La sonrisa de alas flameantes, Juan Miró

BARCO AO FUNDO

(crónica/conto em miniatura)

Quase no limite da primeira viagem de noivado, a bordo de um cruzeiro de luxo no Mediterrâneo, confortavelmente instalados numa cabine em primeira classe, e embriagados por um enamoramento deífico — com oferta sobre oferta de flores viçosas de significado; anéis e colares e botões de punho presenteados; juras de paixão eterna gravadas a caneta nos cartões do bingo; risos por tudo e por nada; noites de cama sempre suada; silêncios introspectivos à hora do dilúculo; pequenos-almoços de papaia, iogurte natural de fabrico diário composto por mirtilos, nozes, sementes de chia e agave, mais uma dúzia de morangos lambidos, trincados e permutados boca-a-boca em manobras de língua habilidosa; ostras e champanhe numa toalha de linho estendida no deck; jantares enfeitiçados pela sedução; conversas animadas com as mesmíssimas palavras e frases a saírem de ambas as bocas em rigoroso simultâneo, revelando uma comunhão que certificava uma inédita metempsicose entre as suas almas em corpo vivo; danças de rosto e peito colados ao som das vozes do Sinatra, da Etta Jones e do Tony Bennette; gins tónicos e margaritas em doses imoderadas; gargalhadas de origem etílica à luz do mar nocturno; passeios de mão dada e dedos entrelaçados ao longo da meia-nau; e tudo o mais que desejarem imaginar e acrescentar –, ele ajeitou o tablet para a fotografar na extrema fronteira da proa emoldurada sobre mais um pôr-do-sol mediterrânico, e depois de cruzar os braços com o dispositivo pendurado numa das mãos, colocou um sorriso enrabichado e afirmou com naturalidade:

– Sabes amor, agora, ao olhar o jeito delicado como acendeste o cigarro entre os dedos, e depois sopraste o fumo para cima com os teus olhinhos semicerrados e a ajuda do lábio inferior saliente, assim em forma de careta mimada, fizeste-me recordar nitidamente a minha ex-mulher.

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