Jay Z, Mano Brown e a transformação da representação feminina no hip hop

Luiz Wagner
Jan 19, 2018 · 3 min read
“I apologize to all the women whom I toyed with your emotions
’Cause I was emotionless

Por muito tempo o rap, apesar de sua importante contribuição em outras causas sociais, exibia uma enorme misoginia dos seus representantes e ouvintes de forma muito direta. Outros gêneros músicas já tiveram, ou ainda tem, essa característica, mas, felizmente, ao menos no rap, isso vem mudando.

Não é preciso ser fã do gênero para conhecer alguns dos nomes mais proeminentes, entre eles Mano Brown, membro dos Racionais MC’s, e Jay-Z, um dos maiores vencedores da História do Grammy Awards. Os dois artistas possuem em comum uma longa carreira, e ambos se mantêm relevante na cultura hip-hop desde o início de suas trajetórias na música até hoje. Além disso, a maneira como as mulheres aparecem nas letras de cada um evoluiu de forma notável desde os anos 90.

No ano de 1999, Jay-Z lançaria “Big Pimpin”, em colaboração com o grupo UGK, que se tornou um grande exemplo de objetificação da mulher na música. Na faixa, o artista se orgulhava de um estilo de vida em que, após o sexo, abandonava as mulheres por não precisar delas. Pouco tempo depois, em 2002, os Racionais MC’s lançavam em solo brasileiro “Estilo Cachorro”, com temática similar. Além de reproduzir a tese de que as mulheres seriam, em geral, apenas serem ingratos movidos por dinheiro. A música contém o seguinte refrão:

“Mulher e dinheiro, dinheiro e mulher,
Quanto mais você tem muito mais você quer”

Com o tempo, a música deixaria de ser tocada nos shows do grupo, e em 2016 Mano Brown lançou seu álbum solo “Boogie Naipe”, com influências de funk e soul que possui um eu-lírico muito mais vulnerável, que sofre de amor e retrata mulheres empoderadas, como na faixa “Mulher elétrica”. Já em 2017, foi lançado para todo o mundo o álbum 4:44 de Jay-Z. Focado na família, o artista defende o direito de sua mãe lésbica de viver o amor livremente, elogia o talento da esposa Beyoncé e pede desculpas pelas traições e comportamento nocivo não só no seu casamento, mas em seus relacionamentos anteriores, como no trecho:

“Eu peço perdão a todas as mulheres com quem eu brinquei com as emoções,
porque eu não tinha sentimentos”

Ambos os artistas já haviam deixado de inferiorizar mulheres em suas letras com o passar dos anos, mas seus recentes álbuns e atitudes demonstram uma postura mais ativa. O estadunidense fala abertamente que se arrepende de letras antigas com esse conteúdo, além de refletir em suas letras sobre a masculinidade tóxica que ensina homens a desligarem suas emoções. O brasileiro faz parecido, em entrevista à Trip TV afirmou que o machismo que ele acredita ainda ter é resultado de uma inserção em uma cultura machista:

A representatividade feminina no rap vem crescendo, tanto no brasileiro quanto no norte-americano, duas das cinco músicas indicadas a música de rap do ano no grammy deste ano são de artistas femininas solo¹, uma delas alcançou o topo da parada de vendas americanas, marca que uma rapper não alcançava desde 1998². Porém, o agora gênero mais ouvido do mundo, ainda é dominado por homens, e é necessário que mais deles tomem o exemplo de Jay-Z e Mano Brown, para o bem do rap, da cultura hip hop e de suas próprias carreiras.

1 - https://www.billboard.com/articles/news/grammys/8047027/grammys-2018-complete-nominees-list

2 — https://www.billboard.com/articles/columns/chart-beat/7973958/cardi-b-no-1-hot-100-post-malone-portugal-the-man

Luiz Wagner

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Estudante de Direito paulista que escreve umas coisas por aqui aleatoriamente até montar o próprio blog. https://www.instagram.com/luizwagnercomw