Não tem nutella no meu armário.

Pra te levar pra sair naquela noite eu juntei quatro meses do meu salário, não, eu não tenho nutella no meu armário. Passo os finais de semana bebendo em ruas aleatórias, conversando com pessoas tão aleatórias quanto, fumando cigarros gentilmente cedidos por gente que pensa mais ou menos como eu. Não, eu não tenho nutella no meu armário. Acordo sempre com um enjoo estranho então abro a janela e vomito meus sentimentos pra algum pedaço qualquer de folha que fica amontoado na escrivaninha do meu quarto, depois coloco o sapato e ando cabisbaixo até o ponto pra pegar o ônibus lotado, onde começa a minha saga rumo ao inferno. Não, não tem nutella no meu armário. Fico o dia todo fingindo que estou contente pra agradar os clientes de uma loja de produtos que eu nunca usaria. Seis da tarde, minha carta de alforria diária é entregue, assino o ponto, vou pro ponto e pontualmente as sete e meia eu estou em casa. Pego o celular, tudo bem, pode vir pra cá as dez. começo a tremer da cabeça aos pés, jogo uma água no corpo e depois um perfume barato no rosto pra tentar me sentir um pouco melhor, você chega, entra, te ofereço uma cerveja.

-o que quer fazer hoje?

-tava pensando em ficar aqui na sua casa mesmo, assistir um filme, pode ser?

- pode sim

- ótimo, tem alguma coisa pra comer?

- tem sim, sabia que você ia vir. pode pegar, tem nutella no armário.

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