Destinatário: 

José da Silva de Morais Lima—Um de Janeiro do um D.M. — Avenida 1 — Rua sem número/nome — Qualquer lugar—Bloco um, apartamento cento e um.


Querido,

E depois de tanto tempo é como nunca ter andado sozinho pela noite. O risco do horizonte me parece tão desinteressante que acabo de me sentar em frente a um desses prédios antigos para ver por cada uma das janelas. Poderia até passar horas aqui fitando cada uma dessas coisas. Não que haja um sentindo, uma coisa que me tome a consciência. É só que adoro parar e ver como as pessoas são, o que elas gostam de fazer, qual a cor de seus olhos, qual seus trejeitos, quais suas manias, quais vocês eles são. Gosto mesmo e nem é uma questão concreta. Simplesmente um modo de ocupar a mente, de lembrar coisas que já nem lembro mais. É só um gostar. É só me perder pra entrar naquele outro corpo por alguns instantes e.

Em certos momento adoraria ser igual aos outros. A-d-o-r-a-r-i-a. Eles parecem tão bem, eles parecem tão seguros em si. Eles tem um e o outro. Não são tortos, sozinhos. Eles estão sempre acompanhados por dois ou mais, sempre estão de mãos dadas. E a solidão não é assim. A solidão é como dançar no escuro uma marcha fúnebre de trás pra frente. É como perder a noção do sólido e cair, cair, cair em um escuro. Não há onde segurar, quem olhar, onde olhar. Não é como selar os lábios no do outro, mesmo não adentrando a língua nunca, e sentir afeto. É necessitar falar, fazer, se ajoelhar, servir de apoio e sempre estar caindo. Nunca parar. Parar.

Agora aqui sentado em frente a esse prédio percebi que não estou tão só. Vejo que no primeiro andar tem um senhor de cadeira de roda se locomovendo de um lado para o outro como de dançasse. E, bem, se esse blues for em sua casa eu poderia até arriscar bater ali e pedir pra dançar. E não que me falte vontade, não que me falte loucura pra isso. É só que. É só que não há um motivo concreto para tudo isso. Não há algo que tenha sentido. E sentido é essencial, meu bem. Depois que comecei a viver nesse mundo descobri que é preciso ter sentido em tudo, tudo. Até mesmo para abrir os olhos todos os dias da manhã. Deve haver sempre um sentindo em que seja concretamente plausível para justificar a sua ação, estado. [Okey, vou tentar usar meu vocábulo sujo e deixar esse dialeto burguês para depois.] Falando em sentindo. Falando nisso. Já não compreendo o sentido de nada. Mas para que esse tal de sentido?

Vagamente poderia olhar para os outros andares, mas algo me prende aqui neste primeiro. Algo neste blues, algo neste velho. Deve ser o cheiro de mofo, as roupas sem nexo, os móveis estranhamente da década passada. Talvez seja esse vintage todo. Ou não. Logo, veja bem querido, logo estou lembrando de Vanessa da Mata me cantando aquele verso: “O velho gasta a solidão em meio aos pombos na praça da Sé. O pôr do sol invade o chão do apartamento.” Sabe, que logo depois ela recita algo sobre o velho ser eu. E veja só, veja bem, estou nesse dilema eterno com a minha solidão. Estou apreensivo por nunca, nunca, nunca saber como acariciar alguém sem lhe espetar com minha adaga logo depois.

Suspiro. Sus-pi-ro.

[Agora acabo de entrar em uma vertente que não me caberia dentre essas palavras. Se depois do eu, vem o tu, quais o motivo para pular para o nós?]

Olhei para as minhas mãos e arrisco o palpite de que não há motivos para me aproximar de alguém. Não há motivos pra compartilhar o mundo que tenho construído com tanta esmera. Juro que eu pretendia criar muros altos, que eu pretendia colocar uma ponte corrediça, que poderia até ter um lado ao redor e uns arqueiros nas torres altas. Agora não sei se quero tanto isso, não sei se quero me perder no meio de todo esse labirinto que só há de me afastar de mim mesmo. E mesmo imaginando campo verdes dentro desse muros, mesmo assim, não consigo pensar em mais nada além de não construir nada. De não ser nada. Só de imaginar de que não adianta criar grandes fortes se não há se quer um homem neste mundo que se arrisque a ultrapassar a barreira.

