“O glamour voltou à Brasília”

É o dia anterior — 220 senhores elegantemente vestidos, no palácio da alvorada, posam para centenas de fotos. Alguns flagrantemente eufóricos, serelepes como os comentaristas “políticos” dos maiores canais de tv, outros mais contidos, acompanhados de familiares. À mesa, cortam a carne - de boa qualidade - acompanhada de risoto de funghi, salmão, salada, massas, vinho.
Deputados federais da nação. Um deles, Heráclito Fortes, resume o sentimento geral numa entrevista à imprensa: “o glamour voltou a Brasília”. Alguns meses atrás, 26 dias antes do impeachment, foi ele quem recepcionou o jantar anterior, quando um grupo menor, de 85 parlamentares aclamaria o então vice-presidente Michel Temer, em meio à uísque de boa qualidade e o prato favorito: risoto.
No dia seguinte, este núcleo do risoto, que de 85 subiu pra 220, somaria 366 votos a favor da PEC 241, que passou em primeira votação ontem. A PEC limita os gastos públicos por 20 anos. Não os gastos com pagamento de juros da dívida, não limite à grandes fortunas. Limita a vida dos trabalhadores e dos pobres do país. Congela os investimentos com saúde e educação e impede o aumento real do salário mínimo. Não limita superaposentadorias, não acaba com benefícios esdrúxulos, não repensa a Previdência. Não demite os parasitas que recebem dinheiro público em troca de favores.
Daqui 20 anos, minha filha vai ter 27.
Na tv que, desde aquele primeiro jantar do Heráclito vem contabilizando um aumento exponencial no recebimento de verbas federais de propaganda, os comentaristas riem. mais que isso. gargalham. “eu que to aqui há 20 anos em Brasilia nunca tinha visto isso”. E falam do jantar da véspera — “o Temer fazia questão de tirar foto com todo mundo, cumprimentou um a um”. Sem mencionar o risoto, em tom de celebração, dizem que a PEC é “muito fundamental pro Brasil sair da crise”, pro Brasil “sair do cheque especial”. Tudo se trata, querem nos convencer, de “sinalizar ao mercado”.
Sinalização. Como quando um navio está afundando e se recorre ao disparo de um sinalizador na esperança de que venha a solução. Só que no nosso caso, o grupo do risoto coloca o colete salva-vidas antes, embarca com os seus em botes seguros, sem esquecer do uísque. Afinal, se não vier a solução, que se afoguem os outros - já vivem mesmo só com a cabeça fora d’água.
Se fosse cena do filme titanic, talvez um deles iria se comover no momento final e tentar convencer os outros de ao menos levarem o pessoal do meio, “coitados dos paneleiros”. Mas nem isso, no dia seguinte.
é a realidade.