A INDEPENDÊNCIA DE CUBA

O bloqueio económico a Cuba — que Obama, inteligentemente, quebrou há pouco tempo — foi, porventura, uma das mais estúpidas, inúteis e inconsequentes orientações diplomáticas dos Estados Unidos da América. Decretado em nome da cruzada anticomunista, o bloqueio teve fundamento na política paternalista dos norte-americanos que, sobretudo depois de 1945, assumiram o papel de principais defensores e vigilantes da Democracia no Mundo. Essa atitude serviu, sobretudo até ao início deste século, de pretexto para as mais descaradas ingerências nas políticas e até na determinação e sustentação de muitos governos da América do Sul e da América Central, e nunca conseguiram esconder, dos mais lúcidos observadores, os seus poderosos interesses económicos na região — como em outras, aliás. No caso específico de Cuba, um exemplo máximo de resistência, convém recordar alguma História.

Durante o século XIX, os Estados Unidos foram exercendo, progressivamente, um controlo económico cada vez mais expressivo sobre Cuba: a pérola das colónias espanholas nas Antilhas. Em 1898, à beira do final do século, na sequência de mais um sobressalto na já longa guerra pela independência, o histórico líder independentista, José Martí, pôs em causa o poder de Espanha. Na sequela desse conflito, Washington enviou para o porto de Havana o cruzador Maine. A explosão — absolutamente acidental — desse navio de guerra serviu de casus belli perfeito para uma intervenção dos EUA no conflito, ao lado dos revoltosos. Em poucos meses, os espanhóis foram derrotados e concederam a independência a Cuba no dia 10 de Dezembro desse ano. Com a Espanha fragilizada, os EUA, através do Tratado de Paris, compraram Porto Rico e as Filipinas, e ganharam um sólido controlo sobre Cuba que, ainda assim, se manteve formalmente independente.

A partir dessa altura, as grandes companhias americanas apoderaram-se, a preços irrisórios, de inúmeras propriedades de cana-de-açúcar, tabaco e café. A United Fruit Company, uma poderosa empresa americana instalada por toda a América Latina (do Chile à Colômbia), constitui-se como um verdadeiro Estado dentro do Estado cubano, à semelhança do que já fazia ou veio a fazer em outros países. Tinha a sua polícia, as suas escolas, e por aí fora, como actualmente na Base das Lajes, onde não compram rigorosamente nada à economia local.

Durante muitos anos, os Estados Unidos da América controlaram 80% da produção açucareira e dominaram os caminhos-de-ferro, os telefones, os bancos e a electricidade. Esse domínio, também materializado na exploração efectiva da mão-de-obra indígena, criou no povo cubano uma compreensível aversão aos norte-americanos.

Em 1959, a revolução dos “barbudos” da Sierra Maestra, liderada e chefiada por Fidel Castro, depôs o ditador Baptista, títere do governo de Washington, e instaurou um regime independente dos EUA, ainda que Castro, de início, vá afirmando que se trata de uma revolução «humanista e liberal».

Ao verem ameaçados seriamente os seus inúmeros interesses e o decorrente poder, os norte-americanos começaram a preparar uma contra-revolução, com o apoio dos exilados cubanos em Miami. J.F. Kennedy, que havia ganho as eleições em Novembro de 1960, deu luz verde à CIA para levar a cabo a famigerada invasão da Baía dos Porcos. A 15 de Abril de 1961, duas bases aéreas, situadas em Havana e em Santiago, foram bombardeadas por aviões B-26 disfarçados pela CIA com as cores da bandeira cubana. O ataque provocou sete mortos e, no dia seguinte, durante o funeral das vítimas, Fidel declarou pela primeira vez a verdadeira natureza do novo regime cubano: «Aquilo que os imperialistas não podem perdoar-nos é termos feito uma revolução socialista mesmo nas barbas dos Estados Unidos.» Ou seja, um regime socialista (comunista) acabava de se instalar a 160 quilómetros da maior potência capitalista. Na noite de 17 de Abril, cerca de 1300 cubanos exilados, dirigidos e treinados pela CIA, desembarcaram na Playa Giron com a intenção de estabeleceram um “governo provisório” no interior de Cuba, que permitisse aos EUA uma das suas conhecidas, e já habituais, invasões “humanitárias” em prol da Democracia. Essa operação foi um dos mais ridículos fracassos militares dos Estados Unidos: em menos de dois dias, os rebeldes foram presos, a operação desmantelada, e Fidel Castro e o novo regime comunista puderam ascender ao estatuto de heróis que desafiaram e venceram o gigante incontestado.

A 25 de Abril, Kennedy declarou o embargo económico a Cuba. Ora, essa medida político-diplomática teve o efeito perverso de consolidar e fortalecer o regime de Havana. Espantosamente, parece que nenhum dos sucessivos cérebros que foram passando pela administração norte-americana, durante quase cinquenta anos, percebeu isso. Nem depois da implosão da URSS. Tivessem os Estados Unidos outra abertura (em vez de terem perdido tempo a tentar matar Castro por dezenas de vezes) e, convenço-me, teriam sido mais fáceis e mais rápidas as mudanças que têm vindo a acontecer em Cuba. O que ficou muito claro é que o líder hegemónico capitalista nunca perdoou a humilhação que um pequeno país das Antilhas lhe infligiu no seu próprio quintal, uma vez que a revolução de 59 pôs em causa o domínio total dos EUA na zona e serviu de exemplo para outros pontos do planeta. Isso jamais agradou aos norte-americanos, que haviam dominado Cuba durante décadas sucessivas. Quando, em 1898, os Estados Unidos ajudaram os cubanos a libertarem-se dos espanhóis, não foi para lhes oferecerem a independência; foi para trocar de senhorio. Como tão bem é resumido na expressão de Pierre Kalfon, «a liberdade que foi concedida aos cubanos [de 1898 a 1959] não ultrapassa a da dosagem da bebida denominada, por ironia, Cuba libre: quatro porções de coca-cola para uma de rum crioulo.»