
Os palpites para o Oscar 2017
Foi um ano com uma média boa. Muitos bons filmes, dois grandes filmes, mas curiosamente a disputa nas categorias principais está polarizada entre filmes que não gostei tanto, o mediano La La Land e Moonlight.
Um breve comentário sobre os filmes.
A Chegada é um filme pequeno e poderoso sobre aceitar seu destino, sobre dialogar e ter empatia. O Denis Villeneuve tem um controle delicado daquele universo e confia em Amy Adams, em grande atuação, para ser nosso referencial naquele evento que muda toda a humanidade. A mensagem do filme fica no fio da navalha entre o bonito e o melancólico, o que só aumenta a sua força.
Um western ambientado no deserto de esperanças que surgiu após a crise de 2008. A Qualquer Custo é o epitáfio do sonho americano, contado a partir dos olhos daqueles que perderam suas ilusões e daqueles que nunca foram enganados. Um filme sobre decadência e condenação ambientado em um mundo tão duro, que você sequer vai ter direito a escolher sua última refeição. Um filme que me lembrou Onde os Fracos Não Tem Vez, e isso não é pouca coisa.
Até o Último Homem é um grande filme de guerra. Quer dizer, é um filme com grandes cenas de guerra, mas apegado aos clichês mais simplórios do gênero na sua concepção. Mel Gibson dirige sem o menor pudor de comparar o protagonista pacifista com Jesus Cristo, algumas linhas de diálogo são constrangedoras e, para piorar, no final o diretor põe um dos personagens reais da história contando uma passagem do filme. Eu não precisava dessa carteirada. O filme mirou no Cristo, mas acertou no G. I. Jesus.
Eu sou fã confesso do ator Denzel Washington e já babo sobre Viola Davis desde Dúvida. E é maravilhoso poder ver esse dois juntos atuando com tanta intensidade, porque é isso que salva Um Limite Entre Nós (que daqui pra frente eu vou chamar de Cercas). O roteiro é baseado numa peça e seu autor não entendeu a transposição do teatro para o cinema. Para piorar o diretor Denzel Washington limitou a linguagem e filmou como uma espécie de teleteatro, o que enfraquece uma história belíssima, mas não tira — ainda bem — o brilho da atuação do casal principal.

Falando em esvaziar histórias interessantes, Estrelas Além do Tempo é o campeão nesse quesito na lista. Eu queria muito saber a história daquele grupo de mulheres. Mais do que isso, é fundamental fazer o resgate histórico daquelas mulheres negras que ajudaram a construir a Nasa e a levar os estadunidenses à lua. O problema são as decisões do roteiro e da direção, que deixam o filme formulaico e anacrônico. Em mais de uma ocasião o espectador é subestimado e o filme se presta ao papel de explicar detalhadamente o que pode ser visto na tela. Uma pena.
Estamos prontos para dizer que La La Land não é tudo que estão dizendo sobre ele? Os números musicais são divertidos, o casal tem química, a direção de arte é muito bonita. Mas o roteiro tem um problema, e para mim o filme é um pastiche dos musicais de Hollywood. O que não seria um problema se não fosse a intenção do longa fazer uma grande homenagem a esses clássicos. O conflito real do filme é “nos amamos mais que tudo, mas não nos importamos um com o outro o suficiente para tentar fazer esse amor dar certo”.
Um começo bom, um final ótimo, mas um meio dispensável. Lion poderia ter uns 20 minutos a menos, ou mesmo ser um curta, e não faria falta o miolo do filme. A surpresa boa foi ver a Nicole Kidman atuando bem.