Lembrei de um homem que me surgiu certo dia. Ele tinha cheiro bom, ele tinha gosto bom e ele era bom. Era. Era um olhar negro e duro. Na verdade, nem lembro dos olhos. Lembro que depois vi outro que me tocou de leve, que me deixou em dúvida. Que me aconchegou. Lembro de homens que com seus segredos foram me tomando, mas, mas, mas, mas segredos são revelados. Segredos revelados não servem de nada. Agora, de súbito, veio um pequeno garoto que sentou ao meu lado e apenas sorrio. Veja, bem, ele sorrio. [O velho sorrio ali de dentro e penso que ele talvez tenha lembrado dessa mesma coisa. Ele tenha lembrado de alguém que lhe sorrio, lhe estendeu a mão. Talvez essa música que começou a tocar seja a que ele resolveu dedicar a outra pessoa e agora ele está lembrando da mesma forma que estou. Ele lá, eu cá.] E depois que o garoto sorrio não pude fazer mais nada. Tudo bem, minha atração foi completamente sexual, no entanto, senti uma vontade de lhe tomar nos braços. Senti necessidade de ser tomado e acolhido. E não pedi muito, não pedi demais. Sempre sabendo que aquela seria minha mera criança, lhe tomei em meus braços e sussurrei minha canção de ninar em seus ouvidos, ele chorou de desgosto, toquei em seu corpo e me deixei imaginar que tudo aquilo poderia ser da forma como planejei. Não que estivesse pensando que tudo seria para toda uma eternidade e que este menino seria meu homem, mas é que uma mãe nunca aceita que seu filho precisar ir. E vai sem olhar uma segunda vez para o ninho. Foi. Pensei.

Preciso levantar agora. O velho fechou as cortinas e sentado assim não vejo nenhuma janela boa pra espiar. Nenhuma janela boa pra descobrir um ponto. Nenhuma vida dando bobeira pra entrar nos meus pensamentos. E o blues também se foi [como o meu menino] e agora já perdi a linha do raciocínio. Para a puta-que-pariu.

[Transpiro]

Mas veja, acho que a questão é que estou construindo um castelo. Mesmo dizendo que não quero, que não vou, que não há como. Já preparei quase tudo, já deixei meu tempo livre, meu dinheiro guardado. Meus lugares prontos para serem frequentados. Até pensei em deixar um tempo vago, em largar a vida pro alto e simplesmente sorrir. Mas não sem juntar muito muito muito dinheiro. Trancar-me-ei. Mesmo com os dentes estranhamente amparados um ao outros é como se desse pra correr sem me preocupar no gramado que cuido com tanto fervor. Não que eu tenha a necessidade de um Deus ao meu redor, de vários Deuses, de pessoas. De você. É só que eu adoraria ter um lugar para me abrigar. É só que agora eu adoraria ter onde recostar as costas sem sentir esse vazio ir se acumulando. Ter um braço quente e forte o suficiente pra me suportar. Olhos em que eu pudesse me debruçar sem sentir que estava caindo no abismo. [Ao menos é o que sempre pensei]

E eu que só queria um pequeno apartamento, um animal de estimação, um emprego modesto, uma varanda de onde se pudesse ver toda a cidade. [Esse meu castelo material] Eu que só queria alguém que entendesse que cada movimento pode ser divino. Que cada movimento pequeno como olhar nos olhos pode transcender a alma. Que eu adoro dançar e fazer silêncio pra demonstrar muito mais que as palavras podem. Eu que só queria todos os livros do mundo, ou os que coubessem em minha estante, junto com todos os CDs do mundo, ou os que dessem pra ser comprados em uma promoção qualquer pelo meu salário modesto. Eu que só queria poder andar por ai ajudando os outros, conhecendo os outros. E eu que fui. Fui.

Continuo a caminhar e não há como voltar atrás e pensar as mesmas coisas. Vi que o caminho trilhado agora não pode ser o mesmo, não vai ser nunca o mesmo. Talvez olhe para aquela janela do velho daqui a umas duas horas, passando pelo mesmo local que passei hoje, e nem o ache tão interessante, mas sim o homem lindo que mora logo dois andares acima e que se exibe como um belo exibicionista que é. Voltarei e não repararei mais no blues, repararei sim no brega, não sentirei amor e compaixão, sentirei asco. Agora continuando a caminhar percebi que o sol já não sorri com tanta força e afinal o que é essa porra de sol se não essa junção de elementos que reagem lá longe?

[Abaixo a cabeça. Suspiro.]

E tudo vai caminhando, tudo vai passando e nada é o mesmo que foi. Nada pode ser o que foi. Sorrir. Amar. Nada vai ser como antes. Monto meus próprios roteiros e eles não são tão fantasiados. Eles não são ilusões. São construções sólidas, são criaturas vivas e humanas. Adultas. São a imagem de algo que deve ser. De algo que é e apenas é. Agora a única ilusão é a de dormir mais de dez horas quando se dorme apenas seis. A ilusão só apenas a dos números na conta. Ilusão agora… Bem, afinal, entretanto, todavia, mas. O que sobrou para iludir? O que sobrou para amar?

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