Essa não é a minha mão — Capítulo VI
Capítulo Final.

Psi……Ei!……..assa…….fi…d….ta……..go!
Psiu Ei!…..no….filho…….ta……cê…..comigo!
Psiu! Ei! Assassino filho da puta. Você vem comigo!
A voz gritou dentro do pensamento. Outra vez aquela nova voz; que não era minha. Estava com raiva. Despertei com a gosma cobrindo minha boca e querendo rolar garganta abaixo. As cerdas pelo lado de fora penetravam a pele, entrando pelo pescoço, olhos e rosto.
De olhos abertos enxerguei a escuridão dominar meu corpo. No meio dela dois pequenos olhos furiosos me olhavam. Escutei gritos, barulho do fogo, a correria, sirenes: A cacofonia do desespero.
Por cima da língua senti a boca fendida sibilando, babando algo nojento dentro da minha. O gosto putrefato deu ânsia e misturado a ele teve também o gosto de sangue. Sangue que vinha de dentro de mim, de fora, vinha de todos os lados.
É isso. Então é isso? É acho que é isso.
O carro capotou. A enfermeira morreu? Provavelmente sim. Coitada, de certa forma era inocente. E Robson? Não sei. Queria fugir. Precisava fugir. Mas mal conseguia me mover.
- Hmmmrrrrgh!!! — Gemi, arrastando o corpo. Arrastei com a cabeça, esmagando os estilhaços de vidro e o esforço me fez desmaiar outra vez.
…….
….
..
É isso? E o um do lado de um, outro do lado de outro?
Psiu! Ei! Vou roubar seu corpo e te matar!
Psi……Vo….rou….se……droga! Me larga!
Psiu….!!! Vou rou……Dro….me….ga!!!
Outra vez a nova voz saindo. Outra vez entrando. Outra vez, saindo e entrando. Algo pesado se debruçou sobre mim. Berrei, sentindo os ossos do corpo estralarem. A escuridão começou a ser arrancada diante dos meus olhos, mas ela tentava voltar. Enxerguei dois vultos brigando. Chorei, implorando. Implorando por qualquer coisa. Algo bem longe explodiu de novo, e o mundo voltou a gritar. Vi a cicatriz no braço direito, uma divisão, duas metades. Diante dos olhos o meteoro riscando o céu explodiu outra vez, estendendo a mão, agora negra, diante do rosto. Entrando, saindo. Chorei com a dor e desmaiei outra vez.
……..
…..
..
É isso? E o um do lado de um, outro do lado de outro?
Era uma promessa não? Estar sempre junto, se apoiando.
Coisa de adolescente, já havia passado.
Não, não. Não havia.
- Saaaaaaai!!!! — Robson gritou alto em meio a loucura me despertando outra vez.
Psiu……
- Ei!!!eieieiei!
A voz foi arrancada por completo do pensamento. Junto com ela foi embora a escuridão. Vi Robson de lado, o rosto sangrando, e com esforço descomunal puxou a gosma negra para longe. Senti o corpo dela saindo pela boca e cospi sangue preto. Também estava ferida. Ela expandiu o corpo, mas as cerdas já tinham dificuldade para penetrar a pele. Robson enterrou os dedos nos olhos gosmentos com fúria e o sangue preto jorrou para os lados, respingando no rosto. Também colocou os dedos na boquinha e a rasgou por dentro. A coisa gritou de dor. Robson gritou de fúria.
- Riririririri! Tá vendo? Eu tô rindo, gosma de merda — Robson falou feito psicopata, esmagando-a sem piedade.
A transformou numa maçaroca escura que escorreu entre os dedos. A coisa sibilou ferida um último lamúrio e morreu. Robson continuou apertando, torcendo, o que restou entre os dedos e espalhando o sangue negro por todos os lados.
Pouco tempo depois, igual como fora com a coisa dentro da minha mão esquerda, ela desapareceu. Senti leve ardor no rosto, na boca e na garganta quando o sangue negro borbulhou, fervendo de forma estranhamente cálida e desafiando as leis da lógica humana. Robson olhou estupefato para as mãos ao ver o sangue pétreo evaporar como se não houvesse existido.
Restou apenas o barulho do fogo, gritos, as sirenes. Então passos. Passos e gritos. Gritos e passos.
“Acabou…..” Pensei, sentindo o corpo esmorecer.
- Vocês estão bem? Tem dois aqui dentro do carro! Traz a maca! Traz a maca!
- Parabéns — Falei querendo sorrir — Você acaba de se tornar um assassino intergalático.
Robson olhou para mim e começou a chorar.
