Intensidade
Para LB

Labirinto mutante
De carnes raízes espelhos
Os olhos de Borges sonham
Tamanha charada viva
Emaranho-me em densa trama
Num areal de vinhas doídas
Tateio-lhes a intimidade
Para achar uma saída
Deixo-as nuas, estateladas
Patas d'uma morta aranha
De herança o rasgo no peito
Mácula na memória
Esponjosas paredes
Tomam-me o ar dos pulmões
Arranho-as e nada
Abocanho-as e nada
Abraço-as enfim
Entregue à vã esperança
Jogam-me em fria sala
Peito vazio, tripas pesadas
Miro-me mil vezes
Espanto envidraçado
Destaca-te na distância
Que sem amanhã se encurta
Há uma porta fugidia
De pesada aldrava rústica
A ela franzimos o cenho
Em mirada temerária
Apalpo-a com receio
Investigo-lhe as miudezas
Queres com força arrombá-la
Tamanha é tua jornada
Olhamo-nos em descrença
Que desvanece enternecida
A porta juntos abrimos
Ao sublime som da incerteza