Qual é o Problema do Emotivismo?

Poster do filme “Divertida mente”

Neste texto pretendo discorrer sobre o que é o não-cognitivismo, suas origens e implicações bem como descrever sobre sua primeira corrente a qual chamamos de emotivismo, tais quais são as primeiras teorias da metaética. Apresentarei brevemente e, de antemão, sobre o que este campo da filosofia se trata assim como suas ligações com outras áreas da filosofia.

Primordialmente, a metaética se iniciou na primeira metade do século XX com uma obra denominada ‘Principia Ethica’ (1903) de G. E. Moore quando abordou sua tese não-cognitivista do Argumento da Questão em Aberto (A.Q.A). Esta, embora não tenha sida uma obra metaética considerando a discrepância de seu tempo — pois o termo veio após um tempo com os demais não-cognitivistas como Ayer e Stevenson –, pode ser considerada uma teoria da metaética por se encaixar em seus critérios.

A metaética é um campo da filosofia analítica que explora as fundações e os status dos valores morais, propriedades ou palavras as quais se encontram dentro de abordagens da ética. Ela estuda os interesses subjacentes que guiam a ética aplicada; analisa sistematicamente a linguagem, psicologia e ontologia moral. Ela não visa as opiniões que formamos sobre algo ser bom/ruim, virtuoso/vicioso ou certo/errado. Ao invés disso, ela visa questões sobre os status das opiniões formadas ao respondermos tais questões (CHRISMAN, 2016).

A primeira corrente desse campo filosófico foi o não-cognitivismo, a posição de que as verdades ou falsidades das pretensões de expressões de crenças contidas em todas as afirmações morais não podem ser acessadas. É a defesa de um estado de não crença contido em todas as afirmações morais. Essa posição é contrária ao cognitivismo (corrente posterior), o qual é uma posição que defende as pretensões de expressões de crenças contidas em todas as afirmações morais bem como as verdades ou falsidades contidas nessas mesmas asserções morais.

Para justificar sua premissa, A. J. Ayer (1910–1978) partiu do princípio da verificação. Ele foi um empirista radical que acreditava na submissão da filosofia à ciência e no mundo como existente enquanto tratado dentro do escopo científico. Por isso, só podemos nos comprometer, em princípio, se uma afirmação de verdade puder ser verificada empiricamente, ou seja, ser verdade por experiência, ou se for uma verdade analítica, isto é, corresponder aos fatos da realidade por conta de seu significado. A. Fisher (2011) em ‘Metaética: Uma Introdução’ propôs um exemplo que explica o princípio de verificação na categoria empírica:

(a) Haverá uma pandemia de sarampo no ano de 2050.

Caso saibamos que em grande escala geográfica há um enorme grupo de pessoas com sarampo no mundo isso serviria de critério de verificação para justificar a sentença a. Aplicando tal princípio é possível de adquirir certeza científica sobre as verdades proposicionais, isso incluso nas proposições morais.

Enquanto isso os juízos analíticos são aqueles que verificamos de acordo com seu significado, como em:

(b) Todas as irmãs são do gênero feminino.

Tal proposição não é verificada pela experiência que possuímos para com o sujeito “irmãs” para adicionarmos a informação contida predicado “são todas do gênero feminino”. É verificado por conta de seu próprio significado; um juízo analítico é aquele no qual o sujeito é idêntico ao predicado. Assim, fica evidente a verificação apenas em razão do que significam os termos. Esse escopo foi proposto pelo filósofo I. Kant na ‘Crítica da Razão Pura’ (1781).

No seu livro ‘Linguagem, Verdade e Lógica’, Ayer aplica este princípio a qualquer um dos assuntos filosóficos. Segundo ele, a metafísica não é falsa pois ela simplesmente não possui um sentido: “O metafísico… não pretende escrever coisas sem sentido. Ele cai nele” (AYER, 1936). Um exemplo disso é falarmos sobre a possibilidade de existirmos ou não, como o cogito cartesiano, ou sobre a transcendência de Deus nos medievais. Tais coisas não são verdadeiras e nem falsas pois não podem ser verificadas, mas são piores do que falsas porque carecem de algum sentido. Assim, são declarações que soam como “blábláblá” ou declarações do tipo “televisão alto download no churrasco”. Ou seja, são piores do que se fossem falsas tendo em vista que não são empiricamente verificáveis.

