Nós precisamos falar sobre a Psicofobia

Eu a conheci numa sexta-feira.

Olhos rígidos, o formato do rosto decorado por um meio sorriso obsceno. Tinha um capuz surrado por onde se velava publicamente. Nem respirar parecia; estava tão mortinha quanto a planta mal-arranjada que a bibliotecária havia pousado sobre o bidê da escrivaninha. Nós nos encarávamos e trocávamos semblantes de pavor como quem testemunhasse um assalto às três da madrugada, pela janela do apartamento, sem poder intervir. Tragamos um repúdio tão baldio uma pela outra que mal conseguíamos conversar. Não mais.

Lembro-me com perfeição da nossa tese inicial. Nós não nos conhecíamos. Por imprevisibilidade, nos esbarramos na entrada da biblioteca; Ela, vazia das mãos, e eu, esparsa nas obras de Stephen Hawking (maldito que incitava minha paixão não mútua pelo universo). O barulho de quatro livros quebrando o silêncio e rangindo o chão degradado de uma biblioteca de noventa anos. Na minha consciência mais profunda, meu Dia Ruim berrava às pressas tamanho constrangimento que havia sido. Quão horrível era o que eu acabara de fazer. Ajustei os óculos a tempo de constatar um sujeito se abaixar ao meu lado e recolher um dos livros. “Eu não vi você. Me desculpe.” Minhas bochechas arderam. Três segundos depois, ele elogiou o livro. Concordei (mesmo sem saber de qual se tratava), e finalmente ousei volver para o desleixado que não enxergou um ser humano com quatro leituras em mãos. Ah, ele. E lamento não ter enxergado Ela também. O capuz ainda estava ali. Porém, recordei-me das sardinhas transtornadas que pendiam abaixo da rispidez dos olhos castanhos.

Nós paramos para conversar depois de eu ter cometido um dos meus maiores erros: aceitado a ajuda de quem tinha acabado de me arruinar. Não havia volta. Falamos sobre buracos negros e discutimos equivocadamente sobre Einstein acreditar em Deus ou não. Perguntou por que eu me contraía às vezes. Senti que estava sufocando um segundo depois (e coloquei os dedos embaixo do nariz para certificar-me de que havia ar). Não respondi. Quase como um profeta, ele começou a falar dos problemas dele no mesmo instante. Contou-me de quando não conseguiu passar no vestibular e das lutas diárias que enfrentava com a ex-namorada. Fiquei mal por ele, admito. Quase me permiti absorver tanta frustração explícita daquele jeito. Só me assustei um segundo depois. “E, mesmo assim, nunca fiz essas frescuras de querer me suicidar ou me cortar. Entende?” Ali se apresentou Ela. Tétrica, seca, sem empatia alguma. Me doeram os ouvidos. Queria voltar uma hora atrás e ter decidido cobrir o outro corredor da biblioteca.

Fiquei inerte por pelo menos quatro minutos, com os olhos presos na mesinha de mármore onde estávamos sentados. A mágica se esvaiu ali.

Enfim, o encarei. Não ele, mas Ela (que me engolia com um par de olhos hostis) e só então lembrei-me de um dos porquês dela me alvoroçar tanto. Acho que, naquele dia, ainda não tinha a conhecido pelo nome. Se identificava como Psicofobia. Tão apática e arrogante quanto a carcaça onde se sustentava.

Encarei-a nos olhos e cuspi palavra por palavra, impiedosa e cautelosamente. Inseri todas minhas crises e até a pequena Depressão que me assolava nos que apelidei de Dias Ruins. Fiz Ela escutar cada tentáculo da realidade que era suicídio e auto mutilação, e ainda não saí satisfeita. Tolerei minha dor e minhas guerras cotidianas serem abreviadas por alguém que mal sabia o significado de luta. A Psicofobia é assim. Se apresenta com um rostinho atraente e algo que quebre a perversidade que carrega no olhar, então se inclui com precipitação. Quando menos expectamos, Ela se expõe em frases vagas e brutas. Nos diz que o próprio sentir é superficial e que nossos infortúnios emocionais são as piores atrocidades que o ser humano comete a si mesmo.

Saúde mental é um assunto muito complexo para mentes ocas e pequenas de amor ao próximo, queria tê-la deixado ciente disso. Nada do que sentimos é frescura ou vagueza que mereça ser largada em segundo plano. Nós somos relevantes. Nós merecemos que nos conscientizem dessa forma.

“Você deveria fazer a barba e livrar-se Dela”, finalizei.

Por fim, saí com Uma Breve História do Tempo poupado entre os braços, e não me incomodei de olhar para trás.