A casa

Minha casa e a de tantos que me precederam. Esse espaço sagrado, útero, mãe, que me acolheu e ensinou tanto sobre grandeza e humildade. Força e coragem. Posso dizer que, sim, aqui convivi com muitos fantasmas. A maioria deles já morava em mim há tempos, essa é a verdade. Eram reflexos do meu interior e de todas aquelas coisas que eu evitei a vida toda.

Neste lugar pude ver, ganhei olhos maiores, olhos espirituais que me permitiram observar a mim mesma e ao meu entorno. A ver as coisas como são e a sentir aquelas que só podem ser acessadas quando abrimos suas portas com outros sentidos.

Exigente e generosa, esta casa vai morar em mim para sempre, assim como eu morei nela: inteira.

Sei que me ofereceste tudo que tinhas para dar, o bem e o mal. E eu retribuí, da mesma forma.

Obrigada, mãe casa, pelos ensinamentos e pelos momentos que pudemos compartilhar.

Sinto que pisei sobre os ombros de todos que viveram aqui antes de mim. Pude senti-los me suportando, beijando meus pés e curando minhas feridas. Colocando-me lá no alto para que pudesse ver a verdade sobre mim e sobre o mundo. Não lembro de ter pisado em solo mais feminino e generoso. Que lugar sagrado!

Cada um dos teus cantos me encurralou por tantas vezes. Desafiou minhas verdades, fazendo eu me questionar, fazendo doer, fazendo crescer.

Teu jardim, uma escola à parte. Ensinou-me sobre a força das árvores que persistem através dos tempos e sobre suas amizades generosas. Confesso que teve dias em que cheguei a ouvir seus conselhos.

As flores me mostraram o significado da beleza ao me presentear todos os dias com o aroma doce e tantos tons de rosa.

Aprendi a amar os animais livremente. Cada pássaro que vem e vai todos os dias ficará na minha lembrança. Ouvi muitos cantares sentada atentamente perto das árvores.

As borboletas me encantam por serem tão fugidias que são como portais para o Nirvana que se abrem e fecham na mesma velocidade. Amo as amarelas que voam juntas.

As formigas disciplinadas e incansáveis me ensinaram sobre o quanto a rede e o sutil é potente e modificador.

A terra, que jaz abaixo dos meus pés, me convidou a imaginar o que me precedeu aqui. Quantas histórias passaram pela minha cabeça.

Me ensinaste sobre o tempo, casa.

Sobre este círculo sem início e fim que parece uma linha lógica só nas nossas cabeças pretensiosas.

Tempo, como és generoso. Meu tempo nessa casa me fez ter certeza do quanto preciso aproveitar o meu.

Saio daqui ainda mais maravilhada com a vida. Com o silêncio. Certa de que meu espaço precisa ser ocupado verdadeiramente por mim. De que não importa os lugares que eu venha a pisar, as pessoas que eu venha a conhecer, os objetivos que eu venha a transformar em realidade, as pessoas que eu venha a amar. Minha solidão me pertence e é só quando estou sozinha que percebo, me abro e me transformo.

Obrigada, casa, deixaste muitas marcas em mim. Sigo meu caminho mais forte, corajosa, resiliente, amorosa, mãe e mulher depois de te habitar e conviver com teu exemplo.

Tenho certeza que outros virão depois de mim e também serão teus aprendizes.

Obrigada, mãe, pelo amor e por seres esse espaço de cura que és.

É difícil para mim dizer adeus mas até isto estás a me ensinar me deixando ir e me pedindo para que eu também me desprenda e nasça para outros aprendizados.

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