Depois disso não lembro de mais nada com exatidão. Uma mão tocou no meu ombro, me puxou para fora. O movimento me fez desmaiar. Quando percebi estava na maca. Robson corria do meu lado. Tudo ficou preto de novo. Será que desmaiei? Com certeza. Acordei ao entrar na ambulância. O solavanco me despertou, Robson não estava ali. Alguém gritava comigo, ele disse que eu era forte e tudo ficaria bem. Quem foi? Não sei. Gostaria de agradecer depois.. Então a sirene ligou. Outro solavanco e gosto de sangue. Colocaram a máscara de oxigênio. Tentei tirar, vi a mão esquerda sangrando, as hastes tortas. Senti medo e tudo ficou preto outra vez.
Acordei no leito de um hospital com uma terrível sensação de déjà vu.
A sensação foi esquisita. Foi como tomar um remédio ruim, que você já tomou, mas alguém mudou o gosto só que o remédio continua ruim, apenas com gosto diferente. Gemi de dor, querendo me mover, mas não consegui. Robson estava do meu lado, cochilando e acordou assustado com os movimentos.
- Tomás? Você acordou? — Disse preocupado, sem conseguir esconder a ansiedade na voz.
- Estou paralítico? Não consigo me mover…..só sentir dor.
- Você está sentindo dor não é? Então está tudo bem.
- Ah….é mesmo…..então está tudo bem. É só uma…….dorzinha — O ar custava a entrar nos pulmões e a voz saiu arrastada, num discurso lento de alguém ferido — E a mão esquerda?
- Continua horrível.
- Que ótimo. Pelo menos…….ainda tenho a mão……e você…….Robson?
- Aparentemente meu santo é forte. Tive alguns arranhões, uns pontos na cara e uma concussão leve.
- Você sempre foi o filho favorito — Comentei irônico.
Robson bufou surpreso e começou a gargalhar. A risada foi exagerada, meio cômica. No meio do estardalhaço ele colocou toda a preocupação que o consumia para fora. Depois chorou, escondendo os soluços entre as risadas.
- Estou feliz……estou feliz — Falou entre os soluços,ainda tentando disfarçar as lágrimas — Porra…..que loucura, mas estou feliz que a gente tá vivo.
- E a mamãe? — Pergunto para Robson — ……e a Ana?
- Estão bem, meio loucas com tudo que aconteceu. A mamãe ainda não quer acreditar direito…..ninguém quer na verdade.
- Foi ela quem matou sabia?
- Quem?
- A Ana. Ela que matou……- Tento respirar fundo e sinto uma fisgada na costela. O período de internação no hospital não seria fácil. Robson ficou me olhando, aguardando eu continuar, com o rosto preocupado — …A coisa…..na minha mão esquerda.
- Ela sempre foi durona na queda — Robson comenta de forma carinhosa.
- Você também é, por isso estão juntos.
“Um do lado de um, outro do lado de outro. Agora vale para você também”.
O celular de Robson toca, era Ana ligando. Ele atende e conversa com ela animado; Finalmente o pesadelo acabou. Suspiro em silêncio, prestando atenção na conversa. Nos meus pensamentos nada. Nenhuma voz, apenas tranquilidade. Mesmo com o corpo alquebrado me sentia inteiro. Sem divisão, sem duas metades. Apenas um. E outros ao meu lado.
Um do lado de um, outro do lado de outro.
- Obrigado por não me deixar desistir pai — Comento sozinho, fechando os olhos……..
……….e finalmente descanso tranquilo.
***Epílogo***
Demorou alguns meses porém os governos do mundo aceitaram não se tratar de loucura, e sim invasão. Um contingenciamento foi elaborado e uma batalha iniciada. A conspiração tornou-se triste realidade e a população mundial aceitou que algo extraterrestre invadiu a terra no dia que o estranho meteoro cruzou o céu noturno. A onda de loucura tornou-se guerra declarada contra algo fora da compreensão humana.
Quem era real? Quem era controlado? Eles eram inocentes? Ou mereciam ser punidos pelos crimes que foram obrigados a cometer? Cidades inteiras entrarem em polvorosa e um medo generalizado tomou conta da humanidade. No meio do caos, muita gente inocente perdeu a vida.
Os comentários sarcásticos, o discurso bizarro e esquisito, a proclamação de vontades criminosas, pulos, risadas estranhas, movimentos caricatos e os dedos da mão que moviam-se para todos os lados de forma exagerada, tornaram fácil de identificar quem ainda era humano por completo.
Sem divisão, sem duas metades.
Após um ano a situação se acalmou. A humanidade venceu, eles disseram. As pessoas se perguntam se acabou de verdade. Muitos acreditam que sim. Outros, continuam com medo, procurando remanescentes que possam ter aprendido a camuflar seus trejeitos e a se esconder entre nós.
Será que acabou? Eu não sei. Ninguém sabe. Só resta ir em frente. Procurando, lutando se precisar. O trauma, no entanto, mudou muita gente e por isso quando você menos espera se depara com uma pichação em algum lugar que indaga:
Psiu! Ei! Quero ver essa mão ai!
Ela é sua?
