O novo colonizador digital
Como as marcas mudaram o Youtube
Há 12 anos o Youtube nasceu como um grande armazém de vídeos pessoais. Hoje, se tornou uma rede viva de conteúdo e entretenimento. Essa comunidade se transformou em uma grande oportunidade para produtores independentes e empresas.
Diversos youtubers construíram uma grande base de fãs e conseguiram fazer carreira dentro da plataforma. Ganhando fama, contratos e dinheiro. Os canais populares conseguem ganhar dinheiro por meio de outras estratégias (que saem da usual monetização do vídeo), como por meio da venda de merchandising do canal (diversos youtubers possuem lojas virtuais com produtos próprios), product placement ou contratos de livros, filmes etc.
A maneira principal da maioria dos canais de ganhar dinheiro no Youtube ainda é pelo Google AdWords, que permite que os vídeos sejam monetizados e gerem dinheiro por meio de comerciais que rodam antes do seu conteúdo. Foi essa ferramenta que “causou” o temido Adpocalypse que os youtubers tanto falam.
Tudo começou quando o maior canal da plataforma (em número de inscritos), a.k.a. Pewdiepie, postou um vídeo em que Felix (dono do canal) pagou dois homens para dançar com uma placa escrito “Death to all jews”. No vídeo o youtuber se surpreende que os dois homens realmente fizeram isso, porém mesmo assim postou o conteúdo. Os fãs do canal não se revoltaram com ocorrido.
O episódio, porém, foi retratado na grande mídia como altamente ofensivo e de mau gosto, jornais e sites de notícia crucificaram o youtuber e o pintaram como um monstro antissemita com tendências nazistas.
O primeiro relato do vídeo surgiu no Wall Street Journal em abril de 2017, o jornal questionou a Disney (que na época possuía contrato com Felix) sobre o ocorrido, a multinacional em resposta cortou todos os contratos que tinha com o canal.
A repercussão na mídia tradicional levantou questões sobre como os ads eram dispostos na plataforma e posteriormente levou a fuga de anunciantes do Youtube. Diversas empresas retiraram seus esforços de mídia com medo de que seus nomes fossem ligados a temas polêmicos ou que não fossem Family Friendly (um canal Family Friendly dá segurança aos anunciantes de que no vídeo que sua propaganda está não serão tratados temas polêmicos ou de mau gosto).
A relação entre os anunciantes e o Youtube sofreu em virtude do show midiático que foi montado em torno do vídeo de Pewdiepie. Com o ocorrido as marcas ficaram muito sensíveis e não queriam seus comerciais em canais que não fossem Family Friendly. Felix e diversos outros canais, que são monetizados, tratam de conteúdo e linguagens que não são muitas vezes Brand Friendly.
Porém deve ser levado em conta que no Youtube o humor e o conteúdo dos vídeos muitas vezes não são levados ao pé da letra pelos seus espectadores. Isso ocorre pela plataforma não possuir um viés tão sério e literal, pelo “tom” do vídeo ser ditado pelo próprio criador do conteúdo e também pela própria natureza do site, que em seu core é um grande arquivo de vídeos de opinião de diversas pessoas .
O canal de Pewdiepie desde seu início se caracterizou como descontraído e de humor. Inúmeras vezes o youtuber faz graça de si mesmo de um jeito tosco e infantil. Um exemplo disso é o vídeo “PEWDIPIE QUITS YOUTUBE, EDGAR TAKES OVER”, em que Felix dá voz ao seu cachorro Edgar e finge que ele tomou conta de seu canal. É inegável que ele retrata temas polêmicos em seus vídeos, mas mesmo falando sobre assuntos “espinhosos” e de usar de palavrões os fãs de Pewdiepie não ficaram ofendidos ou tocados pelo ocorrido.
A maioria dos fãs do youtuber são jovens pertencentes a uma geração que não passou por guerras (como a primeira e segunda mundial) ou enfrentaram epidemias, escassez ou fome. Essa geração nasceu em um mundo em que paz, fartura e tecnologia são realidades possíveis, logo, é compreensível que temas com elementos nazistas (Felix foi acusado de ter tendências nazistas por alguns jornais) não afetem tanto eles e sejam até passíveis de serem usadas como recurso de humor ( como é o caso de Pewdiepie).