Nesse sentido, como essa adequação para a verdade não tem como ser verificada, não se tem como chegar a verdades proposicionais como que matar é errado pois o certo e o errado, bem como as ‘verdades’ metafísicas, não se encontram nos critérios de verificação que os empiristas radicais buscam encontrar. Dessa forma, frases como “matar é errado”, comumente ditas por grande parte dos indivíduos também não possuem sentido. Isto porque as alegações morais são sobre nossos próprios estados mentais e isso seria algum tipo de cognitivismo, pois não-cognitivistas afirmam que uma afirmação moral significa a expressão dos sentimentos positivos ou negativos sobre algo. A ideia principal que norteia a teoria é uma ideia negativa na qual o pensamento e a linguagem moral não são sobre alguma coisa em particular.

Assim, “Matar é errado” seria como se expressar da seguinte forma: “Xô! Matar!”. Essas expressões podem ser positivas ou negativas. Os emotivistas dizem que se trata de uma questão linguística dos termos morais. Ayer acredita que por conta haver uma falta de justificação científica no cognitivismo, tendo em vista que não acessarmos os estados mentais cognitivos para a adequação da verdade contida nas crenças, não é possível se obter crenças morais. A classificação dos termos morais como certos ou errados não carregam em si valores de verdade ou falsidade. Quando o agente diz que X é errado, ele apenas vincula à X ao seu sentimento negativo, e não seria diferente de dizer “eu não me sinto bem com X”. Ele diz que a presença de um símbolo ético em uma proposição não acrescenta em nada ao seu conteúdo factual.

Tal compreensão tem fontes em passagens de David Hume[1], quando defende que a moralidade poderia ter mais a ver com o sentimento expresso pelos agentes morais do que o fato em si. O emotivismo conseguiria resolver problemas naturalistas — afastando-se da propriedade dos termos morais para focar na percepção individual da moralidade, tornando a reprovação dos elementos principais das discussões éticas. Suponhamos que um indivíduo exclame a seguinte frase:

(c) Você agiu erroneamente ao roubar esse dinheiro!

Dentro dos pressupostos emotivistas ele só está afirmando que “você roubou esse dinheiro”. O fato de ser errôneo ou não esse juízo só é mais uma informação adicional sobre o assunto, só é evidente minha sensação moral sobre ele. O tom peculiar de aversão quando acuso alguém de roubo é como escrever isto com pontos de exclamação. Esse tom ou exclamação não assere nada sobre a crença, apenas apresenta a expressão dela nos sentimentos do falante.[2] Já a frase:

(d) Você agiu rapidamente ao roubar esse dinheiro.

Nas palavras do autor há de fato uma informação acrescentada, pois a rapidez de algo descreve e acrescenta um fato empírico verificável na proposição. Já não se trata mais apenas da minha desaprovação moral generalizada como vimos na sentença c, mas de um conhecimento valioso para o significado factual da sentença. Isso afeta os significados da sentença de uma maneira distinta e relevante em comparação a uma sentença onde não fosse incluída a tal descrição de rapidez na sentença d. Isso se trata de um significado literal da sentença e descreve como algo aconteceu. Isso independe do sentimento do falante. Tal como podemos ver a seguir:

“Assim, se eu disser a alguém ‘Você agiu rapidamente ao roubar esse dinheiro’, eu estou afirmando algo mais do que se eu tivesse simplesmente dito: ‘Você roubou esse dinheiro’. Ao acrescentar que esta ação foi rápida eu estou fazendo uma afirmação adicional sobre o assunto. Eu estou dizendo que ela teve a característica de ter sido feita com rapidez, em contraste com a de ter sido feita lentamente. ‘Rapidamente’ realmente acrescenta algo ao significado literal da sentença. Ela serve para descrever algo como era, independentemente do falante. Ela serve para dizer o que aconteceu foi em uma velocidade relativamente rápida.” (AYER, 1936, p. 107)

(e) “Hitler gosta de matar judeus”.

Isso seria como “Hitler sente empolgação ao matar judeus”. Ou se Hitler supostamente afirmasse que “Devemos exterminar os judeus” ele expressaria algo como “Uhul! Vamos matar os judeus”. É muito claro que Ayer não pensa que as a palavras morais são sobre algo, pois ao adicioná-las a sentença não mudamos aquela coisa sobre a qual a sentença fala. Qualquer que seja o tipo de significado que os termos morais possuem, não pode ser o caso sobre o que eles são.

Ao adicionarmos, uma palavra ela nos dá uma analogia. Assim, se é inserido na frase “que diabos” essa analogia pode nos informar o que queremos expressar quando perguntamos “que diabos é o emotivismo?”. Mesmo sem teoria do significado podemos perceber que é uma coisa útil ser capaz de dizer algo como “que diabos” pois se pergunta sobre o que algo é, então possui uma função de conhecer o significado. Qualquer tipo de significado que as palavras morais têm não pode ser o caso sobre o que elas são.

