Bons sonhos

daqui de cima te vejo, te cuido e parabéns, você está se saindo muito bem!

E meu maior desejo era ser real. Queria que tu pudesse me ver, assim como eu te vejo. Queria que tu enxergasse tudo o que sou, como eu enxergo tudo que és. E mais, queria te tocar, do mesmo jeito que tu me tocas, ainda que não possas chegar perto de mim. É terrível querer todas essas coisas e não alcançar nenhuma delas. É destruidor tentar fazer com que tu me escutes, mas nada acontecer, além de ecos e palavras vazias.

Queria ser, pelo menos, como um espelho, para que tu te visse e ficasse deslumbrado com tamanha beleza. Tu me atrai do jeito mais maluco que pode existir, mas eu não canso de descobrir mais de ti, todos os dias. Não canso de acordar cedo, em busca da tua presença. Não canso de gastar as horas do meu dia te admirando concentrado, fazendo o que amas. Não canso de dormir tarde, te acompanhando até em casa, para ter a certeza de que chegarias bem.

Teu rosto perfeitamente simétrico é surreal. As tuas expressões claras e simples fazem com que eu fique mais apaixonada a cada dia. O jeito que tu me encaras — mesmo que eu saiba que não consegues mais me ver — desmonta meu eu por inteiro. Os sorrisos que tu arrancas das pessoas me deixa feliz, mas com saudade de te arrancar vários. Na verdade, eu só queria poder ouvir tua voz de novo. Ela continua sendo a minha melodia preferida. Não me canso dela, assim como não me canso de você, mesmo que eu passe o dia inteiro ao teu lado.

Minha felicidade sempre foi poder compartilhar a mesa de café da manhã farta contigo, dividir a última fatia de queijo e brigar pelo restinho de suco de laranja, que era meu, pois tu és bondoso demais. A minha felicidade era não gastar com o cobertor mais caro, porque a tua pele já me afastava do frio. A minha felicidade era de não precisar planejar viagens, pois a tua presença me satisfazia e complementava a minha vida. E, principalmente, a minha felicidade era de não precisar mais de relógios, pois estar com você fazia com que as horas não passassem.

E eu queria eternizar cada gesto teu, cada franzida de cenho, cada piscada de olho e tudo o mais que me fascinava. Eu já havia decorado teus sentimentos e sabia o que te deixava feliz, triste, com sono ou com raiva — mesmo que fossem poucas as coisas que te aborrecessem. Eu queria que tu te conhecesse através do meu olhar. Se tu visse como eu te via, morrerias de amores por ti mesmo, como eu morro sempre. Não sabia que mortos pudessem morrer novamente, mas tu me mostras que sim. És capaz de me matar — de amor — um pouquinho mais todos os dias. E é por isso que, mesmo que meu desejo de ser real nunca volte a acontecer, o que tivemos me bastou, me deixou realizada.

E agora que já estás em casa, descansarei em paz, na certeza de ter cumprido minha missão do dia. Se cuida! Não sai de casa amanhã antes das nove. Aproveita para dormir um pouco mais, como tanto gostas. Ah, se der, apareço nos teus sonhos, só pra lembrar que és a coisa mais linda que existe no mundo. Pelo menos no meu mundo. Boa noite! Agora vai, teu expediente já acabou. Desliga o computador e descansa, como eu. Mesmo que o universo tenha quebrado a nossa promessa do até que a morte nos separe, eu continuo te amando. Daqui, do mesmo jeitinho. Fica bem. Bons sonhos…


Obs.: escrevi esse texto depois de ler um livro onde a protagonista já havia morrido e contava coisas sobre a vida. Nesse caso, é tudo estória, até porque eu não estou morta e nem tenho alguém para dividir o último pedaço de queijo ou brigar pelo restinho do suco (:

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