Pensamentos (bobos?) e um desejo

(…)

Estava com uns amigos do colégio antes disso, mas desci sozinho. Desci, sem pensar em muita coisa. Só no meu objetivo, que era de chegar ao final e depois voltar. Subir tudo.
No caminho da volta, à uns metros de mim, uma mãe e sua filha desciam as pequenas escadas. A mãe resmungava algo e, no mesmo instante, deu um beliscão ou um tapa na garotinha, que fez uma cara de choro, olhando nos meus olhos. Sua expressão era totalmente de dor, medo e desespero. Ela parou perto do poste e pôs o ombro na frente do rosto. Nisto, a mãe disse "Venha cá menina, antes que eu te esmurre." A pobre garotinha não se moveu. E a mãe, gritando, quase perdendo a voz: "Vou precisar te buscar aí? Para de graça, menina! Vamo." A menina cedeu e se moveu, por fim, chorando... Pobre garotinha. Que Deus a proteja.
Comecei a pensar sobre a educação familiar, e como ela é aplicada. Há duas formas: a educação por diálogo e a educação por agressão física. Um trabalha com argumentos concretos (ou nem sempre, pois trata-se de crianças) e o outro trabalha com o medo.
É óbvio que a mais eficaz entre as duas é a por agressão física, pois a criança não irá fazer tal coisa por medo de apanhar, o que pode trazer, no futuro, sérios problemas de intercomunicação e traumas. Pensei em como uma mãe pode querer isso para o próprio filho, bater para educar; esmurrar, deixar marcas, cicatrizes, enfim, para educar. E o que me deixa mais frustrado nisto é que eu não posso fazer nada. A vida no sistema é individualista. O que eu penso não é exatamente o que as pessoas ao meu redor pensam. Enquanto penso sobre o amor, sobre o dia que está lindo (por mais que esteja um calor do cão), Paulo pensa no ódio do vizinho por ele ter deixado o cachorro sair e este ter urinado no pneu de seu carro. Pensa nas palavras de baixo calão que disse pro vizinho, e como se orgulha disso. Pensa em como pôde ir ao trabalho com roupa social neste calor do inferno, e xinga a sua empresa por não ter um ar-condicionado. Pensa em como a vida é ruim, todos os dias, e xinga, bate, dá socos ao volante. Pensa em como pode esquecer, todos os dias, de deixar o seu cachorro no quintal e este acaba rasgando parte das cortinas e do pano do sofá. Daí, quando Paulo chega, ele se utiliza novamente dos palavrões e, agora, da agressão física.
Só que Paulo esquece (ou ignora) que o vizinho não teve culpa se o cachorro saiu e urinou no pneu de seu carro. Foi um descuido, claro, mas faz bem para a alma sorrir e agir de forma positiva e perdoar, ao invés de ser egoísta e julgar. Paulo esquece que aquilo o que ele faz para o próximo, seja bom ou ruim, retorna à ele. Paulo esquece de ser mais do que grato por ter um emprego, por ganhar bem e tudo mais; esquece de agradecer a cada dia por ter um carro e poder estar apto a trabalhar. Esquece que o cachorro também tem sentimentos, assim como seu vizinho, e o cachorro só rasga as cortinas porque quer brincar, porque se sente sozinho ao longo do dia e, quando Paulo chega, quer tê-lo por perto. Mas Paulo, coitado, é esquecido e xinga e bate no pobre cachorro, esquecido também de que foi ele quem escolheu cuidar e dar amor, coisa que o outro dono (também) não fazia. Esquece, também, que existem bilhões de pessoas acordando, neste exato momento, numa cama de hospital, pessoas estas que estão há dias ou até mesmo anos olhando pro teto branco, sem poder sair, sem poder ver como o mundo está, lá fora.

Mas estas pessoas não são esquecidas como Paulo; elas agradecem ao extremo por terem, simplesmente, aberto os olhos e ainda saberem falar, se mexer. Por ainda estarem vivas, ainda que limitadas por certo tempo.
(...)
Enquanto eu subia, pensei mais um pouco. Olhei para cima, para as nuvens, para a imensidão azul que é o céu e pensei: como sou sortudo! Sortudo por não pensar no que as pessoas têm de ruim e valorizar o que elas possuem de bom. E mais: sortudo por pensar como Marcelo Camelo, ao indagar que “quem é maior que o amor?". O amor vence tudo. E não falo do amor só em relacionamentos amorosos. Falo do amor em todas as suas formas, concretas ou não. A maneira de agir em determinado momento; o prestar atenção na aula de um professor, coisas simples, mas que possuem um grande significado se forem levadas ao pé da letra e analisadas cuidadosamente. São nos pequenos atos que o amor é brilhante. Afinal, quem nunca conheceu alguém no ponto de ônibus num dia em que não se está para conversa? Daí conversa vai e vem, e veja só! Você está tão entretido que não quer mais ir embora!
Mas, o que eu queria mesmo é fazer com que as pessoas amem ao invés de só reclamar do que já é rotina, do que é banal, coisas bobas. Ainda é o que eu mais quero.

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