(Sem) fome de amor
Você já teve o coração partido? Partido mesmo, de verdade, com aquela dor lancinante que te tira o ar por horas, dias, semanas, meses, anos, até? Eu já. E, como algumas pessoas, a primeira coisa que me ocorre quando o coração se parte em mil pedaços é a perda do apetite. É fisiológico.
Tem gente que come muito, eu sei. Desconta na comida. Eu, não. Eu paro de comer. Beber demais é outra coisa, quando o coração dói, muitas vezes a gente acaba encontrando conforto no álcool, na balada, no cigarro, enfim. Comer é de outra ordem.
A primeira coisa que acontece, para mim, como um sintoma nítido de decepção amorosa, é a falta de apetite. Mas não é como um enjoo ou algo que passa depois de algumas horas. Não. É como se a comida “não descesse”. Na minha família, quando alguém se sente assim, por qualquer motivo que seja, a pessoa diz, recusando a comida, ou o carinho em forma de comida: “não quero, obrigada, não me vai”. É isso, não me vai. Não desce. Como se a comida e suas alegrias representassem uma vida que, de alguma forma, acaba de morrer ali.
Lembro de quando minha avó Maria morreu, eu devia ter uns 7 anos ou menos. Minha tia estava sem comer e eu levei um café com leite para ela. Disse a ela: toma só um pouquinho. E ela “obrigada, querida, não me vai”.
Não me vai.
Daí você de fato começa a perder peso. As pessoas notam e dizem aqueles clichês todos, as pessoas que te amam, sua família, seus amigos e amigas leais, vão lá e te dizem: vai passar, você precisa comer, vai ficar fraca, saúde é o que mais importa. Uma vez, fora de contexto, uma senhora me disse: “um joelho ralado dói menos que um coração partido”. Sim, dói menos. Já ralei o joelho depois de adulta, uma mulher pateticamente caindo de salto plataforma, na chuva, no gramado, com a filha pequena no colo. Soluçando como uma garotinha de novo, de vergonha, de medo de machucar a bebê sem querer, de pavor de ver o joelho ralado, esfolado, vermelho de sangue, amarelo de pus, aquela cena grotesca. Doeu bem. Tenho a cicatriz até hoje, uma mancha branca no meu joelho branco, num tom diferente e difuso. Mas o coração… Coração fica dentro da gente, ninguém vê a cor, a textura, o tom, as cicatrizes. As múltiplas cicatrizes. Ninguém vê. A magreza, sim.
E o lance todo de ter um coração partido é que nenhum relacionamento termina da mesma forma. Alguns acabam porque a gente quer — dói. Outros nem bem começam e acabam porque o outro nos rejeitou — dói e dói. Outros, ainda, terminam com amor dos dois lados, mas com um amor meio sujo, meio sórdido, meio bandido, que os dois sabem e sabiam o tempo todo que não daria certo. Um amor “tóxico”? Se é que se pode chamar isso de amor. Esse dói, dói, dói. Tira o sono, tira a fome, tira o apetite inteirinho da vida.
E não, não adianta seguir o dito popular de que “um amor só se cura com outro amor”. Não mesmo. Quando a gente está nessa fase tão dolorosa, até olhar-se no espelho parece sem sentido. Todo mundo continua te dizendo “vai lá, você consegue, você é forte, você é linda”. Mas não, você não consegue.
Sua mãe faz bife à milanesa e você acha até bom, mas morde um pedacinho e deixa o restante no canto do prato. Vai num almoço maravilhoso e come só um teco da incrível mozzarella fresca que te ofereceram. O chef pergunta: “não gostou? Estava ruim?”. Não, moço. Eu que tô ruim.
De manhã é a hora mais difícil, especialmente para uma amante dos cafés da manhã, como eu. Aquele ovo frito na manteiga, com gema mole, acompanhado de pão tostado de fermentação natural, o café forte coado na hora, a frutinha cortada, o suco. Tudo aquilo que você preparava para si e para ele perderam o sentido e o cheiro da manteiga derretendo na frigideira de repente parece até nauseante.