Charles Stevenson, um contemporâneo de Ayer, o acompanhou em sua teoria emotivista, contudo, acrescentando que as palavras morais podem ser sobre algo mas saber sobre o que elas se tratam não é suficiente para compreender o seu significado. O significado não consiste em algo diferente daquilo sobre as quais elas são, e sim nas palavras morais consiste em algo mais do que aquilo que elas tratam. É com isso que Stevenson elabora sua Teoria dos Interesses Tradicionais: os estados e interesses existentes são descrições de enunciados éticos que apenas dão informações sobre os interesses.

“Teorias de interesses tradicionais afirmam que os enunciados éticos são descritivos dos estados e interesses existentes — que eles simplesmente dão informações sobre os interesses… Não há dúvida que há sempre algum elemento de descrição nos juízos éticos, mas isso não significa tudo. Seu uso principal não é indicar fatos, mas criar uma influência. Em vez de meramente descrever os interesses das pessoas, eles os mudam e os intensificam. Eles recomendam um interesse em um objeto, em vez de afirmar que o interesse já existe… A diferença entre as teorias de interesses tradicionais e a minha visão é como a diferença entre descrever um deserto e irrigá-lo.” (STEVENSON, 1937, p. 16)

O elemento de descrição dos juízos éticos não indica um determinado fato, mas cria uma influência. Ao invés de descrever os interesses das pessoas eles mudam ou intensificam esses interesses. Mas saber essas informações não são suficientes para entender seu significado, embora tenha um uso principal adicional.

(f) Isso é bom.

Dizer isto significa “eu aprovo isso — faça isso também”. Entretanto, não é possível estabelecer definições que nos dizem o que ‘bom’ significa, dando paráfrases que tem, essencialmente, o mesmo significado, da mesma forma que um dicionário poderia nos dizer que ‘homem solteiro’ significa ‘homem não casado’. Não existem outras palavras com exatamente o mesmo significado e é vago o que exatamente as palavras comuns da linguagem natural como bom significam. Uma sentença moral não é usada para descrever alguma coisa, mas também para criar uma influência.

Além disso, além das expressões das emoções já proposta, Stevenson trata da ideia de convencimento, i.e., se uma proposição expressa termos morais ela não tem somente essa expressão sentimental, ela possui também o potencial de convencer a outrem sobre uma determinada posição. Por isso ela aborda sua teoria do significado: a semântica das condições de verdade. Trata-se de ideias básicas que abordam a teoria de um significado. Esta abordagem espera que digam o que as sentenças significam. O significado de uma sentença de um nome é aquilo sobre o que ele é — seu referente — e se o significado de um predicado é sobre o que ele é — a similaridade que serve para demarcar uma sentença — e o significado de uma sentença é aquilo que consideramos para a sentença ser verdade.

Com isso podemos dividir os significados em dois tipos restritivos: de restrição comunicativa e de restrição composicional. Na primeira, usamos sentenças diferentes para comunicar coisas diferentes uns com os outros, então, precisamos de uma sentença adequada para a comunicação real ou para outros propósitos os quais a inserimos. Na segunda, partir das partes de uma coisa, se colocadas juntas, você pode descobrir o significado desta coisa.

(g) Max é kibochuk.

Nesta sentença você tem uma receita para considerar que essa sentença seja verdadeira. Para qualquer Max há um compartilhamento de uma similaridade demarcada por ‘kibochuk’ em ‘Max’. Se as condições de verdade determinam os significados isso é a receita para obter, a partir do significado das partes, o significado do todo (restrição composicional). O significado da sentença se trata da passagem dos significados linguísticos para os nossos propósitos comunicativos é imediata. Nós usamos uma sentença para comunicar que suas condições de verdade foram satisfeitas.

Tendo tudo isso em vista, podemos concluir que na visão de Ayer é de que saber o que é uma palavra não é necessário para entender seu significado, porque algumas palavras são significativas sem dizerem acerca de alguma coisa. Já Stevenson defende a ideia de que saber sobre o que é a palavra não é suficiente para entender seu significado, algumas palavras não são meramente sobre algo mas possuem um ‘uso principal’ adicional.

