fatiando o elefante
Somente quando se calam todas as outras vozes é que é possível ouvir a nossa própria voz.
E às vezes o cérebro parece a roda de um carro atolado (obrigada Lettie). Porque é tanta tanta informação que fica difícil entender o que é seu e o que é aprendido (ou apreendido).
Durante um bom tempo da minha vida, eu quis uma coisa X. Eu achava que isso era o que ia me fazer feliz, que era para isso que eu tinha vindo ao mundo. E então eu fui e fiz coisa X. Quando cheguei ali, a sensação foi de 'mas é isso?'. Não era.
Mas então o que é? Como separar o ruído do que o que a gente realmente gosta? Como separar o que eu faço porque é cool ou o que eu faço porque é o que eu acho que deveria ser feito daquilo que realmente vai me fazer feliz? Como saber que no fundo se queria "fazer umas almofadinhas de boa, costurar uns vestidinhos" e não ser um artista boêmio?
São muitas perguntas e estou um pouco longe de conseguir responder a todas. Até agora, tem sido muito mais separar o ruído do som principal, quase como acertar a estação de uma rádio que tem o sinal fraquinho.
É uma desconstrução de coisas. Desconstrução do que era a minha expectativa (e a dele, e a dela e a daquele outro) sobre o que ia acontecer comigo. Sobre o que eu vou fazer da minha vida. Sobre quantos carros eu terei e de quantos m2 será minha varanda gourmet. Não é por mal, mas porque ele, ela e aquele outro aprenderam também que assim era o certo.
Nesse processo tem também que continuar vivendo. Vivendo com o que se apresenta, fazendo de um limão uma caipirinha.
Tem hora que parece difícil, que parece uma sala escura. Vida de Schrödinger. Mas aí alguém joga uma lampadinha, estende a mão, fala uma palavra, me aconchega num abraço ou no peito, ou só está ali. Ajuda sim, ajuda muito. Obrigada.
Não é simples sair dessa área de interferência de sinal.
Mas se fosse fácil, chamava cruzadinhas coquetel e não vida.