Moonlight é um filme muito bom. Roteiro econômico, grandes atuações direção segura, sensível e comedida, fotografia, direção de arte. O Barry Jenkins tem uma história delicada nas mãos, e escapa de qualquer armadilha de pieguice com esperteza. Tem uma coisa em Moonlight que me encanta: é um filme sobre um jovem negro gay, mas o filme não é sobre ele ser negro ou gay, e isso é inclusão. O problema é a carga de nouvelle vague, que me afastou demais do longa. Mas nesse caso o problema sou eu. ;)
Só de pensar em Manchester à Beira-Mar eu tenho vontade de chorar. É um grande filme, o único que rivaliza com A Qualquer Custo. Às vezes a pessoa enterra a dor tão fundo, que ela vira uma espécie de tampão e impede que outros sentimentos apareçam. É uma panela de pressão de sentimentos ruins tampada por aquela dor enorme. Não é incomum que o colapso desse sistema instável comece com o transbordar da raiva. O confinamento do protagonista de Manchester à Beira-Mar é tão poderoso que ele mal respira. Como se toda a dor o tivesse mortificado por dentro, e ele só vive quando a raiva explode. Mesmo diante do oceano ele está aprisionado em uma solitária minúscula, onde mal sobra espaço para qualquer outra coisa além da raiva e da dor.
Os palpites
Melhor filme
Vai ganhar: Infelizmente La La Land
Quem eu prefiro: A Qualquer Custo
Melhor diretor
Vai ganhar: Damien Chazelle (La La Land)
Quem eu prefiro: Entre os indicados, Kenneth Lonergan (Manchester), ou Denis Villleneuve (A Chegada). O trabalho de direção do Chazelle é bom, mas não é o melhor na lista. Não terem indicado o David Mackenzie foi um duro golpe.
Melhor roteiro adaptado
Vai ganhar: Moonlight
Quem eu prefiro: A Chegada, mas não vou ficar chateado com a vitória de Moonlight.
Melhor roteiro original
Vai ganhar: (Tomara que eu esteja errado) La La Land, mas Manchester corre por fora.
Quem eu prefiro: A Qualquer Custo
Melhor ator
Vai ganhar: Casey Affleck (Manchester)
Quem eu prefiro: Denzel Washington (Cercas), que pode tirar o prêmio de Affleck, envolvido em uma denúncia de assédio.
Melhor ator coadjuvante
Vai ganhar: Mahershala Ali (Moonlight)
Quem eu prefiro: Cruel. Eu sou fá confesso do Jeff Bridges (A Qualquer Custo), mas já vi ele fazendo esse tipo em Bravura Indômita e Coração Louco. O Mahershala Ali tem 15 minutos de tela e entrega o personagem mais esférico da temporada. Se um dos dois ganhar fico feliz.
Melhor atriz
Quem vai ganhar: Emma Stone (La La Land), o que é uma pena que em um ano em que a categoria está muito boa, premiarem a atuação mais fraca.
Quem eu prefiro: Que ano maravilhoso. Até a Meryl Streep foi indicada por uma grande atuação, e não por inércia. Mas dentre as indicadas a minha escolha é Ruth Negga. Exceto Stone, qualquer uma que ganhar me deixa feliz.
Melhor atriz coadjuvante
Quem vai ganhar: Viola Davis
Quem eu prefiro: Viola Davis. Não, peraí. Davis merecia o prêmio de melhor atriz, deveria ter sido inscrita ali.
Melhor filme estrangeiro
Quem vai ganhar: Era Toni Erdmann, mas o Trump pode ter virado a chave para O Apartamento ao proibir diretor Ashgar Farhadi de entrar nos EUA.
Quem eu prefiro: Toni Erdmann e O Apartamento são dois grandes filme, então vou torcer mesmo por Um Homem Chamado Ove, filme pequenino e singelo que me fez chorar e rir um bocado.
Melhor fotografia
Quem vai ganhar: La La Land, apenas por estar ali.
Quem eu prefiro: Não vi Silêncio, um dos indicados, mas torço para Moonlight, e não vou ficar chateado se ganhar A Chegada.

Melhor montagem
Quem vai ganhar: La La Landzzzzz
Quem eu prefiro: Não terem indicado Manchester aqui foi covardia. Então fico com A Qualquer Custo.
Melhor design de produção
Quem vai ganhar: La La e eu não aguento mais digitar esse nome
Quem eu prefiro: A Chegada
Melhor trilha sonora
Quem vai ganhar: Um musical e tal. Preciso falar mesmo?
Quem eu prefiro: Jackie
Melhor maquiagem e penteado
Quem vai ganhar: Star Trek
Quem eu prefiro: Um Homem Chamado Ove
Melhor edição de efeitos sonoros
Quem vai ganhar: Até o Último Homem, mas poder ser que La La Land ganhe essa de esperto
Quem eu prefiro: A Chegada

Melhor mixagem de som
Quem vai ganhar: La La Land
Quem eu prefiro: A Chegada
Melhores efeitos visuais
Quem vai ganhar: Mogli: O menino Lobo
Quem eu prefiro: Mogli
Melhor figurino
Quem vai ganhar: Aqui tá embolado. O sindicato foi por outro caminho. Meu medo é os votantes caírem no papinho daquele filme lá. Eu acho que dá Jackie.
Quem eu prefiro: Jackie
