Os perigos do novo mecenato corporativo do século XXI
A música como moeda ética e o problema do financiamento de pesquisas de linguagem

Atualmente, a qualquer um que procure se informar sobre música e artes em geral, fica clara a existência de uma tendência em relação ao financiamento de boa parte da produção cultural relevante do nosso tempo. Prática antiga, o mecenato das artes aparece hoje travestido como tendência nobilíssima de corporações e empresas (notadamente com capital de sobra para isso) possuírem departamentos específicos voltados a projetos de financiamento de cultura e artes, sobretudo através de editais e processos seletivos.
O fato é: a maioria das obras relevantes do passado recente da música brasileira dita mais “culta”, ou pelo menos que se apresenta como tal — como alternativa ao mainstream de produtos de consumo de massa, com pretendida artisticidade — , foi financiada com dinheiro de origem corporativa (o que, a mim, não parece o melhor dos cenários). Por quê?
Ora, a prática do mecenato parece ser realmente tão antiga quanto a arte em si: desde os impérios da antiguidade que bancavam a arte com função religiosa, até — no caso mais famoso, paradigmático — o mecenato renascentista, dos Médici, de Sforza, entre outros. Temos a impressão que, não fossem esses homens solidários com o próprio dinheiro, não teríamos sido coletivamente abençoados, por séculos, com obras conhecidas como possuidoras de altíssima qualidade artística. Hoje, sabemos que o altruísmo social-estético não estava em primeiro lugar na lista de prioridades desses patrocinadores do séc. XVI.
Mecenato Corporativo e a Moeda Ética
Seja na mão da elite florentina, da burguesia européia dos anos 20 ou do estado moderno, o papel de patrocinador da cultura nunca havia sido assumido por corporações com fins diversos. Que hoje os maiores patrocinadores da música alternativa brasileira (aquela de pretendida artisticidade) sejam um fabricante de bebida energética, uma marca de cosméticos nacional e uma multinacional de calçados é fato novo.
As perguntas que ficam no ar: qual seria o interesse dessas empresas em financiar arte? o que a música pode oferecer a elas em troca? ou se espera dessas corporações uma ajuda desinteressada aos artistas, com uma benevolência quase franciscana?
Me parece ingênuo acreditar nessa última proposição. Não que empresas sejam incapazes de realizar atos benéficos sem segundas intenções, mas, no caso do financiamento de arte, a prática anda de mãos dadas com uma tendência mercadológica tão presente que fica difícil ignorar as homologias.
A tendência à qual me refiro é essa espécie de novo marketing ético que as empresas atualmente fazem tanta questão de explicitar ao consumidor, como se a perfeição moral fosse o objetivo último de sua existência, antecedente até ao próprio produto, como a razão sua de existir no mundo. Não basta produzir mercadoria e vender, é preciso ser correto. Puro. Se a concorrência cria um programa de reciclagem de embalagens, é preciso criar um programa de reciclagem de embalagens e combate à fome. O efeito prático desses programas, enquanto tais, ninguém quer saber, ou pelo menos, não nos mostram. Nessa lógica, o que importa é o advertising, é a imagem de pureza, de correção ética-moral. Ó, tempos cínicos esses que vivemos!
De mãos dadas com essa tendência anda a possibilidade de financiar arte como moeda mercadológica. Arte, pelo menos, é mais mensurável em seus efeitos práticos — é complicado mostrar o resultado de um projeto de reciclagem ou combate ao câncer (na verdade difícil não é, mas os resultados provavelmente não serão tão alegres ou funcionais do ponto de vista mercadológico), mas arte é simples. Até se terceiriza o serviço: daremos dinheiro ao artista, ele cria a obra e nós divulgamos, frisamos o quanto somos importantes para a música nacional fora do mainstream, afinal sem nós o mundo perderia essa obra. E os logotipos dessas empresas nos lançamentos nos fazem questão de lembrar disso.
O ponto onde quero chegar, com essa reflexão, é: em função dessa tendência de marketing ético, será que o financiamento da arte pelas empresas não estaria servindo a um propósito diferente do que deveria ser inicialmente, imbuído que estaria de características conservadoras/reformistas? Explico: visto que o que interessa a essas empresas (o fim último do projeto de incentivo) é a imagem de correção ética que o projeto é capaz de relacionar a elas, será que o caráter artístico das obras a serem financiadas, publicadas e anunciadas não ficaria refém do julgamento corporativo dessas potenciais qualidades valorizantes-éticas nas obras apreciadas? Será que é papel de uma empresa fazer julgamentos de méritos estético-artísticos de obras cedidas à apreciação com base em critérios diversos, como a quantidade de capital-ético captável pela obra? Qual a probabilidade de uma empresa financiar obras radicalmente revolucionárias, em linguagem ou temática, característica principal desejada pelos apologistas da vanguarda?
Me parece difícil uma empresa querer vincular seu nome a qualquer manifestação artística que leve ao extremo pesquisas de ordem estruturante. No entanto, notadamente, é esse tipo de esforço que gira a “roda da história” em sentido progressivo, ao menos no que diz respeito à arte. Sem a vanguarda, viveríamos num oceano de estagnação. É esse tipo de movimento que me parece de certa forma ameaçado em função do mecenato corporativo como ele se encontra hoje.