Mas é um erro pensar também que as esferas do Youtube e “mundo real” não se esbarram ou que não são afetadas uma pela outra. Apesar de episódios como o ocorrido com Felix não afetarem seus fãs, não quer dizer também que os produtores de conteúdo podem produzir tudo o que quiserem e ainda conseguirem monetizar seus vídeos. A plataforma sofreu grandes mudanças e hoje é um espaço comercial, onde grandes e pequenas marcas conseguem se comunicar com seu público de um jeito prático e direto.
Como resultado do ocorrido o site mudou como classifica os vídeos. O Youtube agora só permite que canais sejam monetizados se tiverem mais de dez mil views (no canal inteiro). A plataforma também classificou os vídeos em conteúdo Family Friendly e Non Family Friendly, para ajudar na escolha de canais pelos anunciantes. Ela pretende com essas alterações prevenir que casos similares ao de Pewdiepie não se repitam novamente e tornar o Youtube uma ferramenta que os anunciantes se sintam confortáveis em utilizar.
Os vídeos que os youtubers falam palavrão ou que tratam de temas polêmicos são classificados como “Non Family Friendly”. Mas em muitos casos, vídeos que não tratam de conteúdo ofensivo, de mal gosto ou de um conteúdo que possa gerar polêmicas (e assim machucar a imagem do anunciante) ainda são classificados como Non Family Friendly. Essa classificação alcança vídeos que se usam de elementos humorísticos que vai do uso de urina falsa (como é relatado no vídeo abaixo do canal h3h3Productions que água é utilizada em uma pegadinha) até canais com palavrões em seu conteúdo, que não são utilizados de modo pejorativo, mas sim como modo de expressão (sendo usados como gírias).
Por meio da classificação Family Friendly o Youtube tentou ao máximo afastar o dinheiro dos anunciantes de vídeos “polêmicos”. As marcas como resultado do circo montado em volta de Pewdiepie optaram por colocar seus esforços de mídia em vídeos com a classificação Family Friendly. O que reduziu drasticamente o quanto os youtubers ganhavam por vídeo, mexendo com sustento de diversos canais e irritando muitos deles.
Um dos maiores canais brasileiros, o canal do youtuber Felipe Neto, fez um vídeo alegando que seu lucro por vídeo caiu 90% desde o ocorrido. Felipe fala que em média um vídeo seu fazia de US$ 1200 a US$ 2000 e agora seus vídeos estão fazendo de US$100 a US$130, ele até deu um exemplo de um vídeo seu (de 2.500.000 views) que fez US$100.
Essa insatisfação geral dos youtubers levantou algumas questões sobre o futuro do site. A primeira questão é mais sobre o futuro da plataforma: como os novos canais que ainda estão começando (e que podem no futuro contribuir com conteúdo de qualidade para a plataforma) irão ver o Youtube como uma oportunidade interessante para desenvolver seus vídeos e assim alimentar o site com material de qualidade que atraia o público e novos anunciantes? Para fazer um canal de sucesso e ter visualizações se requer dedicação integral do produtor e muito trabalho durante um período grande de tempo, o que fica difícil pelo baixo rendimento dos vídeos.
As outras questões que surgiram tocam mais no quesito de classificação Family Friendly e Non Family Friendly, como ela afeta os negócios do Youtube e se está sendo efetiva. Essa medida que foi tomada ainda apresenta falhas que estão presentes no site. O próprio Pewdiepie achou uma delas e fez o vídeo chamado “Youtube made a mistake”. No vídeo ele procura por conteúdo no seu canal no modo restrito do Youtube, ele apenas acha um chamado “The Forbidden Video”. Nele o youtuber joga um jogo com viés adulto da personagem infantil Elsa da Disney. Esse é o único vídeo permitido do youtuber no modo restrito do site, provavelmente por ter a tag Elsa que é uma personagem infantil da Disney.
