“E a bandeira coberta de estrelas em triunfo moverá…”

Luiz Victor Nunes
Sep 8, 2018 · 5 min read

“…Sobre a terra dos livres e o lar dos bravos”

O hino de uma nação deveria ser o símbolo reverberante da identidade de um povo, a voz que bradaria o âmago da pátria e até o coro que velaria o passado, afirmaria o presente e iluminaria o futuro. Porém, não se vê muito além de uma fraude audaciosamente bem escrita pela história, sistematizada pela beleza da métrica poética e lapidada de forma cirúrgica com a música — uma retórica pujante que nos faz levantar e cantar com mão ao peito, num gesto orgulho e satisfação. A ode estadunidense, cuja um verso vislumbra-se logo acima, é o exemplo mais incontestável disso.

Sexta-feira de pré-temporada do futebol americano, costa oeste, o vento da Califórnia soprava hostil como de costume sobre o alto do Candlestick Park, estádio famoso pelas influencias climáticas e por já assegurar milhares de vidas em um terremoto que um dia passou por San Francisco. Naquele dia, embora tudo parecesse normal e os sismômetros não acusassem nenhuma alteração, um novo abalo ocorreria. Bandeiras empunhadas por soldados, tremulando frente ao sopro; torcida e jogadores em silencio; tambores começam a ecoar nas arquibancadas, vindos das caixas de som; a voz em uníssono inicia o hino americano. Em contraste com a massa, toda de pé, uma figura encontra-se sentada sobre um cooler de isotônico, junto de mais dois companheiros de equipe, num silencio mais sonoro do que qualquer grito que algum dia a torcida pudesse ter dado ali naquele estádio: “Não vou ficar de pé e mostrar orgulho a bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor”, Colin Kaepernick não vinha executando muito bem os fundamentos que um quarterback deve manter para continuar dominante na posição, mas naquele momento suas habilidades esportivas não importavam mais. Nem nunca importariam dali em diante.

A América se encontrava dividida entre os patriotas irredutíveis que achavam aquilo um absurdo contra o símbolo nacional — o megalomaníaco Donald Trump, candidato republicano na época, liderava o coro de duras críticas ao jogador, em seu Twitter — e aqueles que sabiam a importância da mensagem que ele estava transmitindo. Os protestos continuaram durante o ano, agora Colin ajoelhava durante o hino e alguns outros jogadores aderiam a manifestação, que seguiu até o fim daquela temporada de 2016, a última de Kaepernick nos campos. O jogador foi cortado pelo San Francisco 49rs e até hoje espera um contrato. A liga inteira se recusa a assinar com ele alegando que suas estatísticas não eram tão relevantes — embora tenha levado sua equipe ao Superbowl em 2012 –. Ao mesmo tempo, jogadores muito inferiores que ele vem ganhando vagas em diversas equipes, não justificando o atleta estar fora de jogo. O que ocorre na verdade é algo chamado ‘blackballing’, quando uma pessoa é excluída de um meio por suas manifestações raciais. Conluio, boicote, ostracismo: esses eram os verbetes indicados para definir a situação, não simplesmente um ‘mal rendimento’.

O ano de 2017 seguia sem ele no gramado, mas a exteriorização do sentimento continuava e agora dezenas de jogadores ajoelhavam-se no hino, levando a episódios em que equipes inteiras encontravam-se abaixadas na hora da adoração nacional. O ponto mais expressivo foi quando Jerry Jones, branco, dono do time mais rico de todos os esportes, o Dallas Cowboys, estava de braços entrelaçados e de joelhos junto com toda sua equipe — a chamada ‘The America’s Team’, reverenciando uma causa racial. O discurso ainda vive, a temporada chegou ao fim, mas ainda é patente a mensagem que Colin emanou. Já em 2018 e ainda longe dos gramados, o atleta é o personagem principal da campanha publicitária — arriscadíssima do ponto de vista mercadológico — dos trinta anos do slogan “Just do it” da Nike, onde seu rosto é estampado atrás dos dizeres “Acredite em algo, mesmo que isso signifique sacrificar tudo”. O discurso ainda vive, a temporada chegou ao fim e a de 2018 já se iniciou, mas ainda é patente a mensagem que Colin emanou. Colocar em jogo sua carreira pelas suas convicções e lutas sociais é o que difere um atleta de um herói.

É triste ver tais intérpretes da representatividade ser engolidos pela hegemonia branca e extremamente racista, mas ao mesmo tempo é satisfatório saber que eles existem entre nós. Muhammad Ali ao recusar o alistamento no exercito para ser enviado até barbárie da guerra do Vietnã, perdendo o direito de lutar e o título mundial: “Por que me pedem para vestir uma farda, viajar 10 mil quilômetros e matar vietcongues, se eles nada fizeram de mal para mim?”; Tommie Smith e John Carlos, com punhos cerrados ao alto vestindo luvas pretas, símbolo dos Panteras Negras, no pódio dos 200 metros livres nas Olimpíadas do México — e sendo boicotados do esporte por todo o percurso de vossas vidas; As meninas da WNBA com camisas em apoio ao Black Lives Matter, multadas em virtude disso. Atletas assim que fazem do esporte não ser somente um canal por onde o coração pulsa pelo ato de torcer, mas um emissor da voz que clama pelas necessidades e que protesta contra a atrocidade racial da era moderna. Colin Kaepernick é o suspiro de resistência nessa redoma de hipocrisia e cerceamento de liberdade que é o mundo hoje. Se Martin Luther King, líder da busca pela igualdade no passado, estivesse vivo, ajoelharia junto dele.

Encabeçar um artigo jornalístico usando uma mentira como título é como se recusar a levantar para cantar o hino nacional: uma afronta, uma transgressão. Felizmente a atmosfera virtual me concede uma aura de perspicácia ao fazê-lo: aqui as afrontas são sementes de discórdia, do conflito e do atrito, e onde justamente existe uma pequena fresta para nascer a luz através da discussão, — talvez isso seja uma quimera, fruto do meu otimismo na humanidade, mas vale. Me nego em acreditar que a nossa vontade de ser pessoas melhores supere a vaidade de vencer uma discussão apenas por si só — lamentavelmente no mundo esportivo as águas não fluem nessa mesma direção. A Colin e todos que usam tuas vozes e atitudes pelo bem de uma raça tão destruída através de toda a história, meu desejo é que protestos como esse sejam ouvidos, respeitados e nunca retaliados. Digo isso em protesto, através essas palavras que redigo debruçado em minha mesa, mas ajoelhado em meu coração, talvez com a esperança de que a bandeira estrelada um dia esteja realmente fincada sobre uma terra de livres e um lar de bravos.

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