O papel da espera

Luiz Mourão
Aug 23, 2017 · 3 min read

A iluminação branca vinda dos postes complementa as remanescentes faixas de luz solar que ainda percorrem o crepúsculo curitibano. A mescla entre o brilho artificial e o natural percorre a longa faixa formada pela canaleta de ônibus, que corta uma ainda movimentada avenida. O cenário dinâmico é ilustrado pelo vai e vem apressado. Seja por parte dos que buscam uma última compra no comércio local, seja mais ainda, pelos que já cumpriram sua carga horária diária e rumam suas casas.

Em meio ao rush da hora, sentado sob a marquise, um cidadão aguarda. O seu carrinho, estacionado na calçada junto ao canteiro de flores recém-construído, é de madeira. Bem diferente dos motorizados que ainda ocupam a maioria das vagas da rua. O homem, de olhar distante e paciente, chama-se Nivaldo Silva e está por cumprir a sua última obrigação de um dia atarefado. Ele começa cedo, por volta das 7h não muito longe dali, no Colégio Estadual João Turim, onde presta serviços gerais e de faxina. À tarde, também ocupa-se de limpeza, recolhe papelão das lojas da região do Água Verde, bairro nobre da cidade. “Há dois anos que eu faço coleta, antes eu ficava só na escola. Mas como era só meio e período e quatro filhos pra sustentar, tive que me virar”, relatou resignado.

Nem Edivaldo, nem Genivaldo, nem Ariana, nem Ariele. Os seus quatro filhos estudam e vislumbram um futuro universitário. É sua sobrinha que, junto ao filho mais velho, Iago, acompanha Nivaldo. “Esse vai fazer 3 anos, mês que vem, o outro tem 4 meses’’, conta Gabriela, que não pensa em voltar a estudar porque falta vaga na creche. Sua tia, Marcia, mulher de Nivaldo, só aceita cuidar do mais novo. “Esse daqui é terrível”, admite com um riso encabulado. Ela conta que não vê o pai de Iago há dois anos. “Sumiu e eu nunca mais vi, se eu encontrasse ele, também nem olhava na cara”. Sobre o fujão, sem rancor, mas um pouco inconformada, contou que “ele até trabalhava, vinha junto catar papel, mas agora também, estamos bem assim”, concluiu.

Já passa das 18h30 e falta meia hora para a unidade das Lojas Americanas liberar o papelão que falta. A baixa temperatura da calçada de pedras portuguesas é amenizada por um cobertor de zebra, que funde-se ao passeio devido à similaridade do desenho e cor. Sentado sobre o forro improvisado, Nivaldo não esconde as esperanças ao falar o que espera do futuro dos filhos. “Médicos, ou algo assim, né?” Para ele, ao contrário, não prevê muitas mudanças, com 44 anos a vida está boa assim como está. Ele diz não importar-se muito com o que fará daqui pra frente. “Pode ser catando papel mesmo, eu gosto assim. O importante é estar com saúde’’, garante. Vive assim, e de acordo com ele, “muito feliz”, desde que recorda-se. Junto aos seus 7 irmãos, diz ter sido “muito bem criado pelo pai”, já que sua mãe morreu há muito tempo.

O catador de papel contou, orgulhoso, sobre seu irmão Celso, que aproveitou sua descendência nipônica e migrou para a terra do sol nascente. “A minha mãe era japonesa, o nome dela era Tyoko Watannabe, aí meu irmão foi trabalhar lá na Bosch.” As origens, não tem vontade de resgatar. Nem sequer interessou-se pelo significado da palavra arigatô, que disse já ter ouvido vez ou outra. Os 3 quilômetros que o separam do conforto do seu lar, na favela do Parolin, parecem mais dignos de sua atenção. Falou com muito mais animação da proximidade entre seu trabalho e sua casa do que do momento em que quase seguiu os passos do seu irmão. “Eu quase fui também, mas aí desisti”, afirmou com indiferença. No Japão, certamente seria, como Celso, um dos poucos Silvas. No Brasil é mais um deles, que carrega consigo o orgulho da simplicidade, uma família que não podia ter dado mais certo e é claro, um carrinho, cheio de papelão.

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