O DERRAME

04 de dezembro, 2015

Um dia a Caixa Econômica precisou de um filme para vender uma loteria qualquer. Vai daí que a MPM, dona da conta, criou um comercial que tinha um sujeito que submergia sob uma chuva de dinheiro. Estávamos no período mais duro da ditadura, sem nenhum trocadilho. Situar no tempo é importante porque se não você não avalia a dimensão da merda que deu durante o filme.

No filme havia uma chuva de dinheiro e a produção resolveu imprimir algumas notas com a cor das verdadeiras para dar verossimilhança à cena. Mas tomaram cuidado para que de perto fossem evidentemente falsas, pois imitar dinheiro é crime grave. De pura brincadeira resolveram substituir a efígie do imperador Dom Pedro II que ilustrava a nota de verdade por uma foto do diretor de arte Carlinhos Pietro fumando um charuto com uma expressão, digamos, folgazã.

Todo mundo da produção jurou para todo mundo que, as notas seriam destruídas logo após as filmagens, para não haver qualquer risco. E aconteceu exatamente o que qualquer pessoa de bom senso teria previsto: todo mundo pegou um bolo de notas e levou pra casa. Estamos no Brasil, ora porra. Entre os que ficaram com as notas falsas estava um técnico de iluminação que levou para o filho brincar de banquinho imobiliário. Puta de uma ideia. O pentelinho, na casa do técnico, estava brincando com as notas quando um marceneiro que estava concertando um armário embutido resolveu dividir com o garoto aquela fortuna. E passou a mão num bolo considerável. E com aquela dinheirama toda foi para a zona de Londrina, onde não deixou que naquele dia houvesse puta pobre nem garçom mal-humorado. Pagou rodadas intermináveis de uísque, promoveu surubas gigantescas, mandou repetir o strip-tease, não deixou o conjunto parar de tocar. Enfim, uma noitada para ninguém botar defeito. Tudo generosamente pago com as notinhas Denorex, as que parecem, mas não são. Sabe como é, no escurinho, tudo meio bêbado, ninguém sentiu falta das barbas do imperador. Acontece que o dia seguinte amanheceu com uma imensa fila na porta da delegacia, que juntava putas, garçons, músicos, travestis, anões, porteiros, motoristas de taxis e outros elementos da noite. Todos com as tais notas com a foto do Carlinhos Pietro fumando charuto. Não fosse todo mundo oriundo da zona, seria o caso de dizer que era uma zona. Uma gritaria fenomenal. Parecia tratar-se de um complô comunista (era ditadura, lembre-se) com o propósito de desmoralizar um símbolo nacional e de quebra desestabilizar a economia. O caso foi encaminhado para o DOPS, que envolveu o DOI-CODI, que acabou mobilizando o Exército, Marinha e Aeronáutica. Sem contar que o delegado acabou, só para não perder o costume, enchendo de porrada umas putas e uns fregueses menos colaboradores. A coisa veio de Londrina para o Rio, rastreando o caminho do derrame das notas. A noticia de que havia dado merda correu pela equipe de produção, que tratou de destruir (agora de verdade) as notas restantes e arranjar amigos influentes para se livrar da cana ou, pelo menos, dos delicados interrogatórios da polícia que — método consagrado — arrebentava todo mundo por vias das dúvidas. Graças a alguns generais, delegados e almirantes amigos ninguém acabou preso. Mas foi este episodio que fez com que o Carlinhos Pietro mudasse o cabelo e deixasse de usar óculos. E, definitivamente, largasse o vício do charuto.

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