Só que isso não é quase nada se comparado com a quantidade necessária de profissionais e profissionalização necessária para o contexto aplicado EM TODO BRASIL. O que acontece? A área é conduzida essencialmente pelo Direito, enquanto a sua aplicação pragmática deveria ser conduzida pela Informática. Não usando sistemas de prateleira ou pré-prontos, sim sabendo lidar com desafios e problemas de cenários específicos. Como vai acontecer na LGPD. A padaria do seu Manoel não vai precisar do mesmo nível de profundidade de implementação técnica e legal comparado com um laboratório biomédico que lida com dados MUITO sensíveis, como genéticos ou de doenças socialmente estigmatizadas.

Eu, por outro lado, não posso só tacar pedras no sistema educacional que construiu meu intelecto e instrução. Como pesquisador do tema LGPD, por outro lado, preciso dizer que a parcela dominante da Academia está sim atrasada em debates tão atuais. Ou, pelo menos, não está correndo atrás de atualizar-se.

Durante nossos debates sobre reforma curricular nos idos de 2016 me lembro que rejeitaram a ideia de aumentar a carga horária obrigatória dedicada a disciplinas com foco em WEB e programação móvel. Como justificativa elas não eram “científicas” o bastante para assumir um grau tão alto de relevância, não eram áreas reconhecidamente acadêmicas da Informática, como Banco de Dados ou Engenharia de Software.

Tá aí, um monte de universitário de TI frustrado porque sente que seu curso parece estar totalmente distante ou atrasado da realidade.

Concluindo, sim, se depender da “Alta Academia” o tema de Privacidade e Proteção de Dados vai demorar para formar especialistas e profissionais dedicados nisso.

O que se espera é que a LGPD e sua descarada influência tecnológica tragam luz ao tema nos ambientes de instrução por aí afora. Ou que deixem de ignorar o requisito privacidade ou proteção de dados ao ensinar os interessados na construção de sistemas sérios e reais.

Como exposto no início, essa falta de especialização técnica no tema também é um ator relevante, porque advogados não constroem sistemas e não sabem as especificidades técnicas da TI. Claro que a culpa não é deles, a área de formação do conhecimento deles é outra.

ANPD

Quando ouço sobre a ANPD quase sempre é negativamente ou com ressalvas.

Aí trago maior problema até então debatido: as organizações estarem correndo para estar em conformidade com a LGPD e tudo mais e quando a ANPD for constituída efetivamente ela começar a tomar decisões ou definir regulações ou interpretações que modifiquem o que já estão colocando em prática. Então parece que alguns estão esperando a formação de facto da ANPD para começar as implementações mais radicais.

Sistemas computacionais são complexos e não são construídos na velocidade da luz por magia, então qualquer mudança pode criar uma cascata de problemas, transbordando tudo na TI.

Esse é um ponto de vários, e ele é muito válido. Nenhuma organização, pública ou privada, quer investir rios de dinheiro em objetos que podem ser simplesmente descartados em uma tacada só.

Um exemplo concreto? Na GDPR determinou-se que todas organizações com dados pessoais de usuários obtivessem novamente o consentimento de todos eles na entrada em vigor da legislação. Se não fizessem isso ou se eles negassem era para eliminar tudo.

Aí entra o pulo do gato, a LGPD não tem essa determinação. Então ela só incide sobre tratamento de dados APÓS a entrada em vigor. Isso dá margem para uma organização ficar com dados “estagnados”. A lei diz claramente “[…] toda operação realizada com dados pessoais […]”, não que já foi realizada. Aparentemente o tratamento de dados sobre dados já tratados não entra aí, é a ANPD que vai decidir a interpretação correta. E antecipo, se tiver que apagar todos os dados já armazenados as organizações com sistemas legados, antigos, vão entrar em parafuso…

Esse atraso na consolidação da ANPD é usado como argumento forte em vários materiais descredibilizando a LGPD, e o Governo Federal não parece se movimentar…

Conclusão

Se o prazo não apertar, estejamos prontos ou não, o tema proteção de dados vai continuar sendo postergado, seja no universo das ideias ou da prática. Porque as organizações vão priorizar outros aspectos que não este. Lembremos que essa pauta é apenas UMA das muitas que as organizações correm atrás no seu cotidiano.

Hoje o assunto da vez é corrupção e pautas anti-corrupção, então privacidade não vai se tornar a filha queridinha de uma hora para outra. Postergá-la, por outro lado, só vai continuar mantendo ela como a filha trancada no quarto que ninguém quer se preocupar. O problema? As práticas escusas e ilegais com dados vão continuar. E não apenas continuar, como reunir mais força para combater as partes que tentam enfraquecê-las ou anulá-las, “esfriando” sua relevância.

Tecnologicamente o negócio tá mal? Vai melhorar. Engolir discurso de que está mal e ponto final não é construtivo em si, porque é justamente por estar mal que precisa, e vai, melhorar. Não dar luz ao tema e não avançar a agenda do tópico, como alguns desses textos e documentos deixam a entender, só porque “tá ruim, não vai dar” não é bom argumento, é uma falácia recursiva.

Outra reflexão é quanto a incidência da lei sobre empresas de médio ou pequeno porte. Considerando uma atuação ética é claro que as primeiras organizações na mira serão as maiores possíveis, porque elas possuem capital para lidar com as multas e com os processos. Não a padaria do Manoel! E isso é bem óbvio. Um discurso doido dos partidários alienados da LGPD é ancorado na “multa de R$50.000.000,00”. Não, gente. Não é multa direto em um tiro limpo de CINQUENTA MILHÕES DE REAIS. Muito vídeo na Internet com clickbait perguntando “você quer pagar multa de cinquenta milhões de reais porque não tem proteção de dados?”. Não é assim que funciona.

Retornando lá ao início e ao objetivo desse texto, qualquer discurso que surgir complicando, prejudicando ou diminuindo a proposta de Privacidade ou Proteção de Dados no Brasil deve ser analisada e avaliada com qualidade. Ela é um ator agindo contra o tema também. Justamente por não estar bom é que precisa melhorar. O que não podemos é sustentar mais dois anos de “deixa para daqui a pouco” de proteção de dados, as eleições de 2020 estão logo ali e é aí que o bicho vai pegar.

Ao futuro encarregado, fica de olhos nos seus especialistas de TI. Se continuar “chamando o sobrinho” para construir seus sistemas a batata quente cai na sua mão, não na dele. E se quiser ser especialista mesmo no tema, TI não morde, pode aprender que tem muita gente para ensinar. Não caia no conto do “isso é impossível de fazer no nosso sistema”. Ou seu “especialista” em TI é ruim ou você está correndo risco de arcar com uma responsabilidade complicada.

Se a Informática não tá dando conta hoje em dia, nada melhor do que um tranco para fazer ela acordar e avançar, os maiores problemas relacionados a dados partiram dela.

Lembrem-se, nenhuma grande mudança na sociedade veio a partir de um pequeno empurrãozinho. Tem que incomodar alguém, mesmo que seja o Carlos Bezerra e seus colegas escondidos em Caixas Pretas.

Luiz Paulo Carvalho

Written by

Mestrando e pesquisador em Informática, ênfase em Sistemas de Informação. PPGI/UNIRIO. Ácido, intempestivo, um pouco agressivo só que com um bom fundamento.

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