O fardo de (não) ser (extra)ordinário
Renato Russo tinha 22 anos quando formou o Legião Urbana. Antes, já tinha feito parte de uma outra banda, o Aborto Elétrico, na qual escreveu alguns hits como “Música Urbana” e “Fátima”. E Legião Urbana era grande nos anos 80 e 90, sendo que Renato reinava nos palcos com sua dança descoordenada, mas perfeita para as letras que representavam uma geração que buscava a liberdade, a democracia e um propósito maior do que simplesmente ser. Junto com os Paralamas do Sucesso, e outras bandas que mesclavam melodias com sentimentos, Legião Urbana marcou minha adolescência de uma forma tão impactante que eu sabia cantar praticamente todas as músicas de cor e salteado.
Renato fez tudo isso e se foi aos 36 anos. Eu lembro do dia em que ouvi nas rádios que ele foi amaldiçoado pela mesma doença que roubou a voz de outras celebridades que tocavam nossos corações, como Cazuza e Fred Mercury. E eu chorei. Chorei copiosamente como se eu tivesse perdido um melhor amigo, que me incentivava a ir além, e que também foi uma das inspirações para que eu quisesse ser jornalista e pudesse, algum dia, impactar muitas pessoas com as minhas histórias bem-escritas sobre o mundo.
No mês passado, eu completei 36 anos. Diferentemente do Renato, estou com a saúde no lugar certo, mas o resto… Ah, o resto… O resto aperta meu coração. A vontade de completar mais, de me destacar de verdade em algo, comprime minha garganta com frequência. Cheguei aos 36 e o que eu fiz? Colecionei algumas frustrações, sonhos não realizados e a dor de perseguir caminhos pedregosos. A necessidade de ser boa de verdade, de impactar, de transformar o mundo, é o pesadelo que me persegue às noites. A sensação de ser dispensável, facilmente substituída, leva-me a questionar o propósito da vida e o meu papel neste mundo. O iminente perigo assombrado pela morte reforça o sentimento de incompletude e a sensação de incompetência por ser apenas ordinária neste mundo.
Lógico que, em alguns momentos, eu me sinto ingrata. Na verdade, em muitos momentos. Sei que tive algumas conquistas, mas junto com elas, ficou o amargo do timing incerto e do grande esforço despendido para que cada uma delas fizesse parte de minha vida. Entretanto, elas vieram. E isso se aplica desde no campo amoroso, no qual eu rasguei a minha juventude por sentimentos pela pessoa errada até encontrar aquele que falou sim para mim no altar, até no campo profissional, onde eu persegui uma trilha árdua de anos até conseguir trabalhar com o que eu mais queria e amava, que era Comunicação. Só que tudo isso se torna insuficiente porque eu quero mais. Não quero apenas ter um amor, quero ser a melhor nesse relacionamento, encantar com tantas histórias e replicar as absurdas cenas de filmes, ignorando a realidade e o fato de que a vida a dois é doce e totalmente imperfeita. Não quero apenas trabalhar na minha área, eu quero participar de projetos importantes, impactar aonde eu for e ser reconhecida por isso. Bem, e sobre fotos e textos? A mesma frustração e cobrança de querer ser ótima no que eu faço, de ser excelente, de simplesmente ser…
Acredito que não sou a única a me sentir assim. A cobrança social bate na porta e no coração de todos nós, indicando o tempo inteiro a nossa imperfeição. Reforçando o quanto somos comuns. O quanto compartilhamos os mesmos resultados, roubando nosso tempo enquanto nos preocupamos em como queríamos ser mais. A finitude é uma arma engatilhada e apontada para a cabeça, que limita nossos grandes feitos pela falta de tempo ou pela completa ineptidão em se destacar. E a todo tempo, olhamos para o outro e nos cobramos pelo fato de enxergarmos mais no ser alheio do que em nós mesmos.

Eu tento acalmar meus pensamentos e focar na minha evolução. Entretanto, apesar do Sol nascer para todos, a verdade é que nem todos nós vamos brilhar intensamente. Ser ordinário faz parte da vida e o contrário é mínimo, é o incomum. Porém, o tempo inteiro somos cobrados para sermos extraordinários em todas as facetas da vida, e as mídias sociais reforçam o quanto isso é possível. A sociedade tem se moldado em formas absurdas, como se fosse possível fazer o impossível. Como se fosse possível ter êxito absoluto em todas as áreas da vida. E enquanto alguns vestem essa ideia caricata e exigem a perfeição do outro, já que ao se olharem no espelho enxergam uma visão deformada da realidade e só observam nos demais a falta de algo (afinal, julgam-se perfeitos mas não aceitam o seu volume de defeitos e nem se esforçam para serem melhores), outros se frustram ao tentar ser excelentes o tempo inteiro, abraçando a falha como sua inaptidão para o mundo e a dor constante de simplesmente não ser.
Eu sinto essa dor. Alguns dias, e incrivelmente sempre perto do aniversário, de uma maneira sufocadora. Como se todos os esforços fossem insuficientes para eu me encaixar no mundo. Como se eu fosse invisível e as pessoas enxergassem apenas através de mim. Como se a minha passagem terrena fosse sem sentido, com a amarga missão de viver na beira da mediocridade sem conquistar cinco estrelas em nenhuma das tentativas. E o que é pior: eu tento. Eu me esforço. Eu me cobro, o tempo inteiro, para ser melhor, para simplesmente ser…
Há dias em que eu penso que eu realmente não me encaixo. Em outros, eu consigo observar a maneira insana com que ordinários cobram outros para serem extraordinários. A pressão impacta na felicidade, que deveria residir na beleza de enxergar exatamente a beleza de ser ordinário, de ser do bem, de conseguir simplesmente fazer. E quem sabe, no dia em que o mundo parar de exigir tanto (até porque ele nos dá um tempo limitado, o que reduz possibilidades de se destacar em muitas esferas), as pessoas voltem a se conectar com a leveza da sua existência e encontrem propósito em fazer a sua pequena (mas bela) parte: simplesmente viver.