O emotivismo é, de modo geral, portanto, uma teoria não-cognitivista a qual afirma que não possuímos um acesso ao conhecimento da moralidade e por isso os termos morais se reduzem a falar acerca das nossas emoções. Isto por causa do argumento da igualdade mooriano no qual não se pode reduzir propriedades naturais a não-naturais, que os não-cognitivistas aceitam, e por conta de que as propriedades morais não passarem pelo princípio da verificação, empiricamente ou analiticamente, elas não dizem a respeito de nada. Nossas sentenças morais estão fadadas a serem apenas expressões de nossas emoções.

Agora pretendo expor brevemente a crítica hoppeana ao emotivismo. Hans-Hermann Hoppe em sua obra “Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo” criticou tal seguimento do não-cognitivismo como aplicação ao campo da moral. Isto porque, como já foi explicado, para o emotivista não há sentido nas proposições, tais como “grrrrr” ou “uau!”, estas apenas expressam sentimentos. Como para o não-cognitivista as proposições só podem ser de dois tipos, analíticas ou empíricas, se as proposições emotivistas forem analíticas elas não diriam nada a respeito do que é real, tendo em vista que as expressões morais são nada mais do que meras expressões do que estamos sentindo. Isto porque “se é tomada como analítica, então é um mero sofisma verbal, não dizendo nada acerca de nada real, mas antes apenas definindo um som por outro, e o emotivismo deve então ser uma doutrina nula.” (HOPPE, 2013, p. 124)

Caso elas sejam empíricas, seja ela verdadeira ou falsa, estaria apenas definindo um fato histórico de como certas expressões são usadas no passado. Isso acarreta que em si elas não teriam nenhuma razão para serem do jeito que são, mas teriam que ser do mesmo modo no futuro também. Hoppe apoiou que:

“Em qualquer caso, verdadeira ou errada, seria apenas uma proposição definindo um fato histórico, ou seja, de como certas expressões que têm sido usadas no passado, que em si mesmas não ofereciam nenhuma razão que fosse, porque teriam de ser o caso no futuro também, e então porque deveríamos, ou antes, não deveríamos procurar por enunciados normativos que fossem mais que expressões de emoções naquilo que significam serem justificáveis.” (HOPPE, op. cit.)

Além disso, ele argumenta também que se ela possuir uma terceira via perderia todo seu peso. Tendo em vista que frases como “uau” não possuem nenhum valor cognitivo, mas apenas sentimentos expressos, não há qualquer razão sequer para seguirmos isso enquanto norma, pois cada indivíduo agiria conforme suas emoções. Não haveria nada que pudesse ser seguido que evitasse eles seguirem seus próprios sentimentos. E dado que os juízos morais para os não-cognitivistas nada significam, não há nada o que prescrever sobre as ações morais dos indivíduos. “Tal como um enunciado normativo não seria mais do que o latido de um cão, então a posição emotivista não é mais do que comentário em forma de latidos, acerca de latidos.” (HOPPE, op. cit.)

Portanto, o emotivismo não é uma posição consistente. Esta posição não-cognitivista não possui significado, não podendo se encaixar como uma posição analítica, pois as emoções expressas nos enunciados não possuem sentido, como também não pode ser empírica dado que os sentimentos passados não possuem sentido que possa servir de conhecimento valioso para ser aplicado no futuro, assim também não há possibilidade de terceira via pois o “oba!” de outra pessoa pode não coincidir com o meu. Sendo assim, a posição emotivista se mostrou autocontraditória e sem o valor epistêmico enquanto metaética para guiar a ética aplicada — seu objetivo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AYER, A. J. Language, Truth and Logic. Ed: Penguin; Edição: New Ed (26 de abril de 2001).

STEVENSON, Charles L. Ethics and Language. Cap. 1: Os Problemas da Metaética. 1º Edição: Imprensa da Universidade de Yale (1944).

STEVENSON, Charles L. Ethics and Language. Cap. 2: A Virada Não-cognitivista. 1º Edição: Imprensa da Universidade de Yale (1944).

SCHROEDER, Mark. Não-cognitivismo em Ética. Ed: Routledge. Published in March 9th 2010 (first published June 2009).

FISHER, Andrew. Metaethics: An Introduction. Ed: Routledge; Edição: 1 (13 de agosto de 2014).

CHRISMAN, Matthew. What Is This Thing Called Metaethics. Ed: Routledge; Edição: 1 (13 de outubro de 2016).

HOPPE, H.H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo. Ed. Instituto Ludwig Von Mises Brasil; Edição: 2 (2013).

[1] Filósofo empirista e naturalista da modernidade.

[2] “O tom, ou os pontos de exclamação, não acrescentam nada ao significado literal da sentença. Eles apenas servem para mostrar que a expressão dela está presente em certos sentimentos no falante.” (AYER, 1936, p. 107)

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