Não acho que seja função do Estado também patrocinar esse tipo de obra radical: por questões que não cabem aqui, é fato sabido entre os estudiosos de estética que a maioria das linguagens desenvolvidas com base em pesquisa de novos limites, encontra grande resistência (pra não dizer repulsa) na maior parte da sociedade em suas primeiras manifestações. Logo, o Estado usando dinheiro público para financiar pesquisas estéticas altamente impopulares me parece contraintuitivo. A função do Estado, como mantenedor e guardião da sua própria história e de seu povo, até como modo de perpetuar o mito coletivo nacionalizante, essencial para a ordem e funcionamento de um estado-nação, seria de garantir a perenidade de formas de expressão culturais porventura encontradas em defasagem ou em alarmante extinção (perigosamente perto de cair no abismo do esquecimento cultural). Dessa forma inclusive poderíamos nos livrar do peso teórico negativo do trabalho de críticos passadistas como José Ramos Tinhorão, por exemplo. Não sendo da alçada do Estado o patrocínio de pesquisas estéticas radicais, celeiro da expressão vanguardista, fica no ar a questão: a quem cabe financiar esse movimento tão fundamental para a saúde cultural de um povo?
Para essa pergunta não há resposta fácil. Me parece que, idealmente, seja responsabilidade do próprio artista arcar com as despesas de seu fazer artístico. No máximo, conseguir financiamento de fontes próximas, conhecidas o suficiente para que não se pese sobre elas ar institucional, mas antes, relacional. Sei como essas afirmações podem soar mal, especialmente para o artista contemporâneo. Mas é preciso que se saia da torre de marfim criada para o artista de hoje, sob medida, pela moeda ética corporativa, para se entender o que quero dizer aqui, o que nos leva ao segundo ponto do presente ensaio.
Indústria fonográfica e a pesquisa estética
Antes da situação em que nos encontramos, o cenário era outro: dominado pelas gravadoras, a indústria fonográfica era uma verdadeira máquina de produção musical. Correndo o risco de soar apologista a uma prática cheia de problemas, mas não querendo sê-lo, cabe aqui fazer um elogio à lógica de produção da indústria fonográfica: com o objetivo de estabelecer uma necessidade permanente de consumo por parte das pessoas, por mais vil que tal premissa possa parecer, as gravadoras e artistas do século XX se uniram com o propósito de criar um eterno ciclo de novidades estéticas, traduzidos como gêneros, estilos, subgêneros, etc. O que se viu foi um impulsionamento da pesquisa estético-musical, a pretexto de se criar um novo produto para ser consumido no lugar do anterior (que o consumidor já possui), a níveis nunca antes vistos. A indústria fonográfica, com olhos focados na criação da novidade para o mercado, nem reparou que estava financiando a maior pesquisa de linguagem estético-musical da história.
É claro que sei de todos os problemas resultantes desse modo de produção industrial citado acima, notadamente em prejuízo aos próprios artistas, reféns de um trabalho exaustivo cuja recompensa viria na forma de ínfimas porcentagens. Mas não há como negar que o corpo musical produzido por essa lógica mercantil é assustadoramente rico do ponto de vista estético e vasto do ponto de vista artístico. Sobre os reflexos político-ideológicos dessa indústria, deixemos aos cuidados da Escola de Frankfurt produzir tais conteúdos — a nós, interessa mais a questão estética.
É sabido que indústria fonográfica hoje, porém, já não goza mais de poderes tão absolutos sobre os rumos e a produção musical em geral. É verdade também que, se perderam boa parte destes atributos, continuam ganhando a maior fatia do bolo no negócio da música. Porém, tem-se menos espaço para errar. A indústria musical já não tem tanto poderio de fogo (dinheiro na reserva, capital de giro) para poder financiar pesquisas estéticas, vistas como investimento de risco. Melhor, dado o cenário atual, apostar naquilo que já é certo: “deixemos os artistas criarem suas pesquisas por conta própria, àqueles que despontarem com mais potencial em relação aos outros, que demonstrarem ter um interesse público prematuro, a esses daremos uma prova de nosso dinheiro para que possam comprovar sua utilidade”. A internet, hoje, funciona como arena onde se dá essa competição involuntária a que os artistas se submetem sem saber, sob o olhar atento das gravadoras e dos mass media. Assim, a indústria fonográfica do século XX deixou de lado o financiamento das pesquisas estéticas para deixar somente a virulência de seu caráter à mostra.
O cenário atual — e uma saída possível
Se, de um lado temos uma espécie de reality-show de talentos espontâneo e contínuo operando por parte da indústria fonográfica atual, com toda problemática resultante, por outro temos a possibilidade de um financiamento corporativo, condicionado a uma avaliação do potencial ético-moral que a empresa em questão possa retirar da obra.
Para mim, portanto, a única saída para o artista que se identifique com as ideias expostas aqui, e que se preocupa com seu trabalho de pesquisa estética, é a de financiar a própria obra. Esta me parece a única maneira de garantir a fluidez do processo criativo, sem se deixar atrapalhar por um desejo (característico de uma relação de subserviência) de se garantir que a obra tenha o que dela se procura — garantindo assim a integridade da pesquisa estética e a sua inserção de modo mais profundo na narrativa pessoal do artista. É na recusa em se colocar como asset de uma empresa que busca um capital ético que nunca terá, na recusa de fazer parte de um jogo sádico involuntário criado pela lógica selvagem da indústria fonográfica, que o artista pode colocar a música em seu patamar mais digno — o de arte em-si, não coisificável por qualquer práxis parasitária, defendida por seu artífice de todos que tentam captá-la para usá-la em seu favor, e, assim, colocando-a em seu estado mais nobre nas mãos de quem ela realmente pertence: o público.