A Cultura da Crítica

Não é de hoje que movimentos de crítica e reflexão surgem no meio cultural. O chamado “ativismo artístico” tem sua principal representação com a Pop-Art em 1950, em que a ironia era recorrente em obras que criticavam o consumo exagerado e indiscriminado da época. Caracterizada pelas críticas e por ir contra ao Expressionismo dominante na época, a Pop-Art deixou a classificação de opositora e tomou grandes proporções.

É possível citar muitos movimentos de ativismo artístico nos dias de hoje, sejam eles criados por movimentos de militância ou não. Em uma época em que não há um movimento artístico firmado oficialmente como nos tempos de Romantismo e Realismo, diferentes tipos de obra são consumidos e essa pluralidade de conteúdo se torna ainda maior se considerarmos a globalização proporcionada pela internet. Somos bombardeados com as mais diferentes informações e imagens durante todo o tempo que temos acesso aos meios de comunicação, porém não fomos ensinados a filtrar tudo o que recebemos para absorver apenas o que é útil.

Essa falta de senso crítico com o entretenimento das grandes massas acaba criando uma legião de indivíduos com hábitos e personalidades semelhantes, suas particularidades acabam se perdendo no meio da tentativa de se ver aceito em padrões e criar para si a sensação de pertencimento.

Em contraponto às grandes massas com questionamentos vazios e superficiais, existem obras com questões muito mais profundas e que buscam trazer reflexões mais profundas, porém essas críticas colocadas acabam não gerando o devido questionamento em quem as consome já que, se tratando de um público habituado a contemplar obras sem analisá-las, algo mais complexo teria a mesma forma de absorção: sem questionamento, ou em muitos casos com um questionamento errado, o fluxo de informações e cultura segue criando uma nova categoria de consumidores: críticos alienados.

Um bom exemplo de obra que busca trazer críticas reais e profundas mas que acabou se tornando apenas mais um modo de entretenimento sem reflexões reais foi Black Mirror. A série recentemente comprada e com uma temporada produzida pela Netflix apresenta uma história diferente a cada episódio, trazendo sempre alguma condição extrema ao ser humano, seja ela causada por alguma tecnologia futurista ou algum sentimento externalizado da forma mais grotesca possível.

O canal no Youtube “Don’t Hug Me I’m Scared” apresenta uma série de vídeos que em um primeiro olhar, representa ser inocente por apresentar personagens e cenários infantis. Utilizando uma mescla de estilos (fantoches, animação 2D e 3D, live action e etc), os episódios remetem a famosos shows infantis em que há a presença de um personagem externo interagindo e ensinando os personagens principais sobre algum tema. Porém, quando o espectador menos espera, a história toma um rumo completamente inesperado.

Usando de elementos que causam estranheza e agonia (trilha sonora estranha, mescla de estilos de imagem, uso de órgãos, cenas com cortes muito rápidos), os episódios sempre surpreendem e deixam certa dúvida sobre o que está sendo transmitido já que a mensagem não é claramente passada, forçando seu público a analisar e refletir para conseguir entender. Diversas teorias e opiniões sobre a série são divulgadas na internet mas os produtores não confirmam e nem se manifestam sobre elas, reforçando a ideia de que a interpretação depende de quem está assistindo.

Outro caso recente que está tomando grandes proporções no Youtube é o canal “That Poppy”, em que uma menina com características delicadas e infantis faz vídeos curtos e estranhos com pequenas críticas a diversos hábitos modernos, como por exemplo o desejo de aumentar os seguidores nas redes sociais. Com seus vídeos assinados pelo músico e diretor Titanic Sinclair, Poppy é também cantora e lançou um EP com 6 músicas que também é carregado de críticas e ironias.

Seja em algum episódio de Black Mirror, na construção da história e cenas de Don’t Hug Me I’m Scared ou na doçura robotizada de Poppy, pode-se observar que as obras fundadas em críticas sociais são sempre repletas de elementos considerados estranhos e que fogem do que é habitualmente consumido como entretenimento mas mesmo assim, ou talvez por causa de seu destaque entre outras obras comuns, acabam viralizando e atingindo grandes públicos.

Abordando tantos temas e questões intrigantes, é normal acreditar que seus espectadores criam um certo senso crítico diferenciado ao se depararem com a obra, o que acontece em alguns casos, mas observa-se que a maioria trata-se apenas de mais um consumidor motivado pelos impulsos do que lhe é transmitido.

O que foi criado para despertar questionamentos no público acabou se tornando mais um mero entretenimento. Ao invés de assistir e assimilar as informações passadas em cada episódio, o mais comum é ver pessoas que aguardam ansiosamente pelo lançamento de novas sequências, apenas motivados pela ânsia de saber o que foi produzido dessa vez, sem realmente aproveitar o conteúdo.

Além disso, com a facilidade de propagação de informações que a internet proporciona e o desejo de sermos notados, acabamos entrando num ciclo de críticas infundadas em que cada um expressa uma opinião superficial sobre um assunto sem ter total conhecimento sobre ele.

Precisamos começar a analisar o que consumimos e entender se não estamos deixando que uma piada que rimos em uma série não está sendo nossa própria realidade.