Daí você prepara o café para te acordar e te amparar, bota um pouco de açúcar e acende o primeiro cigarro do dia, com uma ligeira culpa porque você estuda saúde pública e sabe que cigarros fazem mal. Mas a dor, lembra? A dor dorme e acorda com você. Dependendo do nível da decepção, a dor te acorda no meio da madrugada. Ela gosta de te acordar entre as 3h e 5h, antes do sol nascer. Daí você abre o olhão e sabe que está sozinha. Demora uns segundos para perceber que está em casa. Demora uns minutos para lembrar se sua filha está em casa hoje ou não. Mas entende na hora que ELE não está ali para te dar um abraço e dizer que vai ficar tudo bem, foi só um pesadelo.
Pesadelo foi te amar. Pesadelo foi perder o apetite por sua causa. Pesadelo foi crer num amor imenso que nunca se concretizou.
Pesadelo foi perder a fome, a vida.
Os dias passam. Você faz terapia ou não. Chega um ponto em que já cansou de viver embriagado e intoxicado de cigarros. Decide ir andar no parque e tomar sol. Vê a barraquinha de água de coco e aquilo cai bem. Hum, ponto pra você.
O bloqueio continua. Você não quer ver, ouvir, tocar, falar. Cada palavra do outro ainda te destrói por dentro, um gatilho. Agora é você e você, meu bem. “Você precisa se curar”.
Num belo dia, você acorda antes que a dor te acorde. Mas agora você já tem consciência de que está só na cama grande de casal e tem ciência de que sua filha está dormindo no quarto ao lado ou na casa do pai. Agora você sabe.
O gato mia lá fora, pedindo comida. De alguma forma mágica, ele sabe que você abriu o olho e está tossindo (excesso de cigarros, lembra?). Ele sabe e te chama com aquele miado bizarro que só o seu gato tem.
Você se levanta e pensa: bom, talvez um ovinho não caia mal. A manteiga borbulha na frigideira e você lembra que tem um pedaço de queijo na geladeira. Ovo frito, gema mole, hoje tem bisnaguinha para tostar, os pães de fermentação natural se foram com ele, mas tudo bem, tudo bem. Tem caju fresco, que glória. Tem tangerina pra suco. Tem gelo! Que luxo tomar suco de tangerina fresca com gelo e água de coco de manhã. É primavera, é novembro, os dias começaram a esquentar e tomar um bálsamo desses levanta qualquer um.
O coração te lembra: tô doendo ainda. Não me esqueça, não me esqueça… Você checa o celular e não tem ligação dele. Fica aliviada e triste. Não tem bom dia. Aliviada e triste. Não tem florzinha. Aliviada e triste. Não tem ninguém te acusando de traição. Aliviada. Não tem ninguém dizendo que você é otária. Aliviada. Não tem ninguém dizendo “não te amo mais”. ALIVIADA.
Peraí, vou colocar mais uma tangerina aqui. Peraí, vou preparar essas asas de frango pro almoço. Peraí, e se eu fizesse uma polenta hoje à noite? Peraí, hoje é segunda, tem estrogonofe na lanchonete! Peraí, que preciso tirar o ovo da frigideira porque quero a gema bem mole, escorrendo nas bisnaguinhas tostadas.
Você come. Fumou uns dois cigarros antes e o apetite ainda tá meio assim, mas você come. E se sente grata por ter comida. E se sente grata por ter trabalho. E se sente grata por não ter se matado com esses maus hábitos adquiridos pelo desamor. E se sente grata por ter família, filha, amigos, amigas, pessoas que te amam. Se sente grata porque tem um novo amor despertando no seu coração: o seu. Por si mesma. Esse sim. Esse sim, “me vai”.
Hoje vou fazer bisteca. Amanhã, curry de vegetais. Depois, bobó de palmito ou camarão. No meu aniversário, um banquete. Todos os dias, suco verde. E meu ovinho de gema mole de manhã. Só para mim. Ô glória! Vinho acompanha? Sim. Pode encher a taça.