Respeitável Público!
Voltei para o teatro. Não sei exatamente qual a loucura que me dá, tipo exibicionismo ou ausência completa de senso do ridículo, mas não consegui resistir ao convite do Maurício Meneses e voltamos a fazer, durante o mês de julho, o nosso stand-up “Plantão de Notícias. Toda sexta, sábado e domingo estamos na Casa de Cultura Laura Alvim contando histórias do jornalismo de da publicidade para uma plateia de amigos (que pagam entrada — vejam só) e recebendo, além da graninha da bilheteria, o riso e o aplauso que vem a ser, acredite, a maior recompensa de um cara que se decide subir num palco. Já disse que é doença, mas entre as doenças que prejudicam pessoas como a ambição desmedida, a fome de poder, as diversas taras e o Sertanejo Universitário, até que é a de menos potencial agressivo. Mesmo porque as pessoas só vão ao teatro quando querem e nós dois somos suficientemente desconhecidos para ninguém comprar ingressos sem saber o que as esperam. A história deste espetáculo, que muda constantemente, pois a gente não se arrisca a ouvir alguém dizer que conhece o texto, é muito engraçada. Foi num Festival de Gramado, há uns 10 anos, que a governadora do Rio Grande do Sul pediu para antecipar a entrega dos prêmios para os vencedores, já que teve uma agenda de urgência para atender. Como antes da cerimônia estavam marcadas duas palestras, minha e do Maurício, de uma hora cada, a direção do festival pediu para que reduzíssemos nossas falas para meia hora, dando tempo para antecipar o início da solenidade final e mais importante. Maurício e eu então resolvemos fazer os dois uma única palestra de uma hora. E improvisamos: eu contaria micos do jornalismo e ele por sua vez, criticaria a propaganda. Não só mostrando anúncios que ele considerava bobos e sem sentido como a (na época) suposta vida faustosa dos publicitários. Na verdade seria uma briga, com direito a insultos pessoais e críticas pesadas, como uma reprodução ao vivo da eterna e desnecessária disputa entre os jornalistas e os publicitários. Tínhamos poucas horas para entrarmos em cena e traçamos num quarto do hotel um esqueleto de roteiro. E calculamos que a briga poderia render uma hora. Pois bem, assumimos o palco e iniciamos o quebra-pau. Levamos a coisa tão a sério que esquecemos completamente da hora, trocando as mais deslavadas acusações contra um e outro. Não tenho a menor ideia de quanto tempo levou a coisa, o que eu sei é que a governadora entrou quietinha na plateia, esperando aquela dupla de malucos pararem de se agredir, para que ela pudesse assumir a parte que — na opinião de todos — era a mais importante da noite. O pessoal da coordenação, achando que só jato dágua nos tiraria do palco (nesse ponto parecíamos políticos do congresso — só faltou a quentinha) foi pedir desculpa à autoridade e passou a nos sinalizar com gestos desesperados que era hora de acabar. Os imbecis acharam que os braços erguidos e as mãos balançando eram a “ola” tão conhecida nos estádios do Sul, que cada vez mais xingavam um ao outro e contavam casos escabrosos a respeito das respectivas profissões. A governadora estava encantada ou, pelo menos disse isso, e mandou que não nos interrompessem. Já tinha gente querendo apagar a luz do palco e desligar os microfones. Mas parece que além da governadora, o público também ria, inclusive a multidão de universitários convidados especiais. E só paramos por exaustão, no fim confessando que um não pode viver sem o outro. Foi daí, o desastre. Uma repórter da Zero Hora veio nos perguntar porque não levávamos aquele espetáculo (?) para o teatro. Murício, cuja sanidade mental se aproxima do zero, não só disse que tínhamos pensado nisso como aquela noite tinha sido apenas um balão de ensaio. E ainda deu o nome da bagaça: “Lula contra o Mau”, explicando que o mau era de Maurício. Saímos de Porto Alegre com patrocínio, teatro e uma vaga ideia de roteiro. Meses depois estreamos na Shopping da Gávea, no Teatro Vanucci. Para o Maurício foi fácil pois ele já tinha uma tradição em stand-ups. Para mim foi uma experiência inebriante. Temos hoje mais de cem apresentações e a cada dia, antes de abrir a cortina eu penso: ö que estou fazendo aqui”. Mas ao receber as palmas da plateia eu entendo o artista de teatro. Não há humildade, baixa estima, depressão ou tristeza passageira, incluindo febre de 39 graus que resista a encantadora experiencia de se ver sob holofotes. Deus que me perdoe.
PS. Sexta feira passada quem estava na plateia? Luiz Fernando Veríssimo.
