Sabe esse negócio de shippar e OTP? Então… não é legal.

[Shippar]: verbo derivado do inglês relationship. Ato de ficcionalizar ou torcer por um casal famoso, apelidar (eg. Brangelina).

[OTP]: abreviação de One True Pairing. Declarar seu amor profundo por aquele casal, seu envolvimento emocional pessoal em um relacionamento de outrem.

Há 5 anos eu faço vídeos pro YouTube e isso se tornou a minha profissão. No começo, eu fazia por hobby, mas acabou virando trabalho quando marcas começaram a ver o meu engajamento com o público e resolveram me pagar pra falar do produto delas. Normal, a profissão youtuber tá se tornando algo cada vez mais conhecido das pessoas.

Quando eu comecei, não tinha noção disso, mas conforme o tempo foi passando, notei o quanto a nossa vida pessoal "vaza" involuntariamente pras redes sociais. Meu canal é sobre cultura e cinema (nem sempre foi assim, eu já fiz vlogs sobre temas mais pessoais), mas mesmo assim as pessoas ainda insistem em querer saber coisas sobre mim que não são relevantes pro trabalho que eu faço. E o que mais perguntam é sobre relacionamentos amorosos.

Eu já tive um namoro bem público que durou 3 anos e meio, e quando começamos, decidimos que aquilo seria mantido em segredo por pelo menos 6 meses, até termos certeza. A gente já sabia da pressão que o público coloca, e pior ainda é quando não dá certo: as pessoas ficam perguntando, como aquela tia chata que não se deu conta que você já não leva mais seu namorado nos almoços de família. Após essa fase, nos sentimos mais à vontade pra compartilhar algumas fotos e foi então que entrei em contato com o termo "shippar".

Em 2012, shippar era só botar apelidinho pro casal e achar fofo que ambos estão juntos. Mas como tudo na internet, essa onda perdeu um pouco da noção e a proporção ficou bem maior. E esse é o meu maior motivo de incômodo hoje em dia.

Já me shipparam com vários amigos, alguns com os quais tenho mais intimidade e conseguimos simplesmente achar graça nisso. Só que tem gente shippando youtubers com colegas casados/comprometidos com pessoas "não-famosas". Já pensou na saia justa que isso causa, especialmente quando essas duas mulheres nem se conhecem?

Conversando com uma colega youtuber, ela me apontou algo que eu tinha deixado passar: essa cobrança é muito mais forte nas mulheres, e não é só o ato de shippar. É toda a cobrança dos relacionamentos públicos: se você tá solteira, vão te shippar com alguém. Se tá namorando, quando vão casar? Se já casou, quando vai ter filho?

Eu lembro que passei por isso enquanto estava namorando, e era bem chato. É tipo aquela pressão que a sua família faz, só que é toda hora, em todas as redes sociais, feita por várias pessoas ao mesmo tempo. E essa pressão nos dificultou tomar uma decisão que deveria ser apenas do casal: a de terminar.

Terminar um relacionamento nunca é fácil, afinal são sonhos e planos feitos juntos que encontraram um beco sem saída, e precisam ser repensados. É um momento de luto mesmo. E aí, além de pensar no que o outro sentiria, eu me vi preocupada com o que esse monte de gente acharia. Eu fiquei com medo de decepcionar as pessoas com o fim do meu namoro.

Meu objetivo com esse texto não é acabar com a onda de todo mundo, afinal dá pra ser feliz e fazer brincadeiras na internet. Eu só queria que vocês entendessem o nosso lado, de quem produz conteúdo. Essa pressão de casal já é uma coisa chata e ainda por cima traz um machismo camuflado, já que a mulher não pode estar feliz sozinha, feliz sem casar, feliz sem filhos. Se você quer shippar, shippe. Mas tenha em mente que ao fazer isso, você pode estar reproduzindo um comportamento que tentamos combater diariamente na internet. Assim como não queremos nos tornar o tio do zap zap que manda meme velho, vamos tentar não ser a tia do "e os namoradinho?"?

Eu e vários outros produtores de conteúdo agradecemos o carinho, sabemos da preocupação e envolvimento emocional que vocês têm conosco, mas às vezes a melhor coisa a fazer é dar um espacinho. Quando/se estivermos prontos, vamos compartilhar isso com o mundo, caso seja do nosso interesse. Imaginação faz bem, cobrança não.

Luisa Clasen (Lully)

Written by

Vlogueira (Lully de Verdade) e eterna viajante. http://about.me/lully

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