Rilke mudou meus planos

Eu tinha dois textos na agulha para tocar depois da intro. Acabei de mudar de ideia e jogar eles fora. Por que? Porque passei o dia lendo Rilke e fazendo anotações das partes boas para quando for necessário ter perto e rápido. ‘Cartas a um jovem poeta’. Aconselho qualquer um que queira escrever, lê-lo. Faz mais ou menos 7 anos que tenho o livro. Ele tem alguns ferimentos que testemunham as aventuras que vivemos juntos. Já o li duas vezes e sempre que volto a ler, encontro mais alguns tesouros a serem recolhidos.

Como ele é pequeno e cabe na bolsa, viajou algumas vezes comigo me fazendo companhia nas horas de agonia dentro do avião. Sim, dentre tantos medos que cultivo, o de avião é o mais bobo e o mais persistente. Mas voltando ao Rilke, eu me sentiria uma merda se deixasse aqueles textos pisarem aqui justo hoje, depois de ter lido de cabo a rabo as cartas trocadas entre ele e o aspirante a poeta Franz Kappus, entre 1903 e 1908. Então, em homenagem a esse poeta que lá do século passado já mandava pedrada atrás de pedrada, vamos fazer diferente. Vamos de citação e comentário.

Para começar, ele diz em tom tranquilo:

Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas.

Toma-te. Eu ri.

Por uma questão de amor próprio vou resumir meu comentário a: calada eu já estou errada e, sim, a carapuça serviu direitinho. Já está devidamente anotado. Nunca mais reclamar que minha vida não é interessante o suficiente.

Vamos para a citação seguinte:

E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons os versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida.

Entendem agora porque eu joguei os textos fora? Não dava para dizer que eles eram um pedaço e uma voz da minha vida. Posso dizer que tenho aprendido que não adianta tentar mentir para os textos. Não adianta disfarçar, contornar os pontos doloridos para ignorá-los. Não adianta. Tem um pedaço de uma das cartas que só corrobora essa ideia.

Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério. Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida.

A beleza do que escrevemos nasce na origem, no desejo, na necessidade, na verdade que vem lá do fundo da alma. Por isso que escrever não é terapia para mim. Na terapia eu invento, fujo. Nem sempre é premeditado, óbvio, mas acontece porque sei que tenho uma guia. Com o ato de escrever é diferente, a gente não tem para onde correr. Se eu inventar, vocês vão sentir, eu vou sentir e vou me confrontar. É como mentir diante do espelho com uma platéia olhando. Você mente, ecoa, dói e tem gente assistindo.

Quanto ao termo ‘obra de arte’, ele me lembra que não me considero uma artista. Nem imagino como deve ser se sentir dessa maneira. Prefiro não imaginar. É pesado, assim como rotular meus textos de crônicas, contos, poema. Para mim são só textos. Livres porque livre é como me sinto podendo falar o que penso usando palavras escritas.

Acho que por hoje é só. Tem muito mais do Rilke anotado por aqui esperando uma outra oportunidade de dividir com vocês, mas a hora me pega pelo pé. Ainda tenho planos para hoje. Obrigada, Rilke e um beijo para vocês.

*A imagem do topo é desse curta aqui — The Wound, da Anna Budanova.