Outros erros que de classificação que podem machucar a imagem do anunciante ocorreram muito no passado e ainda estão presentes na plataforma. Principalmente em rodar ads de produtos que não são próprios para um público de um canal. Como por exemplo propagandas de cerveja em canais de youtubers mirins.

Depois de todos os acontecimentos do Adapocolipse em abril, no mês de junho o youtuber Felipe Neto publicou o vídeo "YOUTUBE MUDOU! CANAIS GRANDES VÃO PERDER DINHEIRO!" para explicar as novas mudanças que iriam ocorrer. Felipe começa o vídeo parabenizando o Youtube pela volta da monetização normal dos vídeos.
A seguir estão todas as mudanças listadas por Felipe:
1-Palavrão, apelações sexuais ou de baixo calão na thumbnail ou no título perderá a monetização do vídeo. Essa nova regra será implantada por meio meio de um algoritmo da plataforma que deverá monitorar tudo o que é postado.
Como resultado dessa regra diversos canais que antes usavam como clickbait sexo e palavrões para atrair pessoas terão que mudar o jeito de chamar a atenção dos espectadores e também modificar títulos e thumbnails dos seus vídeos já publicados para não perder dinheiro.
2-Vídeos com conteúdo de ódio perderão a monetização. Segundo o Youtube, conteúdo de ódio é todo o conteúdo contra: raça, origem étnica, nacionalidade, religião, qualquer tipo de deficiência, idade, status de veterano, orientação sexual e identidade de gênero (segundo o comunicado enviado pelo Youtube à Felipe Neto)
3- Proibido para monetização: sexo. Canais que se aprofundam no assunto ou que fazem uso de brinquedos sexuais tendem a perder a monetização.
4-Vídeos com violência perdem a monetização, porém agora essa regra também vale para Gameplays. Mas a empresa comunicou que cada situação será analisada, se o vídeo promover violência ele perderá a monetização.
5-Não poderão ser usados elementos do universo infantil em uma cena de sexo, de violência ou em cenas adultas.
6- Vídeos de pranks vão estar passíveis de perder a monetização se nelas as pessoas se encontrem em situações de humilhação e desespero. Se a prank tiver alguma conotação ou contexto sexual também perderá a monetização.
7-Vídeos que promovem consumo ou venda de drogas (sendo elas lícitas ou não) perderão a monetização.
Como resultado youtubers como Cocielo, Dani Russo e Caue Moura terão que mudar seu conteúdo se quiserem manter a monetização.
9-Vídeos com palavrões estarão passíveis de perder a monetização, porém, o contexto IMPORTA. O Youtube informou que depende de como e quando o palavrão é usado o vídeo pode ou não continuar a ser monetizado.
Link do vídeo de Felipe Neto:https://www.youtube.com/watch?v=00YBzRq40wc
As mudanças implantadas pelo site e o constante monitoramento (das tags, thumbnails, títulos, descrições e vídeos) estão demonstrando que o Youtube está aprendendo com seus erros cometidos no passado, tentando criar um ambiente que os anunciantes se sintam seguros e os criadores não sejam penalizados financeiramente por fazerem vídeos Non Family Friendly. Com essas novas regras os criadores têm uma liberdade criativa, porém alguns temas são delimitados para que os anunciantes consigam colocar propagandas em seus vídeos.
No universo crescente que é o Youtube, onde se tem muitos canais, influencers e tipos de público (que consomem conteúdo e símbolos de uma maneira diferente e que está em constante mudança), é compreensível que tanto as marcas quanto os produtores e a própria empresa que rege a plataforma tenham dificuldade para lidar com esse espaço. Há uma necessidade de empresas/agências ou departamentos que gerem informações sobre canais, influencers (tanto fora quanto dentro do Youtube). Algumas empresas especializadas, como a Celebryts e a Digital Influencers, já surgiram no Brasil para ajudar as marcas a navegar por esse espaço. Com o serviço dessas novas empresas as marcas conseguirão entender o Youtube e conversar melhor com seu público.
